Conheça o Cine Tutu, cinema de rua em SP que quer chocar – 21/09/2026 – Ilustrada
Esqueça os tecidos pretos que costumam revestir as salas de cinema, as poltronas sem personalidade e a bonbonnière adornada por televisores que disparam combos de pipoca e refrigerante. São Paulo vai lucrar um cinema que pretende ser a antítese disso tudo.
Localizado na rua Girassol, na Vila Madalena, o Cine Tutu abre as portas no dia 2 de outubro com cortinas de veludo virente nas paredes, 114 poltronas com estampas florais e o café-bar Barouche, já sabido de alguns paulistanos.
O projeto é mais um de Paulo Velasco, proprietário do Cinesala, a pouco mais de um quilômetro dali, em Pinheiros. A teoria surgiu há seis anos, mas só há dois ele conseguiu alugar o endereço, uma sala de espetáculos de um prédio mercantil que nunca cumpriu sua vocação para o teatro.
“Queríamos fazer um deboche, tirar um sarro do cinema de shopping”, diz ele, que se juntou a três outras figuras da cena cultural paulistana para a empreitada –Alfredo Setubal, sócio da editora Todavia, Marcos Nisti, sócio da produtora Maria Farinha Filmes, e Mariana Lucas, professora e pesquisadora de cinema da Faap.
Para ajudar no deboche, eles chamaram o arquiteto e designer Isay Weinfeld, o responsável pelo projeto do próprio prédio mercantil e do teatro que não vingou, para repensar o espaço.
Na “risota antirrede” que fizeram juntos, que pretende quebrar a expectativa do público, as poltronas deveriam lucrar vida e o cinema deveria ser um sítio de convívio, não exclusivamente uma sala de projeção.
Daí surgiu uma extensão ampla para o Barouche, que teve seu menu de drinques, cafés especiais, vinhos e cervejas copiada daquele já existente no Cinesala, mas ampliado com novas opções de sanduíches e saladas, e uma escadaria em formato de arquibancada, com estofados que convidam os espectadores a passarem mais do que as poucas horas de filme por ali.
Ao descer, eles se deparam com o foyer em terracota, vistoso por um grande mosaico de cartazes de filmes garimpados de um arqueólogo em Paris ou amealhados de arquivos pessoais –”O Agente Secreto”, “Ainda Estou Cá” e “Pixote: A Lei do Mais Fraco” dão as caras.
No fundo, há ainda uma cabine de fotos instantâneas ao lado dos totens para compra de ingressos, que também podem ser adquiridos na bilheteria física, envelopada com ladrilhos verdes que antecipam a cor escolhida para a sala de projeção.
São 8,90 por 3,72 metros de tela, com projeção a laser e solução 4K. O sistema de som é da Dolby e a acústica, conta Velasco, foi pensada para potencializar a experiência de ver épicos porquê “Ran”, clássico do rabino nipónico Akira Kurosawa, um dos filmes que inauguram a primeira semana cinematográfica do Cine Tutu, a partir de outubro.
Nos primeiros dias, “Digger”, aposta de Hollywood estrelada por Tom Cruise, e “Naza”, documentário sobre a guerra em Gaza que acaba de ser premiado no Festival de Veneza, também poderão ser vistos do conforto das poltronas estampadas, algumas delas com reclinação suficiente para se deitar.
Pode até desabar refrigerante e manteiga de pipoca no estofado referto de florzinhas, brinca Velasco, pois a teoria é que manutenção e limpeza sejam constantes, para que o Cine Tutu esteja sempre em sua melhor forma.
“Queremos gerar uma comunidade, porquê fizemos com o Cinesala. Existe um público em São Paulo que procura lugares com significado, que quer um guarida de um espaço que seja público-privado. Digo isso porque um cinema é um tanto que não tem possessor, que deve ser adoptado por todos, até para que seja um projeto viável”, diz Velasco.
“A escassez de cinemas de rua em São Paulo faz o público valorizar esse tipo de espaço. Existe um ato, não exatamente político, mas ainda assim um ato de escolha ao ir a um cinema de rua. Fala muito sobre a visão de cidade das pessoas. É entender que a experiência cultural, quando compartilhada, é dissemelhante”, continua o empresário, que não vê o streaming ou os multiplexes porquê vilões, mas porquê experiências complementares. É porquê ir a um restaurante ou pedir delivery, explica ele —há espaço e momento para cada um.
A programação pretende despertar um tino de fidelidade nas pessoas. Porquê acontece com o Cinesala, que também tem exclusivamente um projetor, muro de três e quatro filmes se alternam ao longo do dia, cada um num horário. Eles vêm de grandes estúdios hollywoodianos, produtoras independentes, cineastas brasileiros e grandes festivais europeus.
Volubilidade é segmento da saúde do cinema, diz o empresário. Um quarto da programação será destinada a sinais –pré-existentes ou gestadas ali, porquê uma que vai discutir arquitetura e a cidade de São Paulo, nos planos para o ano que vem– e debates também estão previstos, porquê o que antecipa a inauguração do espaço no dia 1° de outubro, às 20h.
Promovida pela Folha em parceria com a Vitrine Filmes, a sessão privativo de “Naza”, gratuita, será sucedida por um bate-papo com a jornalista Patrícia Campos Mello e Arlene Clemesha, historiadora e professora da USP. Pouco depois, a partir do dia 15, o Cine Tutu entra na programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
“Isso é muito do espírito do tempo, porque hoje temos uma opulência de teor, às vezes passamos tanto tempo escolhendo o que ver na TV que acabamos desistindo”, brinca Velasco, ao falar da valia da curadoria porquê pilar de fundamentação do cinema de rua.
São ao todo cinco os pilares pensados pelo empresário antes mesmo de penetrar o Cinesala, há 12 anos –curadoria atenta e cuidadosa; integração com a rua e, portanto, com a cidade; preocupação e desvelo estético; um moca ou bar para antes ou depois das sessões e ser democrático.
Essa última segmento, Velasco sabe muito, é complexa no Brasil. “Qualquer resposta que eu te der vai ser limitada”, diz ele ao ser questionado sobre o trajo de o Cine Tutu estar num dos bairros mais elitizados da cidade mais rica do país.
“Essa resposta é complexa, mas teremos um metrô cá perto [a futura estação Girassol da linha 20-rosa], vamos ter ingressos começando a R$ 26 e pretendemos firmar parcerias com as escolas públicas da região, para formar público e fazer com que as pessoas se sintam à vontade para entrar cá.”
Velasco não fala em valores de investimento ou manutenção do Cine Tutu, mas pretende seguir firme na aversão à cessão de “naming rights”, estratégia à qual a maioria dos cinemas de rua recorrem para que possam manter suas portas abertas –caso do Espaço Petrobras de Cinema, na rua Augusta, por exemplo.
Segundo ele, o Cinesala é um “grande laboratório cultural de negócios”, que em 12 anos só precisou recorrer a aportes financeiros durante a pandemia de Covid-19, numa estratégia que mistura venda de ingressos, locação para eventos, receita do café-bar e patrocínios menos ostensivos, e que agora será replicada.
É logo que se cria o que ele vê porquê um rebento. Não à toa, batizou o novo espaço em homenagem à filha de seis anos, Antônia –ou Tutu.





