A Despensa do Mundo de 2030 simboliza o vértice da sofreguidão que transformou o futebol em projeto pátrio no Marrocos. Coanfitrião do torneio, ao lado de Portugal e Espanha, o país africano conduz um grande projecto de infraestrutura para o megaevento, estimado em murado de 14 bilhões de euros (R$ 92 bilhões), segundo documentos da candidatura apresentados à Fifa (Federação Internacional de Futebol).
Antes disso, porém, a seleção do país se concentra no Mundial de 2022. A equipe será a primeira adversária do Brasil na temporada de grupos, levando ao torneio da América do Setentrião o padrão que combina investimento estatal, sofreguidão internacional e resultados esportivos recentes.
Secção da população marroquina, porém, não está empolgada com a chance de encontrar a seleção brasileira no Mundial ou mesmo sediar o torneio daqui a quatro anos. Para essa parcela, o gastos são uma inversão de prioridades. Desde setembro do ano pretérito, protestos liderados por jovens em diferentes cidades, uma vez que Rabat, Casablanca e Fez, criticam o investimento bilionário no torneio, com slogans uma vez que “queremos hospitais, não estádios”, e cobram mais recursos para saúde e ocupação.
Em 2023, de conformidade com reportagem da BBC, estimava-se que havia 7,8 médicos para cada 10 milénio marroquinos, número muito subalterno à recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde), que é de 23 médicos para cada 10 milénio habitantes.
A reação interna —que guarda alguma semelhança com o que ocorreu no Brasil em 2014— contrasta com a estratégia do governo marroquino de transformar o Mundial em instrumento de projeção internacional, usando o futebol para reposicionar a imagem do país no exterior.
“O entrada ao futebol de escol está fortemente concentrado nos grandes centros urbanos, onde estão a infraestrutura, os treinadores e as redes de reparo”, afirmou à Folha Dirk Witteveen, sociólogo e pesquisador de políticas sociais da Universidade de Oxford. “Isso cria uma desigualdade geográfica clara: jogadores e cidadãos de regiões periféricas ou rurais enfrentam muito mais barreiras para entrar no sistema econômico.”
O diagnóstico ajuda a explicar por que o incremento do futebol não se espalha pelo país. De conformidade com dados do Banco Mundial, os 20% mais ricos concentram mais de metade da renda em Marrocos, enquanto o desemprego entre jovens supera 20%, segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho).
Embora o país tenha investido na modernização de centros de treinamento e na profissionalização de sua estrutura esportiva, o entrada às principais oportunidades permanece concentrado.
O país incluiu seis estádios em seu projecto para receber a Despensa, e todos ficam nas regiões urbanas das principais cidades do país. Cinco deles já existem: Estádio Príncipe Moulay Abdellah (Rabat), Grand Stade de Tanger (Tânger), Estádio de Fez (Fez), Estádio de Agadir (Agadir) e Estádio de Marrakech (Marrakech).
O sexto palco, o Estádio Hassan 2º, está em construção, projetado para ser o “maior estádio do mundo”, com capacidade para 115 milénio espectadores.
A estádio ficará localizada na cidade de Benslimane, sobre 38 quilômetros de Casablanca. E é o trunfo de Marrocos para tentar tirar a final da Despensa do Mundo de 2030 do Santiago Bernabéu, morada do Real Madrid, na Espanha.
Pesquisadores apontam, porém, que a ampliação da infraestrutura ocorre em um contexto de pressão sobre recursos básicos. O país enfrenta estresse hídrico severo, segundo o Banco Mundial, em um cenário em que murado de 80% da chuva disponível é destinada à lavra, de conformidade com a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimento e Lavra).
Ao mesmo tempo, o investimento no futebol responde a objetivos que vão além do campo. “O uso do futebol uma vez que utensílio de projeção internacional e construção de imagem é medial para países uma vez que Marrocos”, afirmou o britânico Simon Chadwick, perito em economia do esporte. “O país utiliza o esporte uma vez que base para se declarar uma vez que uma liderança geopolítica no continente africano.”
Esse tipo de estratégia não é novidade. “Há mais de um século, países utilizam grandes eventos esportivos para levantar seu status internacional, projetar uma imagem ao mundo e substanciar a construção pátrio”, disse Kristina Spohr, professora de história internacional da London School of Economics.
Mas o alcance dessa projeção tem limites. “Eventos esportivos produzem janelas de atenção, mas seus efeitos sobre a imagem internacional tendem a ser efêmeros e seletivos”, afrimou Vitória Baldin, pesquisadora em notícia pela Universidade de São Paulo.
Na prática, isso significa que o sucesso esportivo pode conviver com tensões internas sem necessariamente resolvê-las, uma vez que afirma o sociólogo David Giulianotti: “O sucesso internacional pode coexistir com profundas desigualdades estruturais dentro dos países”.
Embora Marrocos tenha registrado incremento econômico nos últimos anos, os ganhos permanecem concentrados, enquanto segmento da população enfrenta dificuldades de entrada a ocupação, saúde e ensino. Essa distribuição desigual está no meio das críticas recentes.
A Despensa de 2030 tende a expor esse contraste do caso marroquino, entre o país que se apresenta ao mundo e aquele que ainda enfrenta desafios internos para partilhar de forma mais equilibrada os benefícios do próprio desenvolvimento.





