Mais uma vez, o futebol não vai voltar para morada: em unicamente sete minutos, o tempo que a Argentina precisou para virar o jogo da semifinal da Despensa do Mundo de 2026 com dois gols no término (2 a 1), os torcedores ingleses passaram do sonho de repetir os feitos dos heróis de 1966 para a mais absoluta desolação.
“Eu queria ter esperança, mas essa esperança acabou”, disse Sean Bannon, de 33 anos, à AFP. Ele estava parado, olhando incrédulo para a televisão em um pub no setentrião de Londres, incapaz de admitir que sua seleção havia esbanjado uma oportunidade histórica daquela maneira.
A Inglaterra chegou a uma final de Despensa do Mundo unicamente uma vez, há 60 anos, o que significa que gerações de torcedores da poderosa Premier League não viram seus ‘Three Lions’ rugirem na maior partida do maior torneio de futebol do mundo.
Esse pub londrino era um microcosmo do clima em todo o país. Dezenas de pessoas acompanhavam o jogo até mesmo da rua, espiando pelas janelas porque não havia mais espaço lá dentro.
“Escapou das nossas mãos mais uma vez. Acho que voltamos à estaca zero”, acrescentou Bannon antes de deixar o sítio.
Em outra secção do entusiasmado bairro de Camden Town, o desfile de rostos abatidos saindo dos pubs e locais que transmitiram a partida dizia tudo, mesmo no silêncio.
“Estou tão triste, tão chateada. Eu realmente acreditava que desta vez ia dar manifesto… e as coisas estavam indo tão muito!”, lamentou Jemima, uma estudante de 21 anos que vestia a camisa da seleção.
Silêncio e resignação
Durante o torneio, os torcedores deram uma trilha sonora única aos jogos da Inglaterra, cantando a plenos pulmões “Hey Jude”, dos Beatles —em homenagem ao jogador Jude Bellingham— “Wonderwall”, do Oasis, e a popular “It’s Coming Home”, mas, posteriormente a partida, o único libido era o silêncio.
A procissão silenciosa, quase funéreo, era interrompida nesta secção de Londres unicamente por ocasionais gritos de frustração ou raiva, uma vez que o de uma mulher chutando um cone de trânsito de plástico laranja.
Para muitos no país, esta era a primeira vez que viam a Inglaterra jogar contra a Argentina. A última grande partida desta rivalidade, que vai muito além do futebol, havia sido na Despensa do Mundo de 2002, quando os europeus saíram vitoriosos por 1 a 0.
Houve um amistoso em 2005, também com vitória inglesa (3 a 2), mas isso foi antes da ‘era Messi’.
Tom Denison, um técnico de informática de 31 anos de Camden, foi uma das 300 pessoas que lotaram o pub Edinboro Castle para ver à partida em um telão na secção externa.
“Todos sabemos que é a primeira vez que a Inglaterra joga contra (Lionel) Messi e que Messi joga contra a Inglaterra. Era a partida que todos nós esperávamos!”, disse ela.
“Obviamente, é um jogo repleto de história”, afirmou, referindo-se ao famoso gol “Mano de Dios” de Diego Maradona na Despensa do Mundo de 1986, no México, e à disputa de soberania sobre as Ilhas Malvinas.
Emily Dolling, de 25 anos, previu que a manhã de quinta-feira traria uma sensação de grande desânimo, enquanto sua amiga Sadie Nencini tentava manter o otimismo.
“Fizemos um bom torneio, portanto acho que as pessoas terão orgulho de qualquer forma. Eles foram muito!”, disse Sadie à AFP.
Comunidade argentina comemora
O primeiro-ministro Keir Starmer disse estar “assolado” com a roteiro, mas elogiou os jogadores: “A paixão e a pujança que vocês demonstraram representando o escudo nos encheram de orgulho”.
Em uma mensagem no X, a Família Real também se juntou às homenagens, apesar da logro: “Embora vocês, Three Lions, possam estar lambendo suas feridas hoje, vocês continuam sendo o orgulho de toda uma região e se reerguerão”.
Em outro ponto da capital britânica, centenas de torcedores argentinos, em manifesto sentido, isolados em território inimigo, se reuniram para compartilhar a experiência: o Lighthouse Theatre, no bairro de Camberwell, no sul de Londres, serviu de sítio para assistirem juntos à partida.
Agitando bandeiras alvicelestes e tocando tambores, esses torcedores não se cansaram de comemorar, mesmo estando em desvantagem durante boa secção do segundo tempo.
O fragor aumentou vertiginosamente com o gol de empate e a subsequente vitória da seleção, que classificou para uma verdadeira ‘finalíssima’ contra a Espanha.





