Você sabe onde jogar aquele papelzinho em que as figurinhas da Despensa vêm coladas?
Em meio à febre do álbum da Despensa do Mundo de 2026, o papel que sobra depois que a figurinha é destacada e colada não deve ir nem para o lixo generalidade nem para aquele dos itens recicláveis que vão para a coleta seletiva tradicional.
Publicado na indústria uma vez que liner, esse tipo de papel é a base do autoadesivo. Trata-se de um papel revestido por uma fina estrato de silicone que impede a cola da figurinha de aderir permanentemente à superfície, permitindo que ela seja destacada e colada no álbum.
O problema é que essa mesma propriedade dificulta a sua reciclagem. Se descartado no lixo generalidade, o liner acaba em aterros sanitários. Se enviado para a coleta seletiva, costuma ser rejeitado pelas cooperativas e centrais de triagem, já que a maior secção das recicladoras de papel não possui tecnologia para processá-lo.
“Existem fábricas pequenas que estão testando formas de reciclar o liner. Mas, hoje, é a Polpel que pode receber liners em volume”, afirma Fábio Suetugui, mentor da Associação Pátrio dos Aparistas de Papel (Anap).
A empresa citada é a Polpel, recicladora de Guarulhos (SP) que afirma operar a única tecnologia da América do Sul capaz de transformar liners em celulose. O processo é mantido em sigilo industrial, mas permite que o material seja reaproveitado na fabricação de novos papéis, uma vez que embalagens, papel-cartão e papel-toalha.
Até 10 de agosto, a empresa está recebendo liners de figurinhas da Despensa enviados por pessoas físicas, escolas, condomínios e outros grupos organizados. Toda a renda obtida com a comercialização da celulose resultante da reciclagem dos liners das figurinhas da Despensa será revertida para o GRAACC (Grupo de Pedestal ao Jovem e à Gaiato com Cancro).
A iniciativa nasceu durante a Despensa de 2022, a partir de uma inquietação doméstica.
A designer gráfica e gestora ambiental Patrícia Meirelles de Azeredo Coutinho acompanhava os três filhos na coleção das figurinhas quando começou a se incomodar com a quantidade de liners descartados. Seu marido, Sérgio Talocchi, gerente sênior de sustentabilidade da Natureza, sabia que a empresa já enviava para a Polpel os liners gerados pelos rótulos de seus produtos.
A teoria inicial era simples: recolher o material no condomínio e encaminhá-lo junto aos resíduos enviados pela Natureza. Patrícia comentou a proposta em grupos de WhatsApp da escola dos filhos e foi surpreendida pela reação.
“Achei que meu celular tinha sido clonado. De repente havia centenas de mensagens de pessoas querendo participar da iniciativa”, lembra.
O que seria uma ação pontual se transformou em uma campanha vernáculo. Escolas, empresas e famílias passaram a organizar pontos de coleta. Com esteio financeiro da Panini, editora do álbum, foi verosímil contratar uma empresa para recolher e encaminhar o material coletado.
Ao final da campanha, tapume de 230 quilos de liners —aproximadamente 1 milhão de unidades— foram reciclados e transformados novamente em celulose.
Neste ano, porém, a mobilização ocorre sem o esteio financeiro da editora. Procurada pela Folha, a Panini não respondeu aos questionamentos até a publicação desta reportagem.
A campanha depende principalmente da participação voluntária. Algumas escolas, uma vez que Oswald de Andrade, Piaget e Elvira Brandão, criaram pontos de coleta abertos à comunidade em suas unidades. O perfil do Movimento Sobre Nós no Instagram divulga novos locais de recebimento à medida que eles surgem.
Quem não encontrar um ponto próximo pode reunir os liners e enviá-los diretamente para a Polpel até 10 de agosto. O endereço é rua Padre Marcos, 761, CEP 07250-071, em Guarulhos.
Para Patrícia, o valor da iniciativa vai além da reciclagem. “As crianças criaram gincanas, projetos e ações de conscientização. É uma oportunidade de instrução ambiental que nasce de um tanto presente no cotidiano delas.”
Enquanto milhões de figurinhas são coladas nos álbuns da Despensa, o pequeno papel que sobra deixa de ser um resíduo sem orientação e passa a integrar uma prisão de reciclagem que começou com uma pergunta simples: onde jogar o papel em que a figurinha vem colada?





