A inserção de mulheres negras no mercado editorial brasílico, que historicamente privilegia homens brancos, faz com que suas histórias ganhem vida, distinção e humanidade. A avaliação é da autora Cidinha da Silva, que lança Quando borboletas furiosas se tornam mulheres negras: Nós e os livros, nesta sexta-feira (5), durante mesa de conversa n’A Feira do Livro. 
“Histórias novas e desconhecidas têm sido contadas; personagens antes tratados porquê utensílios de moradia, objetos de leito, mesa e banho – trabalhadoras domésticas e outras funções laborais subalternizadas e mal remuneradas”, disse Cidinha da Silva, em entrevista à Dependência Brasil.
O lançamento da autora ocorre a partir das 13h, no Tablado Literário Mário de Andrade. Na obra, ela investiga as tensões, armadilhas e insurgências que atravessam a experiência de escritoras negras no mercado editorial. Depois a programação, Cidinha receberá o público em sessão de autógrafos.
A escritora ressalta que é preciso enfrentar os critérios racistas, machistas, misóginos e lesbofóbicos que têm privilegiado os homens brancos nesse espaço.
“Sujeitos que não nasceram em início de livros, que não herdaram bibliotecas de pais, avós, trisavós, têm conseguido falar, gerar, fabular histórias, para as quais há muito interesse.”
A trajetória de Carolina Maria de Jesus, lembrou a autora, abriu caminhos para mais escritoras negras, além de revelar elementos porquê: “a coragem de cevar um projeto literário, mesmo em condições absolutamente adversas; o gosto do mercado editorial para extrair todo o sumo do que possa vender; os ardis do racismo para erigir uma personagem, exauri-la e depois descartá-la”.
Além da programação integralmente gratuita do festival literário, cada visitante pode escolher dois títulos de uma seleção diversa, disponibilizados gratuitamente, na tenda da prefeitura de São Paulo. No estande, o público terá informações sobre a rede de bibliotecas municipais, instrumento de democratização do entrada à leitura.
Dois dos títulos disponíveis são Escritoras de Cadernos Negros, com textos de Esmeralda Ribeiro e Conceição Evaristo; e Olhos de Azeviche, que reúne dez autoras negras, porquê a própria Cidinha da Silva e Geni Guimarães.
Confira os principais trechos da entrevista com Cidinha da Silva:
Dependência Brasil – Qual é o lugar das mulheres negras no mercado editorial atualmente?
Cidinha da Silva – No mundo das editoras, o lugar ocupado pelas autoras negras é diverso e está muito relacionado ao poder de lume da autora em tela, mensurado, por exemplo, pelo interesse manifesto de outras editoras em publicá-la, o que leva a editora da vez a oferecer boas condições para ter mais títulos dela no catálogo, ou mesmo para fidelizá-la. A definição desse lugar deve-se também às cotas raciais, toda editora quer uma autora negra para invocar de sua.
No que concerne aos eventos literários, é o lugar de alguns grandes nomes que ocupam espaços por elas mesmas, pelo reconhecimento do trabalho construído, ou seja, já ultrapassaram as cotas de participação destinadas às escritoras negras, são elas Ana Maria Gonçalves, Conceição Evaristo, Djamila Ribeiro, Elisa Lucinda, Marilene Felinto, Ana Paula Maia e Grace Passô. Tem um outro pelotão em subida que em breve integrará o primeiro, formado por mulheres porquê Bianca Santana, Luciany Aparecida, Eliane Marques, Bárbara Karine, Carla Akotirene e Rosane Borges.
Depois vem um terceiro pelotão que ocupa um lugar de alternância na quinhão destinada a autoras negras nos eventos literários de diferentes portes, por motivos porquê contemplar uma autora negra por ano ou edição do evento ou disparidade de cachês. O ideal seria contratar as autoras X, Y e Z, mas, porquê o cachê destas é considerado muito sobranceiro e a agenda muito ocupada por eventos que realmente valem a pena, os organizadores fazem cruzamentos de visibilidade pública, número de seguidores em redes sociais, histórico de participação em outros eventos, humores, sítio de residência no país – valor do bilhete leviano -, traquejo para tirar a galera do pavimento e capacidade universal de entretenimento. Depois de descreverem e solucionarem a equação, as substitutas são escolhidas e convidadas.
[Outro elemento para a escolha é a] avaliação de linguagem da autora em tela – gula, contemplativa, ácida, raivosa, amarga, assertiva, ressentida, vitimista, altiva, vingativa, ou aquilo que os organizadores consideram ponderação – para definir o que é mais adequado ao momento, fundamentado nos interesses dos patrocinadores, do público, do peso na bolsa de valores da prensa cultural, da sátira literária etc. [Além da] capacidade de fala e trânsito junto aos donos e donas da carteira, ou seja, aos players que definem quem entra e quem sai de cena, quem é lembrado e quem é esquecido, quem ficará sob holofotes e quem será relegado às sombras ou às feras.
Dependência Brasil – Por muito tempo, as principais referências no mercado editorial eram homens brancos. Você avalia que há alguma mudança nesse padrão?
Cidinha da Silva – Sim, há mudanças, mas ainda estamos longe de compreender um percentual de escritoras que se aproxime do número avassalador de leitoras que compõem o todo da audiência leitora. O que fazer para mudar? Enfrentar de peito ingénuo e com medidas propositivas os critérios racistas, machistas, misóginos, lesbofóbicos que têm privilegiado os homens brancos.
Dependência Brasil – Quais obstáculos as mulheres negras enfrentaram e ainda enfrentam para inserção nesse espaço?
Cidinha da Silva – Os obstáculos enfrentados são aqueles atinentes às sociedades racializadas – hierarquicamente organizadas por critérios raciais – e racistas porquê a sociedade brasileira. Neste espaço, porquê em todos os outros, a inserção se deu e se dá pela luta política, por fim, ninguém cá adormece ouvindo a melodia da meritocracia estética, não é?
[As estratégias que viabilizaram essa inserção incluem] não cevar ilusões, ter atenção incessante aos jogos de interesses e de poder, compreender que zero está proveito, tudo está em disputa.
Dependência Brasil – Que resultados e reflexos podemos observar a partir da maior participação das mulheres negras no mercado editorial?
Cidinha da Silva – Histórias novas e desconhecidas têm sido contadas; personagens antes tratados porquê utensílios de moradia, objetos de leito, mesa e banho – trabalhadoras domésticas e outras funções laborais subalternizadas e mal remuneradas -, têm ganhado vida, distinção e humanidade. A frase “bibliodiversidade” tem tido os sentidos ampliados. Sujeitos que não nasceram em início de livros, que não herdaram bibliotecas de pais, avós, trisavós, têm conseguido falar, gerar, fabular histórias, para as quais há muito interesse.
A gente refloresta os imaginários, porquê nos ensinou a mana guarani, Geni Núñez, e, reflorestá-los é potencializar a vida em alternativas mais saudáveis e plenas.
Dependência Brasil – Gostaria que você citasse algumas das mulheres negras fundamentais para terebrar os caminhos no mercado editorial brasílico.
Cidinha da Silva – São muitas, em diferentes épocas, citarei algumas, embora seja consciente do risco de cometer grandes injustiças. Dentre as escritoras precursoras temos Maria Firmina dos Reis e Auta de Souza, nomes que tiveram existência isolada no século 19 e de quem significado foi restaurado mais de século depois de elas terem partido.
O fenômeno Carolina Maria de Jesus também escancarou portas e mostrou pelo menos três coisas fundamentais: a coragem de cevar um projeto literário, mesmo em condições absolutamente adversas; o gosto do mercado editorial para extrair todo o sumo do que possa vender; os ardis do racismo para erigir uma personagem, exauri-la e depois descartá-la. A gente aprendeu e aprende muito com a trajetória de Carolina.
Antonieta de Barros e Ruth Guimarães foram autoras negras que construíram a obra e um lugar na literatura brasileira nas primeiras décadas do século 20, totalmente à revelia dos holofotes. Geni Guimarães tem aproximações de Ruth Guimarães, as duas são do interno de São Paulo, atuaram porquê professoras e ousaram fustigar na porta das editoras estabelecidas para apresentar seu trabalho, conseguiram, se firmaram, foram premiadas e isso nos abriu portas.
Conceição Evaristo é um dos fenômenos contemporâneos de protecção do público, vendagem de livros e reconhecimento da sátira, tendo sido a primeira representante consagrada daquilo que desde os anos 1980 tem sido percebido porquê literatura negra.
Dependência Brasil – Quais outras contemporâneas você citaria?
Cidinha da Silva – A meu ver, existem quatro escritoras contemporâneas pouco incensadas que ao longo de décadas têm feito um trabalho despreocupado dos ditames do mercado e muito focado em projetos literários consistentes, implementados porquê verosímil nas editoras tradicionais: Marilene Felinto, Elisa Lucinda, Heloísa Pires Lima e Ana Paula Maia.
Djamila Ribeiro tem também atuação gigantesca em nosso obséquio no mercado editorial brasílico e não abriu somente portas, abriu comportas. A existência de rios de diferentes matizes tem sido verosímil a partir de suas articulações e projetos, [como] a coleção Feminismos Plurais e o espaço de protagonismo preto ocupado por ela, [que] merece estudos aprofundados. A capacidade de negociação de Djamila no mercado também é alguma coisa inaudito, inspirador e definidor de novos patamares para autorias negras.
Bárbara Karine, que me parece seguir com estilo próprio as veredas abertas por Djamila, também ensina muito, principalmente às novas gerações. Por término, nossa imortal da ABL [Academia Brasileira de Letras], Ana Maria Gonçalves, que é acadêmica, reconhecida, premiada e imortalizada também pelo samba – samba-enredo da Portela em 2024 -, abrindo possibilidades para que outras autoras também sejam imortalizadas em vida pelo cancioneiro popular.





