Crítica: ‘Dia D’, de Spielberg, é sequência adulta de ‘ET’ – 09/06/2026 – Ilustrada
Quase todas as boas histórias de proeza são histórias de volta ao lar. Felizes, infelizes, difíceis com frequência, complicadas, por vezes frustradas. Todas têm uma mesma matriz: Homero e “Odisseia”. “Dia D”, de de Steven Spielberg, está nessa linhagem e deixa uma sensação muito boa —ao contrário, diga-se, do recente trailer de “A Odisseia” na visão de Christopher Nolan.
Temos cá, entre tantas histórias que se acotovelam no roteiro, uma história de volta para moradia. Talvez seja a principal do filme. Margaret Fairchild, papel de Emily Blunt, é a moça do tempo de um via de Kansas City —portanto, um via meio caipira— que subitamente se descobre dotada de poderes paranormais. Basta olhar para uma pessoa que lhe dá a ficha inteira. Mas Margaret desconhece uma secção de sua puerícia, o que parece atormentá-la.
A história paralela diz saudação a Kellner, papel de Josh O’Connor, também dotado de poderes. No caso dele, a linguagem matemática lhe vem inteira, com todas as equações resolvidas. É porquê se falasse uma língua das línguas, universal.
Kellman procura roubar, a serviço de Hugo —Colman Domingo—, certos arquivos secretíssimos a saudação de visitas de extraterrestres que recebemos ao longo do século 20. Do lado contrário está Noah —Colin Firth—, manda-chuva de uma corporação que detém esses documentos e pretende mantê-los secretos.
Se a volta ao lar anunciada é a de Margaret, não custa lembrar que, no pretérito, um ET perdido na Terreno queria, antes de tudo, voltar para moradia.
Em suma, temos cá Margaret e Kellner, com seus poderes extraordinários —e que não se confundem com os de um super-herói—, tentando se apossar de documentos que a gente nem sabe quais são, e, contra eles, as forças do órgão de Noah, que são, a rigor, forças do governo.
Há mais gente envolvida, porquê freiras e uma noviça rebelde —agora ex-noviça—, sem relatar uma apocalíptica Terceira Guerra Mundial prestes a ocorrer, que a TV de Kansas tenta mostrar da melhor maneira verosímil.
Mas o núcleo é a luta de Margaret e Kellner, a que não falta uma perseguição automobilística que se desdobra em proeza ferroviária. E cá Steven Spielberg mostra o que tem de melhor.
Quando filma a perseguição, sentimos não aquela convenção comum de quase todo filme hollywoodiano, mas a retomada de uma tradição. É porquê se mergulhasse em 1920, em Griffith e em Buster Keaton. Na sequência em que entra o trem, é porquê se toda a tradição ressurgisse, novidade em folha. Esse é o grande truque.
O tecido de fundo é bastante simples —os ETs trazem as virtudes da tolerância e da empatia para o mundo dos homens. Esses, no entanto, parecem mesmo fascinados com a possibilidade de criarem uma novidade guerra, que, simples, é uma ameaço à sobrevivência da espécie humana.
Desde muito tempo detrás, Spielberg escolhe o lado dos extraterrestres, não o dos homens. Esses são irracionais a ponto de se meterem numa guerra a que mesmo os vencedores sucumbirão —isso o filme não diz, mas está subentendido.
Quanto a Noah e sua corporação —que muito pode ser assimilada porquê qualquer órgão solene de informações—, tudo que precisam é reter as informações, usá-las porquê armas. E liquidar os ETs que podem oferecer uma selecção à insânia bélica dos humanos.
Enfim, “Dia D” é uma digna sequência de “E.T. O Extraterrestre” e “Contatos Imediatos de Terceiro Proporção”, agora numa chave mais grave e mais adulta.
Quanto ao seu orientação porquê resultado, periga desgostar um público que se acostumou a ver nos filmes de Spielberg alguma coisa imediatamente apreensível, comunicante etc. Desta vez, o roteiro esconde por um bom tempo o sentido do filme e passa a exigir bastante atenção, oferecido que não é caso de honrar de súbito quem é mocinho e quem é vilão nessa história, por quem devemos torcer e coisa e tal.
É um filme adulto, em suma, embora honre a legado dos filmes fantásticos do cineasta, que fascinaram as crianças a seu tempo. Há, talvez, um excesso de vai e vem a retorcer a trama, tornando-a um tanto rocambolesca demais —tributo a um sabor contemporâneo pelo excessivo, sem incerteza.
Em troca, temos um segundo lar ao qual retornar —a estação de TV. Ali, Margaret surge, logo no início, para dar as inofensivas notícias da meteorologia. Inofensivas, porque o tempo que vai fazer não depende de nós. No final, ao contrário, estaremos na TV novamente, reentronizada porquê grande e universal meio de notícia, e às voltas com notícias bastante graves.
Não olvidar, por término, que leste belo filme rouba seu título, na tradução brasileira, do dia decisivo da Segunda Guerra. Se Spielberg retorna ao fantástico —abdicando da premência do megassucesso prévio em obséquio daquilo que realmente o atormenta e atemoriza—, o seu “Dia D” é também aquele em que se decide o que o varão pretende de si mesmo e, finalmente, o orientação da espécie, agora e daqui a pouco.





