São dois em um varão só, que no termo são o mesmo. Alvaro Costa e Silva, o jornalista carioca que cresceu entre o Flamengo e a Glória, e Marechal, o personagem da prensa e da boemia da velha capital. O que é história de um e outro —real ou mito— nem sempre está simples.
O passo do siri patola, por exemplo, uma dancinha desengonçada que lembra remotamente o samba e se tornou uma espécie de mito em perceptível momento da noite carioca, ele voto que quem dançou foi o Marechal.
“Foi uma farra em uma sarau. Era um sambinha assim muito desastrado. Caiu no sabor do povo, porque eu dançava muito mal”, diz ele, antes de se emendar. “Mas o passo é do Marechal, não do Alvaro. Só danço quando o incorporo. Ou sou incorporado.”
Essa é só mais uma das histórias que, na boca dos bêbados ou dos sóbrios, mostram que ele é também um personagem do Rio de Janeiro —cidade que é um de seus principais temas, e de onde, desde 2015, escreve uma poste na página 2 da Folha.
Os textos que publicou ali nos primeiros dez anos de poste enchem seu novo livro, “No Turbilhão da Galeria – As Crônicas do Marechal”. É uma seleção que passa por samba, literatura, futebol e política, entre outros temas, e chega agora às livrarias.
“O grosso das minhas colunas são políticas, mas elas não estão selecionadas no livro. Essas ficam muito datadas”, diz Marechal. “Mas essa poste do Rio da Folha sempre teve isso de fugir um pouco da política. O próprio Carlos Heitor Cony, que escreveu ali, falava sempre do matéria, mas às vezes ia para Lins de Vasconcelos relatar um pouco da puerícia dele. O Ruy Castro faz pequenos ensaios sobre música e cinema.”
Por isso, surge ali a dupla Romeu e Julieta, parelha de cisnes assassinado no Parque Guinle. Um bem-te-vi famoso por ser antitabagista e arrancar os cigarros dos passantes no Catete. E um varão que vende roscas gritando pela região: “Três reais para consumir a minha rosca! Gente, a minha rosca é larga e gulodice!”
Também aparecem os personagens que ajudaram a ortografar a história da cidade. Porquê Cartola, que sumiu da Mangueira para viver um paixão que ninguém sabe quem era. E Carlos Cachaça, grande parceiro do sambista, que se recusa a revelar o sigilo mesmo diante da insistência de Marechal em uma entrevista —diz que o colega lhe aparecia em sonhos cobrando a promessa.
“Tem muita coisa do pretérito. Acho que esse pretérito explica o que ainda pode ser feito para que o Rio continue sendo o Rio. E não olvidar esses personagens que fizeram a cidade ser dissemelhante. É um pouco uma vez que tentar impedir essas transformações nocivas que a cidade enfrenta”, diz o responsável.
O livro ata pretérito e presente ao retratar tais transformações. Desde as mais antigas, uma vez que a derrubada do Morro do Fortaleza, no início do século 20, até novidades mais recentes, uma vez que o desenvolvimento da Barra da Tijuca e o uso de celular em conjunto de carnaval —invenção zero carnavalesca, diz o responsável, porque ajuda as pessoas a se encontrarem, quando a perdão é justamente se perder. “É um desmancha-prazer, acho um saco”, afirma Marechal.
O responsável é uma enciclopédia da história carioca, passando por seus malandros, sambistas, escritores e anônimos. E pudera. Contando só o tempo uma vez que jornalista, o historiador observa a cidade pelo menos desde o termo dos anos 1980. Foi quando começou na prensa, chegando a trabalhar simultaneamente, por um limitado período, em O Orbe e na Última Hora.
Era uma viagem para lá e para cá no tempo: no jornal de Roberto Pelágico, usava o computador; no de Samuel Wainer, a máquina de ortografar.
Antes de chegar à Folha, passou por outras publicações. Entre elas, editou o Ideias, influente suplemento literário do Jornal do Brasil, já na reta final do quotidiano carioca. Ele deve ser, aliás, um dos últimos jornalistas culturais da turma do JB ainda em atividade.
As histórias o acompanham nessa trajetória. Quem fala dele vai lembrar que é botafoguense. Que torce pelo Poderio Serrano. Que frequenta a Livraria Folha Seca e a Toca do Baiacu. Que ganhou o sobrenome Marechal de Bira Presidente, líder do Cacique de Ramos, embaixo da lendária tamarineira da clube —e mais tarde quase trocou socos com o sambista numa recontro.
Mas, calma lá, essa secção é verdade mesmo? “O perfil do personagem está corretíssimo”, ri Marechal.





