Dado Villa-Lobos transforma a pandemia em leveza musical – 21/06/2026 – Ilustrada
Oferecido Villa-Lobos imaginava que o disco que estava preparando poderia se invocar “Exílio no Bairro dos Mortos”. O título vinha do período em que ficou retido em Lisboa, durante a pandemia, sem conseguir voltar ao Brasil —ele morava no bairro da Ajuda, que tem esse sobrenome um tanto sombrio. O artista, porém, concluiu que a referência —que também mirava em “Exile on Main St.”, álbum dos Rolling Stones— era pesada demais para um álbum que, embora nasça do confinamento, da violência política e da sensação de colapso, procura o tempo todo uma saída pela leveza.
O título escolhido levou o disco para uma zona menos soturna. “O que Você Quiser”, quarto disco solo do guitarrista, faz um balanço dos últimos anos em forma de canções. Há ali o Rio de Janeiro sob tensão, o exílio português, a família espalhada entre Brasil e Portugal, a chegada de netos, a memória dos amigos, as trilhas sonoras que atravessam sua escrita músico e uma inquietação permanente diante do país.
“O exílio, que eu digo, é porque eu não tinha porquê voltar”, diz Oferecido. “Era a segunda vaga da Covid, fiquei dez meses lá, não tinha avião. Uma coisa louca. E aí os temas foram aparecendo. Esse paraíso, a procura de um paraíso improvisado, um mundo conturbado, essa coisa que o Fausto [Fawcett] coloca muito evidente em ‘O que Você Quiser’. O disco é uma crônica desses cinco anos, dessa loucura que a gente viveu, das coisas assustadoras que a gente ouvia e via na TV, de porquê a vida mudou naquele momento e de porquê foi um repto passar por isso sendo criativo.”
A rombo, “Endurance”, dá a chave de passagem. Instrumental, eletrônico, de clima cinematográfico, o tema parece conduzir o ouvinte a uma paisagem aérea, num sobrevoo —ou num portal, porquê define Oferecido. Ele associa a filete à história do navegador Ernest Shackleton, que ficou recluso no gelo da Antártida com sua tripulação em 1914 e sobreviveu depois de uma travessia extrema. “Me veio essa teoria de você estar passando por um portal, por um sacrifício, por um negócio que você vai chegar à sobrevivência e à vida porquê você a deseja.”
A frase “tai chi músico”, usada por Fawcett no texto que escreveu sobre o álbum, ajuda a entender o modo porquê “O que Você Quiser” tenta transformar tensão em movimento. Para ele, a música de Oferecido funciona porquê uma espécie de arte marcial sonora, feita de melodias, texturas e arranjos climáticos que atravessam o corpo do ouvinte para “domar tempestades afetivas”.
As canções do álbum —ou mesmo momentos diferentes do intentona dentro de uma mesma filete— alternam peso e delicadeza: as guitarras de “Kill the Klan”, enérgicas porquê a cidade que vibra na letra; a crueza de “Meu Primo (Hoje É Carnaval)”, sobre um incidente de racismo ocorrido no Rio; o tom meditativo de “Monsanto”; a luminosidade de “Dois Brilhantes”, escrita a partir do promanação de netos gêmeos.
“Eu fui buscando uma leveza a partir de um momento em que as coisas estavam voltando para o eixo”, diz Oferecido. “Eu vim encontrar isso no contato com bebês, meus netos.”
A produção começou em demos caseiras feitas por ele, muitas delas nascidas a partir de temas enviados por Emerson Facão, filósofo e parceiro de conversas semanais. Num segundo momento, o músico convocou os produtores Estevão Casé e Rodrigo Tavares para transformar aquelas bases na forma final do álbum.
A experiência com trilhas sonoras ajuda a explicar a construção do disco. Oferecido compôs para filmes e séries porquê “Bufo & Spallanzani”, “O Varão do Ano”, “Pro Dia Nascer Feliz” e “Bom Dia, Verônica”. Em “O que Você Quiser”, a cantiga muitas vezes parece surgir depois do envolvente, porquê se letra e voz fossem habitar uma cena já montada.
O processo, ele afirma, é próximo do que faz desde o início de sua curso: “Lá detrás, com a Legião Urbana, a gente compunha primeiro os temas instrumentais, que é basicamente uma trilha. Você procura uma atmosfera, os ritmos e as melodias que vão te levar para qualquer lugar. Aí só depois que Renato vinha com a letra.”
Presente porquê parceiro de Oferecido desde sua estreia em disco, “Jardim de Cactus”, de 2005, Nenung aparece agora em “Lado a Lado”, “Os Pássaros”, “Exílio no Meu Bairro” e “Largo da Silêncio”. Já em “Adeus Muito-vinda”, Oferecido inaugura a parceria com Humberto Gessinger —com o reforço de Lucas Vasconcellos.
A participação de Herbert Vianna na filete, em solo de guitarra, carrega uma memória antiga e afetuosa. Oferecido lembra que, aos 15 anos, assistia a Herbert e Bi Ribeiro ensaiarem clássicos de Jimi Hendrix e Santana na morada de vovó Ondina —sede dos primeiros ensaios dos Paralamas do Sucesso. “Eu pensei: ‘vou reviver esse momento, trazer o Herbert cá’. Ele ouviu a música, começou a improvisar e foi isso. Aquele momento renasceu ali.”
Fawcett ajudou Oferecido a penetrar o sentido do título. A frase originalmente era uma criminação dirigida ao Brasil do bolsonarismo em meio à pandemia, no refrão “é isso que você quer, é isso que você terá”. “Eu estava dizendo ‘a escolha é sua’, mas sempre apontando para o que há de pior. Até que Fausto falou: ‘mas pode ser também que você queira alguma coisa para o seu muito’. Ele abriu essa porta.”
Essa anfibologia dá a rosto do disco. “O que Você Quiser” pode tanger porquê prenúncio, oferta, ironia ou recomendação. Na letra da faixa-título, isso se traduz em imagens de delírio urbano e salvação improvável: “Quero o nirvana de sarjeta/ Quero uma safena de LED pra iluminar meu coração”.
“O que Você Quiser” termina com “Monsanto”, filete construída sobre a definição de “arte” no léxico e encerrada com uma frase de Fawcett: “O firmamento se abriu, meu coração partiu pro êxtase”. Depois de terçar as dores do confinamento, Oferecido escolhe fechar o álbum olhando para cima —sem extinguir o caos que o gerou, mas insistindo em procurar nele uma rombo na direção da luz.





