Em um final de tarde deste final de semana, Lino Villaventura montou passarela na Ponte dos Ingleses, cartão postal do século 19 que avança sobre o mar de Fortaleza, para apresentar coleção iluminada no último dia de Dragão Fashion Brasil Festival, o DFB, deste ano.
Suas tradicionais nervuras remetiam a cristais de gelo e patchworks reproduziam ramificações de sistemas fractais. Desfilando pela primeira vez à luz do sol, o dramático estilista —que é paraense de origem, mas cearense na curso de mais de 50 anos— mostrou faceta muito dissemelhante do que acostumamos a ver nos desfiles durante o SPFW. E resumiu muito o que foi a temporada nordestina de tendência, que propôs uma reflexão entre a cidade, a natureza e o material humano tão típicos do Ceará.
Secção solene do calendário que comemorou o tricentenário de Fortaleza, o DFB voltou às origens e reocupou a região da Praia de Iracema. Foi ali que, em 1999, o produtor Cláudio Silveira decidiu que o Ceará tinha alguma coisa a expressar para além do que era exibido no eixo Rio-São Paulo.
Tocando uma semana de tendência quase tão antiga quanto os eventos do Sudeste, Cláudio acompanhou os olhares que, nos últimos anos, se voltaram ao que é produzido no Nordeste. Mas gosta de manter a verve combativa do seu evento, no qual estilistas não-nordestinos são exceção.
“Hoje, a nossa luta é outra. Toda vez que a tendência brasileira finge que só existem dois ou três sotaques, todos sofremos uma espécie de apagamento. Seguimos gritando por saudação pela tendência autoral, pois é a partir dela que a indústria se renova”, diz.
Historicamente, Iracema concentra segmento significativa da produção cultural fortalezense; e, entre a praia, os bares e os registros memoriais dos pescadores abolicionistas do século 19, tem tentando atrair novamente a parcela jovem da cidade, que está na lista de capitais criativas da Unesco desde 2019.
Por isso, os 40 desfiles da semana de tendência sítio, todos gratuitamente abertos ao público, passaram a dialogar também com a história e arquitetura, a memória urbana do bairro —e não somente com a estrutura técnica das arenas montadas ao lado do Núcleo Dragão do Mar de Arte e Cultura.
A decisão de colocar a tendência em contato físico com o território que a inspira teve consequências estéticas reais. Seja nos desfiles que ocuparam a rua dos Tabajaras, uma vez que de Silvânia de Deus, que mantém loja ali há 27 anos; ou no que comemorou a curso de Jô de Paula, cofundadora da Catarina Mina e que também ajudou a riscar coleção de roupas feita por artesãos ligados à Ceart (Mediano de Artesanato do Ceará), importantíssimo polo de fomento sítio.
Apesar dos nomes veteraníssimos, o DFB tem uma vez que um dos seus propósitos declarados funcionar uma vez que celeiro de novos talentos, o que lhe rende uma tensão estrutural. Quanto mais marcas estreantes e independentes são incorporadas ao calendário, maior o risco de diluição. O paradoxo é que, à medida que mais criadores passam a reivindicar os mesmos signos de identidade, arrisca-se transformar volubilidade cultural em repetição visual.
A congruência temática, uma das forças do festival, arrisca também funcionar uma vez que câmara de repercussão. Boa segmento dos desfiles giraram em torno dos mesmos eixos —artesanato regional, materiais naturais, paletas de terreno e bege, silhuetas fluidas ou volumosas, com enraizamento sertanejo ou litorâneo. Eixos que constituem uma gramática visual reconhecível e legítima, zero dispensável, que distingue a produção cearense e nordestina da tendência de outros centros. O problema é quando a gramática se torna o ponto de chegada, e não o ponto de partida.
É aí que se sobressaem nomes uma vez que David Lee, um dos nomes mais reconhecidos da novidade geração fortalezense, que operou com sofisticação ao trasladar o imaginário dos festejos sertanejos em peças que combinam bordados e crochês florais a modelagens descomplicadas —e ao incluir, com crédito visível, o trabalho do artesão André Cardoso nas peças de epiderme com arabescos que pontuaram a coleção.
A jovem Patú, que surgiu em 2021 falando sobre a estética familiar do sertão cearense e seus tons de linho marrom, declaradamente quis perverter o que se poderia esperar do seu desfile de estreia, um dos melhores da temporada: homenageou o compositor Ednardo e reconstruiu o seu imaginário de tendência com tecidos naturais, texturas fluidas feitas à mão e alfaiatarias amplas.
Outra estreante no DFB, a Studio Orla tornou-se hit sítio na sua primeira dezena de vida. Primariamente focada no público masculino, foi rapidamente adotada pelas mulheres —o que se refletiu no desfile maduro, repleto de soluções contemporâneas nos usos de texturas e dos bordados manuais. Assim uma vez que Gabriela Fiuza, especializada em crochês feitos com fios de seda que resultam em construções elegantes e pouco triviais.
A iniciativa Mãos da Tendência, parceria da plataforma Nordestesse com o Riachuelo Lab, na sua primeira edição, foi talvez o projeto mais estruturalmente interessante do festival. Oito criadores, seis da Bahia e duas da Paraíba, trabalharam durante seis meses com mais de 60 artesãos para produzir coleções integradas.
O resultado, apresentado nos três últimos dias do festival, foi heterogêneo. Em alguns casos, uma vez que na parceria de Adriana Meira com a Associação de Mulheres Quilombolas Artesãs de Barra, Bananal e Riacho das Pedras, o diálogo entre design autoral e artesanato de crivo-rústico produziu alguma coisa genuinamente novo. Em outros, o artesanal parece ter servido uma vez que ornamento sobre propostas já definidas.
A diferença entre esses dois modos de colaboração é a diferença entre troca e curadoria —um problema que sempre ressurge quando a tendência resolve adotar o handmade pátrio, mormente o da região Nordeste. Questão semelhante paira sobre o próprio DFB Festival, que beirada os 30 anos.
O repto agora não é somente dar visibilidade à tendência nordestina, mas uma vez que transformar um repertório cultural já consolidado em plataforma para experimentação, não somente em selo de autenticidade. Os desfiles mais interessantes desta edição foram justamente aqueles que não tomaram o repertório regional uma vez que resposta pronta; em que artesãos e criadores produziram alguma coisa que nenhum dos dois faria sozinho. É aí que a tendência e a tradição encontram a sua capacidade de renovação.





