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'Digger' é cheio de boas intenções, porém confuso e fraco
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‘Digger’ é cheio de boas intenções, porém confuso e fraco – 29/09/2026 – Ilustrada

Não faltam motivos para ir testemunhar a “Digger”: há um tema de atualidade —o provável colapso ambiental—, um poderoso empresário do setor de petróleo —Digger—, um sistema de plataformas de exploração que se rompe na Groenlândia, um presidente dos Estados Unidos que, no mais, se assemelha muito em termos ideológicos e religiosos a Donald Trump. Há ainda Tom Cruise no papel principal e, por termo, mas não por último, a iminência de um sinistro ambiental apocalíptico.

Porém, um problema se anuncia —o tom de sátira política acrescida do tom farsesco aplicado por Alejandro Iñarritu a oriente filme mostra-se inconveniente por inúmeras razões. A primeira delas é que não existe grande vantagem em usar um ator uma vez que Tom Cruise num papel, o de Digger, justamente, em que está tão irreconhecível que mesmo os méritos do departamento de maquiagem se tornam secundários.

A segunda é que a farsa é monotonamente frenética —do início ao termo segue na mesma toada. Talvez com isso pretenda patentear os problemas representados pela extração de petróleo, ou que as reações do presidente dos EUA no filme (John Goodman) referem-se ao tipo de lambança de Donald Trump na transporte do país real.

A decifração do que está sendo visto, dito e, sobretudo, gritado pelos atores —alguns com atuações irreconhecíveis, uma vez que Sandra Hüller— é óbvia. Da mesma forma, a relação entre políticos, empresários poderosos, militares, religiosos etc., idem.

A mão pesada com que esses aspectos são abordados permitem ao testemunha notar tanto o que pode possuir de verdadeiro na abordagem do filme uma vez que o que existe de sintético na própria construção do filme.

Acrescenta-se cá um pouco inédito —o sinistro ambiental referido começa na Groenlândia. Porquê se sabe, trata-se de um território que o presidente Trump almeja intensamente —e fez progressos recentes no sentido de dominar militarmente a região. E é justamente ali que se encontra a plataforma de petróleo de Digger.

Ninguém duvidará, assim, que as belas tentativas de evitar um sinistro político na Groenlândia desembocam num sinistro ambiental gigante nas costas europeias e, ao mesmo tempo, em um grave problema geopolítico. A decorrência disso é talvez o vista mais interessante do filme, pois os personagens tanto de políticos uma vez que de poderosos dos EUA demonstram um indissimulável desprezo por seus aliados europeus. Infelizmente, é um momento efêmero.

“Digger” permite ainda pensar em outro filme de caráter cômico que também lidou com uma grande catástrofe —nuclear, no caso—, o tão suave quanto eficiente “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick. Também ali existe a sátira aos militares com maluquices militaristas, a crença nas virtudes superiores dos anglo-saxões —os dos EUA em privativo— etc. Mas não existem ali as acusações mais ou menos claras de racismo, que em “Digger” são escancaradas pelo confronto de um general com o pesquisador de origem indiana (Riz Ahmed) escancara. É um dos poucos momentos em que o humor ferino adotado por Iñarritu se mostra também eficiente.

O vista político do filme, muito incisivo, é quase sempre esterilizado pelo tom histérico impresso pela direção, e também é atingido pela teoria de que, cá, estamos todos no mundo do entretenimento —tudo não passa de um espetáculo. Essa teoria é introduzida meio a fórceps no conjunto e deixa a sentimento de que o estúdio —ou os roteiristas, tanto faz— simplesmente evitam culpar pesadamente donos de petroleiras ou presidentes pelos desastres ambientais, quando todo o sentido do filme consistiria justamente em denunciar essa responsabilidade.

Com isso, segundo “Digger”, todos, os poderosos, o público e até realizadores do filme são um tanto cúmplices do horizonte tenebroso que nos é reservado pela natureza. Trata-se de um contrassenso, quando se pensa que uma das sequências do filme coloca os americanos todos —Digger, o presidente e assessores— em guerra épica contra a natureza em nome da fé em Deus —essas coisas.

Até podemos vestir a carapuça —talvez todos, ou quase todos, somos responsáveis pelo sinistro ambiental que está acontecendo. Talvez presidentes e grandes capitalistas sejam mais culpados, tudo muito. Mas, quando introduz o público do filme na questão, “Digger” acentua o caráter contraditório da trama —sim, temos nossa culpa, mas isso não nos impede de, por vezes, ir ao cinema ou ao teatro pela simples premência de entretenimento. Uma coisa e outra não se conectam tanto quanto o filme parece supor.

Ao mesmo tempo em que executa uma penosa pirueta para juntar desastres ambientais com o mundo do espetáculo, e dividir a culpa pelo horizonte distópico entre poderosos e simples vítimas, o filme parece também querer amenizar a violência com que aborda a questão ambiental, que é finalmente de contas o seu tópico. Em outras palavras, acaba por distanciar a plateia do ponto meão da trama sem lhe oferecer zero plausível em troca.

Se é trepidante pelo tom farsesco, o que inclui a tradução hiperbólica dos atores, “Digger” acrescenta a esse problema a estridência sonora e a monotonia cromática.

O que resta é um filme atual pelo tema, pleno de boas intenções, porém confuso e fraco.

Folha

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