Obra de Marguerite Duras é reinventada com Helena Ignez – 29/09/2026 – Ilustrada
Em uma das cenas de “Savannah Bay É Você”, uma projeção ocupa o corpo da atriz Djin Sganzerla e mostra uma mulher em movimento, vestida de vermelho —é Helena Ignez no papel da prostituta Sônia Silk, no filme “Copacabana Mon Amour”, de 1970, um marco do cinema independente de Rogério Sganzerla.
Não poderia ser mais visceral o encontro entre filha e mãe na remontagem da obra da escritora e dramaturga francesa Marguerite Duras. Uma empresta para a outra o próprio corpo para o transbordamento de memórias embaralhadas e oníricas na peça dirigida por André Guerreiro Lopes.
A encenação mistura teatro, cinema expandido e artes visuais em diálogo com a Ocupação Helena Ignez, uma celebração da trajetória da atriz, diretora, roteirista, musa e antimusa do cinema e do teatro.
Em edital no Itaú Cultural, em São Paulo, de 1º a 18 de outubro, onde também está a ocupação, a peça-instalação é um reencontro familiar no palco. Lopes é casado com Djin e genro de Ignez. Os três estavam na primeira montagem do espetáculo, assim porquê Rogério Sganzerla, pai e marido das duas atrizes, respectivamente.
“Ele falava três palavras e ela entendia o que queria manifestar”, lembra Djin sobre a relação cênica entre o pai e a mãe. “Era muito bonito ver a intimidade entre diretor e atriz. E comigo ele sempre foi um diretor amoroso”.
Na versão de 2026, Ignez aparece em imagens projetadas, vozes e em uma participação pensada para surpreender o público, em universal fascinado pela atriz de 84 anos que segue curiosa, inventiva e disposta às experimentações.
Na história de “Savannah”, Djin conduz a tentativa de reconstrução das memórias fragmentadas de duas mulheres —Madeleine, uma velha atriz de teatro, e uma jovem que revira o pretérito em procura da própria identidade.
A narrativa não é linear e mistura verdade e imaginação enquanto a chuva ocupa os espaços por meio de sons e imagens sobrepostas. Não há a tentativa de refazer na íntegra a primeira montagem, que estreou no período de inauguração do Sesc Belenzinho, em 1999, e percorreu o país com uma temporada bem-sucedida. O espetáculo de agora é uma reinvenção da obra intrigante de Duras.
Na era da primeira montagem, mãe e filha estavam em cena o tempo todo. Agora, a mais jovem contracena com as imagens e a voz da mais velha.
“É um cinema que acontece no teatro –e um teatro que se transforma em cinema”, afirma o diretor. “As linguagens vão se encontrando, não sei exatamente onde uma começa e a outra termina. Não estou muito preocupado com essas bordas”.
Há também uma razão prática para a presença cinematográfica de Ignez. A atriz continua em edital com “Termo de Partida”, de Samuel Beckett, ao lado de Marco Nanini, Guilherme Weber e Ary França. Não teria porquê prometer a presença física nos ensaios de “Savannah Bay É Você”. A participação privativo, e física, acontecerá em algumas sessões do espetáculo.
No final do século pretérito, quando manifestou o interesse por “Savannah”, Ignez ouviu um alerta —anos antes, Fernanda Montenegro e Fernanda Torres, também mãe e filha, não haviam conseguido a autorização da escritora para uma montagem brasileira. Quando ela tentou, no entanto, Duras já havia morrido e Yann Andréa, seu último companheiro, liberou a dramaturgia.
“Porquê eu sou realmente mística e psicodélica, vejo que essa peça tem uma relação comigo”, afirma Ignez, que aderiu ao movimento Hare Krishna e se tornou monja hinduísta na dez de 1980, em jornadas espirituais marcantes em seu trajectória.
A peça é também uma homenagem à presença inquieta de Ignez nos palcos e nas telas, há seis décadas. Ela vê a remontagem também porquê uma celebração a Sganzerla, morto em 2004. “Eu acho que eu sou um tipo de Madeleine. A única coisa que ela lembra é que representou. É o que ficou. No meu caso, eu lembro de tudo, mas o teatro é realmente visceral em minha vida. É uma coisa de sempre”.
A força místico leva a atriz a falar tranquilamente sobre o atual momento de sua vida porquê uma lanço final, com lembranças de épocas marcantes porquê o auge da Escola de Teatro da Universidade Federalista da Bahia, o Cinema Novo, o Cinema Marginal e a geração da produtora Belair. Porém, sem saudosismo, porque ela segue ativa, enxurro de planos e cultuada por cineastas jovens, que a procuram para curtas-metragens.
“Eu estou vivendo feliz. Penso um pouco porquê a personagem, feliz com o término. O término é a prosseguimento da minha vida”, afirma, sobre a agenda lotada de compromissos artísticos.
Além dos espetáculos teatrais, Ignez acabou de gravar o curta “Des-criação”, dirigido pelo genro, e planeja para 2027 a filmagem de “Dora”, um longa-metragem protagonizado pela atriz e dançarina Bibi Dória.
Ignez diverte-se com a notabilidade de “atriz com seus dois maridos”, conquistada a partir dos casamentos com os cineastas Glauber Rocha e Sganzerla. É assim, meio Dona Flor, que ela aparece na ingresso da Ocupação no Itaú Cultural, em uma espécie de revide ao machismo enfrentado ao longo da vida.
Para 2027, além do longa-metragem, a atriz e diretora segue em edital com “Termo de Partida”, montagem dirigida por Rodrigo Portella em que interpreta a personagem Nell, confinada em um latão de lixo.
A posição, segundo ela, não é complicada para uma atriz octogenária. A prática de tai chi chuan ajuda Ignez a entrar por um buraco, se posicionar no latão e atuar na trama pós-apocalíptica de Samuel Beckett. “O texto é difícil e agrada. As pessoas curtem, adoram, é maravilhoso”, afirma ela.




