Discos mostram Vadico muito além de parceria com Noel – 03/10/2026 – Ilustríssima
[RESUMO] Reconhecido quase que exclusivamente uma vez que parceiro de Noel Rosa em clássicos sambas, o compositor Vadico tem sua grandeza músico resgatada em lançamento do selo Sesc, fruto do trabalho do pesquisador Franco Galvão. Box com três CDs e um livreto perpassa toda a trajetória do artista, com destaque para obras instrumentais que contam com performances de supino nível de músicos de hoje.
Quando o mundo sonoro de Vadico encontrou, enfim, o núcleo da trova bossanovista, ele mesmo já não estava presente. “Sempre a esperar”, sua única cantiga com letra de Vinicius de Moraes, foi lançada na voz de Elizeth Cardoso em 1963, um ano depois a morte do compositor. O maquinação original é de Moacir Santos, e inclui Baden Powell ao violão.
Publicado quase exclusivamente pelas parcerias com Noel Rosa na dezena de 1930, Vadico acaba de ser apresentado a novas gerações, em sua real dimensão e valia, graças ao músico e pesquisador Franco Galvão, que ao longo de seis anos recuperou 547 páginas de partituras inéditas, recolheu 47 fonogramas e catalogou 66 composições.
A pesquisa de Galvão desaguou no lançamento, pelo selo Sesc, de um box com três CDs contendo 37 novas gravações que contaram com a participação de 170 músicos da geração atual, além de um livreto bilíngue ilustrado com 136 páginas.
Tão importante quanto os discos é o site vadicogogliano.com, que contém a discografia completa do responsável e uma risca do tempo com chegada direto às gravações históricas originais de suas composições lançadas desde 1929, muito uma vez que uma listagem de seus trabalhos uma vez que pianista e arranjador. Completa o pacote um minidocumentário de 18 minutos.
O pianista Oswaldo (“Vadico”) Gogliano nasceu em 1910 em São Paulo, passou a puerícia e a mocidade no Brás, e morreu em 1962 no Rio de Janeiro, onde havia se radicado aos 22 anos.
Viveu nos Estados Unidos, em Novidade York e Los Angeles, de 1939 a 1953, e foi graças ao ror impecavelmente preservado pela Southern Illinois University Carbondale que a pesquisa de Galvão pôde atingir resultado tão inacreditável.
O ror consultado abriga o legado de Katherine Dunham (1909-2006), mulher que atuou uma vez que bailarina, coreógrafa, educadora, pesquisadora e ativista social, uma das pioneiras da black dance moderna.
Com progénie negra e indígena, ela se formou em antropologia pela Universidade de Chicago e percorreu o mundo ao longo de várias décadas com sua companhia de dança.
Atuou no cinema, na Broadway e no Metropolitan Opera, tendo formado gerações de atores e bailarinos a partir de sua técnica, baseada no contato direto com as tradições afro-caribenhas. Vadico foi o seu diretor músico entre 1949 e 1952.
O compositor havia ido em 1939 a um evento em Novidade York e logo depois recebeu o invitação para integrar o Grupo da Lua, de Carmen Miranda, mudando-se na sequência para os Estados Unidos. Ele participaria de seis filmes com Carmen pela 20th Century Fox e, de forma independente, também de “Alô Amigos” (1943) e “Você Já Foi à Bahia” (1944), lançados pela Walt Disney Pictures.
Quem quer que escute “Prelúdio, Rifão e Fuga”, de 1952, sabendo se tratar de obra de artista brasiliano, teria dificuldade em aventurar seu nome.
Os ecos de Villa-Lobos existem, mas são longínquos; de Radamés Gnattali quase nenhuma influência há; poderia também ser uma antecipação à tempo neoclássica dos mais jovens Edino Krieger e Cláudio Santoro; mas prevalece a percepção de uma personalidade com primor técnico próprio.
Em Hollywood, Vadico estudou constituição com o italiano Mario Castelnuovo-Tedesco, responsável de produção prolífica, que escreveu trilhas de cinema e renovou o repertório violonístico no século 20.
Na gravação do álbum do Sesc, a “Fuga” tem tratamento camerístico e é executada com superioridade por um quarteto de cordas integrado por Luiz Amato e César Miranda aos violinos, Emerson de Biagi à viola e Adriana Holtz no cello.
Já “Prelúdio” e “Rifão”, muito uma vez que outras várias faixas do box, contam com a presença da Ocam, Orquestra de Câmara da Escola de Notícia e Artes da USP, grupo jovem formado por estudantes, sob a direção de André Bachur.
A proposta do álbum triplo é mesclar gerações, promover encontros musicais, hospedar diversidades de formações e itinerários artísticos —enfim, uma aposta consciente na heterogeneidade.
Cada um dos três discos carrega, predominantemente, uma vertente específica do trabalho de Vadico, a saber: 1) a do compositor-diretor músico que escreveu para grupos maiores; 2) a do pianista dos grupos pequenos, seja do regional de pranto ou do trio de jazz; 3) a do compositor de canções.
Dedicados à música instrumental, os dois primeiros álbuns têm ininterrupção fácil de escuta. O “Prelúdio” de 1960 é um grande encontrado, e Tiago Costa, uma vez que arranjador e pianista, faz as vezes do próprio Vadico na filete.
As duas gravações com a Jazzmin’s Big Band, “Mambo” e “Saxologia”, ambas de 1949, conduzidas pelo próprio Franco Galvão, ampliam radicalmente o contextura da atuação conhecida de Vadico, assim uma vez que os três choros de 1953 (para orquestra e regional de pranto), que abrem a coleção.
O destaque orquestral com a Ocam é “Dry Copacabana”, neomaxixe de 1958 com maquinação e participação ao piano de Débora Gurgel, que no segundo volume também assina o maquinação da belíssima “Chopp”.
Esse segundo disco talvez seja, do ponto de vista da qualidade das performances, o mais marcante. O time de intérpretes e arranjadores é sensacional, a inaugurar com Edmilson Capelupi, que, para além da participação em 14 faixas, assina arranjos muito distintos para “Maestro Marmelada”, “Glorinha” e “Onde Estás, Melodia?”.
Lis de Roble, pianista da Jazzmin’s, imprime originalidade e delicadeza ao maquinação de “Súplica” (1961) e faz ótimo uso das cordas em “Nego” (anos 1950). Há belos arranjos também de Vitor Casagrande e Henrique Araújo e Bina Coquet.
No espaço temporal-timbrístico ampliado dos duetos estão alguns pontos altos do set: o piano de Hercules Gomes com a guitarra de Eduardo Lobo em “Pranto em Fá Menor”; o sax supino de Fernando Sagawa com o próprio Franco Galvão no violão de 7 cordas em “Julgamento”; e a memorável tradução de Nailor Proveta ao sax supino sobre o piano de Cristóvão Bastos na valsa “Natália” (na playlist corrida dos três álbuns no Spotify é a filete 19), que o próprio Vadico havia gravado ao piano em 1935 com solo de Luiz Americano.
A música popular brasileira está repleta de duplas autorais famosas, geralmente apresentadas no formato “compositor + letrista”, tais uma vez que Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Tom Jobim e Vinicius de Moraes, João Bosco e Aldir Blanc, Milton Promanação e Fernando Brant, Edu Lobo e Chico Buarque, Raul Seixas e Paulo Coelho, e assim por diante.
Grafar, entretanto, Vadico Gogliano e Noel Rosa parece, ao menos até o vinda do trabalho de Franco Galvão, menos originário.
Assim uma vez que Tom e Vinicius e os outros citados, Vadico e Noel tiveram outros parceiros, e também são autores solo de canções para as quais compuseram tanto música uma vez que letra. Foram apresentados um ao outro em 1932, já em um contexto profissional, por Eduardo Souto, diretor artístico da gravadora Odeon.
Todos sabemos da valia de Noel Rosa —ao lado de tantos outros nomes, uma vez que Sinhô, Ismael Silva, Cartola, Ary Barroso, Geraldo Pereira, Dorival Caymmi, Ivone Lara, Assis Valente, Wilson Batista etc.— para a consolidação do samba a partir das décadas de 1930-40, em uma interseção privilegiada, ancorada na sintonia do disco com o rádio, entre a arte músico, a cultura popular e a história do Brasil.
Mas é praticamente impossível que uma lição ou palestra sobre Noel Rosa não seja exemplificada com uma das dez canções em que ele atua uma vez que letrista para músicas originais compostas ao piano por Vadico.
Vale a pena transcrever a lista completa: “Feitio de Prece” (1933), “Mandinga da Vila” (1934), “Conversa de Cafeeiro” (1935), “Século Milénio Réis” (1936), “Provei” (1936), “Quantos Beijos” (1936), “Tarzan” (1936), “Só Pode Ser Você” (1937), “Pra que Mentir?” (1938) e “Mais um Samba Popular” (esta lançada somente em 1954).
Não se trata, por óbvio, de minimizar a valia de Noel Rosa, mas de dar o crédito devido a Vadico —e, sobretudo, não atribuir rapidamente a conexão entre melodia, texto e entonação da fala cotidiana, em canções uma vez que “Conversa de Cafeeiro” e outras, somente à habilidade artesanal de Noel, pois o seu trato “buarquiano” de imagens e palavras foi construído, nesses casos, a partir de estruturas melódico-harmônicas sofisticadas criadas com habilidade “jobiniana” por Vadico.
Aliás, precisamente pelo trajo de certos sambas de Vadico, uma vez que “Conversa de Cafeeiro” e “Tarzan”, serem próximos dos virtuosismos do pranto, o ofício de letrista foi principalmente reptador a Noel.
O trabalho de Galvão dispara essas reflexões, mas só o tempo dirá se o paulista Vadico poderá figurar, a seu modo, no panteão dos bambas do Rio de Janeiro. Em prol do cosmopolitismo do samba carioca está o trajo de Geraldo Pereira e Ary Barroso serem mineiros, e de que a Bahia aparece na lista no mínimo com Assis Valente e Dorival Caymmi.
A obra cancionista de Vadico foi predominantemente produzida antes de sua ida para os Estados Unidos em 1939 (dois anos depois a morte precoce de Noel Rosa, portanto) e no período depois a volta definitiva ao Brasil, em 1954.
Para o terceiro disco da coleção do Sesc, Franco Galvão selecionou três canções anteriores ao período nos EUA e 11 compostas depois o seu retorno. Estrategicamente, nenhuma parceria com Noel Rosa foi regravada no trabalho.
As mais antigas são “Deixei de Ser Otário”, letra e música de Vadico que, na voz de Genésio Arruda, havia sido segmento da trilha do primeiro filme sonoro brasiliano, “Acabaram-se os Otários” (1929) —no novo álbum, o cantor é Pedro Miranda— e “Minha Vida Melhorou” (1931), também com letra (espetacular, aliás) do próprio Vadico, cantada na coleção por Luísa Lacerda e com maquinação esplendente de Fernando Sagawa que inclui trombone, sons eletrônicos, percussão, cavaquinho e uma participação marcante do jovem Luca Frazão no violão de 7 cordas.
Dentre as canções resgatadas e gravadas que foram compostas posteriormente ao retorno de Vadico ao Brasil, na dezena de 1950, duas têm letra dele mesmo: “Saudade Intrusa” e “A Verdade Dói”, esta gravada originalmente por Aracy de Almeida (e cá em tradução de Ná Ozzetti).
Outros letristas são Jarbas de Albuquerque Melo, David Nasser, Aloysio de Oliveira, Herberto Sales e o jornalista Marino Pinto, que aparece com três parceiras: “Só”, com maquinação especulativo de Galvão para a voz de Regina Machado; “Prece”, uma das favoritas de Vadico, interpretada por Zé Renato; e “Se Eu te Perdesse”, gravada originalmente por Ademilde Fonseca, relida por Guinga no disco do Sesc em performance enxuta de voz e violão.
Um encontrado peculiar de Franco Galvão, cantado na coleção por Bia Paes Leme, é “Rebento de Bacana” (1959), parceria de Vadico com William Costa, com ares das letras satíricas do velho Noel. Na toga da partitura há uma letreiro manuscrita que diz: “mostrar para João Gilberto”.
Vadico trabalhou incansavelmente depois voltar ao Brasil. Atuou na gravadora Continental, na orquestra da Boate Casablanca, no programa de rádio e TV “Se a Lua Contasse”. Porquê diretor músico da TV Rio, produzia, gravava, compunha e tocava, com vasto reconhecimento profissional.
Sobretudo por conta das letras, com seus advérbios rimados e suas mesóclises, o repertório tardio do Vadico cancionista, tão oportunamente resgatado e cuidadosamente gravado na coleção do Sesc, é uma espécie de “lado B” de um mundo músico que começava a se esgotar.
Em meio a tantas descobertas, Galvão conta que Vinicius de Moraes, apreciador inconteste de Vadico, o procurou para fazer a música do espetáculo “Orfeu da Conceição”. Ele recusou. Porquê segunda opção, o poeta logo convidou o jovem Antônio Carlos Jobim.
Alguma coisa novidade iria, a partir de logo e para sempre, oscilar a equação entre música, cultura popular e história do Brasil. Vadico, mais uma vez, estava lá.





