Roberto Calasso consegue lançar nova luz à Bíblia em livro – 04/10/2026 – Ilustrada
A sabedoria do ensaísta e editor italiano Roberto Calasso é capaz de produzir um efeito de insidioso fascínio a partir de uma premissa aparentemente vulgar: recontar o Idoso Testamento da Bíblia (com referências, cá e ali, ao Novo Testamento).
É um prodígio difícil de imaginar. Será mesmo verosímil lançar qualquer luz novidade que seja sobre Adão e Eva, Noé, Moisés e outras figuras das quais até quem cresceu na mais ateia das famílias já ouviu falar?
Sim, mostra o responsável em “O Livro de Todos os Livros”, uma obra que parece operar uma espécie de quadratura do círculo interpretativa.
De um lado, Calasso domina os pormenores da Bíblia hebraica e de suas traduções canônicas pré-modernas —a versão em heleno, ou “Septuaginta”, e o latim da chamada “Vulgata”. Conhece as tradições exegéticas dos rabinos da Antiguidade, da Cabala, dos primeiros séculos cristãos.
Isso poderia sugerir uma visão que associa excessivamente o texto bíblico às visões mais influentes dos que tentaram interpretá-lo no pretérito.
É cá que entra a segunda secção da manobra de Calasso: a capacidade de invocar a atenção para cada paisagem das Escrituras que é profundamente estranho, inexplicável e, principalmente, repleto de lacunas. Buracos que não são “falhas de roteiro”, por mais que pareçam um pouco do tipo aos olhos de um leitor moderno.
Os exemplos são abundantes, estando os mais óbvios nas narrativas primordiais do livro do Gênesis. Finalmente de contas, por que Deus aceitou as oferendas de Abel, mas não as de seu irmão Caim, desencadeando o inveja que levou ao primeiro homicídio e fratricídio? O que passou pela cabeça do jovem Isaac quando, obedecendo às ordens divinas, seu pai Abraão se dispôs a sacrificá-lo porquê um cordeiro?
A saudação desses e de muitos outros enigmas, o texto judio simplesmente se recusa a oferecer mais detalhes. Calasso até insere, cá e ali, as tentativas de domesticar tais passagens ao longo dos milênios, transformando narrativa misteriosa em teologia lógica e dogmática.
Mas o mais geral, conforme ele deixa prever, é que essas propostas só sirvam para substanciar porquê o texto original é estranho e inescrutável, apontando para concepções de mundo que não se rendem ao moralismo fácil de um sermão.
O plumitivo volta a alguns desses temas com frequência, porquê o significado da “eleição” —por fim, o Deus da Bíblia escolhe seus protegidos de forma arbitrária?— ou do sistema de sacrifícios de animais no Templo de Jerusalém, mais tarde ressignificado pela visão cristã acerca da crucificação de Jesus.
Se a descrição do que o livro tenta fazer soa complicada, é porque a estrutura proposta por Calasso de vestimenta o é. Não se trata de uma simples paráfrase comentada da Bíblia hebraica, e isso fica simples desde o início.
O responsável começa no momento anterior à geração do Cosmos, inspirando-se em tradições rabínicas. Depois, salta para os primeiros reinados do povo de Israel (os de Saul, Davi e Salomão), chegando quase ao termo da reino israelita antes de voltar ao primeiro patriarca, Abraão.
A jornada não linear se baseia, em secção, em outro princípio da tradição judaica, o de que cada versículo da Bíblia pode ser justaposto a qualquer outro e interpretado em conjunto com ele.
É porquê se, apesar da linearidade da narrativa sobre a subida, prevaricação, queda e restauração do povo judeu, a história também existisse numa espécie de eterno presente, um quadro esboçado antes de todos os séculos.
Porquê seria de esperar, é uma estrutura que abre a porteira para digressões, e Calasso mergulha nelas sem a menor culpa. Suas páginas sobre a figura de Moisés, por exemplo, têm porquê planeta coadjuvante que rouba a cena o pai da psicanálise, Sigmund Freud.
Talvez empatado com Albert Einstein porquê a pessoa de origem judaica mais influente dos últimos séculos, Freud concluiu no último ano de sua vida um estudo iconoclasta justamente acerca de Moisés.
Conforme o erudito italiano deixa simples, ninguém mais leva a sério as conclusões específicas de Freud sobre quem seria o “verdadeiro” vaticinador —o que não significa que as ideias do psicanalista não sejam capazes de iluminar aspectos importantes da trajetória judaica.
Por termo, que o leitor não se surpreenda se terminar o livro com vontade de ler a Bíblia em latim —o exalo de Calasso pela antiga tradução da “Vulgata” e por seu potencial interpretativo e artístico é transmissível.




