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Documentário de Bolsonaro ignora seu mandato presidencial 22/05/2026
Celebridades Cultura

Documentário de Bolsonaro ignora seu mandato presidencial – 22/05/2026 – Ilustrada

O bafafá em torno de “Dark Horse” foi grande na última semana, mas não o suficiente para fazer com que um outro filme sobre Jair Bolsonaro (PL) fosse um grande sucesso.

O documentário “A Colisão dos Destinos” estreou na última quinta-feira (14) em 56 salas de cinema —o Brasil tem, ao todo, murado de 3.500 salas de exibição. Até agora, foram vendidos pelo menos 4.924 ingressos.

O filme estreou um dia em seguida reportagem do Intercept Brasil que revelou que o senador Flávio Bolsonaro (PL) pediu numerário a Daniel Vorcaro para “Dark Horse”, o filme de ficção sobre Bolsonaro pai.

Mesmo sendo uma obra sobre o ex-presidente, o paulistano que quisesse observar ao documentário “A Colisão dos Destinos” na Grande São Paulo precisava se transmitir para muito longe do meio expandido da capital.

No Brasil, até quarta-feira, a cidade que mais havia vendido ingressos para o longa havia sido Salvador —foram 650 ao todo. Depois, Fortaleza, com 436, e Feira de Santana (BA), com 327. Já Erechim (SC) ficou na lanterninha, com unicamente uma exibição. Lá foram vendidos dois ingressos desde a estreia, faturando R$ 34 ao todo.

Na última quarta-feira (20), a reportagem assistiu, às 19h50, a uma exibição do filme num shopping em Embu das Artes, sobre 30 km da região médio de São Paulo. No dia seguinte, o filme já não estava em edital naquele cinema.

Dentro da sala, manifestações de dissabor. Voltando da bonbonnière, onde não havia encontrado pipoca sem manteiga, um varão não se conteve. “O brasílio merece o Lula mesmo”, disse o jovem ao se dar conta de que unicamente cinco das 130 cadeiras daquela sala de cinema estavam ocupadas.

Era um misto de desabafo com tentativa de quebrar o gelo entre os outros espectadores que ali estavam para ver o documentário que celebra a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, minutos antes da exibição.

Estavam ali uma dupla de amigas e um par mais jovem, todos sentados mais à direita da sala. Gelo quebrado, uma conta que veio de Osasco, outra, de Pirituba. “Demorou uma hora e quarenta”, afirma uma das mulheres. “Graças a Deus a gente não errou o caminho.”

Ela destaca que comprou o ingresso com dois dias de antecedência, possivelmente na expectativa de aquele ser um evento disputadíssimo. “A gente devia ter feito uma comboio”, lamenta uma das mulheres. “Eu pensei nisso, mas ninguém quis vir”, responde outra.

Conversa vai, conversa vem. Uma delas portanto se lembra: “Conheço vocês da revelação da Paulista!”.

Nos feeds das redes sociais de Flávio, Carlos e Eduardo Bolsonaro, não há menções ao filme na semana de sua estreia —a estreia, por fim, aconteceu em meio à crise envolvendo “Dark Horse”. Nem mesmo Mario Frias, que assina o roteiro de “A Colisão dos Destinos” com Eduardo, fez grandes esforços de divulgação.

Logo antes da exibição, uma das mulheres mais velhas, ao perceber que não vai chegar mais ninguém, leva as duas mãos à testa e estica os braços para cima, porquê se estivesse emanando energias positivas por toda a sala. “Ó, tá referto de gente cá”, diz, porquê que mentalizando uma veras idealizada.

Escoltado de palmas tímidas da plateia, o filme começa com uma panorâmica, com poucos frames por segundo, da cidade onde cresceu Bolsonaro, Eldorado, no interno paulista. O lettering revela que os primeiros a serem capturados pela câmera são os irmãos do ex-presidente —Denise, Vânia, Solange e Renato.

São depoimentos no estilo “talking heads”, intercalados com ilustrações vetorizadas ou fotografias semi-animadas com perceptibilidade sintético. As falas se debruçam longamente sobre a puerícia e a juventude do ex-capitão do Tropa.

Os elogios descrevem o jovem Jair porquê humilde, bem-humorado e gracioso. Ele adorava preparar panquecas para os irmãos mais novos, ouvindo Tonico e Tinoco, e ainda tinha tempo de ajudá-los com a prelecção de vivenda. Gozador, dava apelidos para todos da família, mas as irmãs não permitem que se revele quais são os apelidos.

Era um líder nato, conta a mana, e os meninos do bairro só jogavam esfera quando ele estava presente. Jair desmente —é porque ele era o possessor da esfera de borracha.

A narrativa vai avançando ligeiro e chorosa porquê ares de Registo Secreto do Domingão do Faustão —só elogios. Já a trilha sonora se aproxima mais da estética músico de quadros do macróbio Domingo Legítimo, porquê o icônico De Volta para a Minha Terreno.

Logo entram em cena os filhos. Carlos e Eduardo dividem o mesmo quadro, enquanto Flávio ganha uma sonora só para ele. Jair também entra em cena para falar de si próprio, sentado à mesa, de onde se vê um enfeite escrito “Deus, Pátria, Família e Liberdade”.

O filme descreve a ingressão de Bolsonaro na curso militar. Estudioso, determinado, ele afirma ter o hábito da leitura, dissemelhante de um faceta que tem nove dedos, diz Bolsonaro.

Depois entram em cena aliados políticos. Cabe ao deputado estadual Hélio Lopes —outrora publicado porquê Helio Bolsonaro ou Helio Negão— atestar que o ex-presidente não é racista e que nunca usaria uma pessoa negra para se blindar de críticas.

Quando Nikolas Ferreira (PL-MG) aparece na tela, surgem vaias da plateia. Nos últimos tempos, o mineiro vem se estranhando com os filhos de Jair Bolsonaro. Nikolas, além de ter se desentendido com Eduardo, chegou a expressar que Jair Renan tinha a capacidade cognitiva “subalterno à de uma toupeira cega”.

Em cena, Nikolas fala da religiosidade de Bolsonaro e de sua fé em Deus. “O Deus dele [Nikolas] é outro”, debocha uma das espectadoras na sala em Embu das Artes.

Outros aliados que aparecem no filme são Gil Diniz (PL), ex-Carteiro Reaça, e Mario Frias (PL-SP), ex-secretário de Cultura.

O filme também dedica um bom tempo à facada. Não somos poupados dos detalhes —mais de uma vez se descreve a hemorragia no tripa. Quando os médicos abriram a bojo do capitão, viram muito sangue e fezes, lembram Eduardo e Flávio. Dadas estas condições, se não houve infecção, é obra de um milagre, diz o fruto 03.

Detalhes da corrida eleitoral de 2018, todo o procuração presidencial de Bolsonaro, a pandemia, o 8 de janeiro, a minuta golpista —tudo isso fica de fora do filme, que se interessa mais no Jair pessoa física, não no presidente Bolsonaro.

Voltamos à família. Os parentes admitem que Jair é um faceta bruto —nunca deu um ósculo em seus filhos, nunca disse “eu te senhor”. Mas isso não quer expressar que ele não é um faceta amoroso, unicamente tem seu jeitão peculiar de provar seus afetos. Carinho pode ser uma mão pesada

Mas não é uma via de mão única. Flávio conta que quando pediu sua mulher em noivado, logo foi abraçar e beijar o pai, declarando que o amava na frente de todo mundo. Carlos foi mais extremo na mostra de afeto —tatuou o rosto do pai no braço. O pai, que sempre detestou piercing e tatuagem, repreendeu o fruto. “Você é um otário, hein”, admoestou.

A sensibilidade de Jair só foi vir depois que a única filha mulher, Laura, nasceu. Com os filhos era eructação na mesa, palavrão e pulso firme. Com a moça, era preciso mais delicadeza e demonstrações de carinho. Jair Renan não é mencionado no filme.

Daí em diante os elogios escalam. Jair Bolsonaro, em sua trajetória, esteve quase sempre perceptível, diz o irmão Renato. “Não digo 100%, porque ninguém é 100%”, contemporiza.

Já Flávio não titubeia ao declarar que o pai foi escolhido por Deus. A tia concorda, Jair foi disposto por Deus nesse seu caminho tortuoso. Para Carlos, Jair não é mais simplesmente uma pessoa física qualquer, é alguma coisa maior —mas também não chega a se tornar uma teoria, porquê Lula disse de si próprio, certa feita.

Quando é pedido a Carlos que defina seu pai em uma vocábulo, a voz embarga, as lágrimas vêm. É impossível defini-lo em uma só vocábulo. Mas, se for para escolher uma, essa vocábulo é “saudade”.

Folha

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