Documentário resgata imagens inéditas da União Soviética – 19/10/2026 – Ilustrada
No primórdio da dez de 1970, cineastas vinculados ao Partido Comunista Italiano fizeram uma viagem pela União Soviética. Não para unicamente saber a maior região do planeta, mas para registrar a rotina da população daquelas bandas, ainda relativamente pouco conhecidas no mundo numulário. Mas o material filmado, no termo das contas, acabou engavetado —e permaneceu incógnito por décadas.
As imagens foram parar nas mãos do bielorrusso-ucraniano Sergei Loznitsa, que as editou no documentário “Imperium”, em destaque na Mostra de São Paulo. Durante a pré-produção do longa, à medida que o diretor via cada trecho do material bruto, mais ficava introvertido.
“Posso expressar que tudo me surpreendeu”, diz o cineasta, que conheceu as derradeiras décadas da União Soviética. “Quando eles filmaram, eu tinha uns sete anos. Lembro-me muito da Kiev da quadra e um pouco de partes do interno do país, mas eram muito dissemelhante das imagens. Muitas coisas que aconteciam em outras partes soviéticas chegavam até nós pela mídia solene. Eles não nos mostravam muitos aspectos daquela veras.”
De notável valor antropológico, as imagens de “Imperium” reúnem cenas corriqueiras, de pessoas caminhando pelas ruas de grandes metrópoles, mas também cerimônias de agregamento social e religiosas, nos lugares mais recônditos daquele país continental.
“Ao chegarem à União Soviética, os cineastas perceberam que aquela teoria de um grande porvir socialista se dissipava diante da veras que viam. Alguns decidiram não participar mais do projeto, enquanto outros seguiram em frente e realizaram as filmagens. Foram três expedições, abrangendo tapume de 60 locais por todo o país. Tratava-se de uma longa investigação”, conta o diretor.
Do material bruto, exclusivamente 5% eram filmes sonoros. Ainda que Loznitsa esteja habituado a dar atenção privativo à edição de som de seus documentários, desta vez se viu diante de um trabalho ainda mais extenuante. Foi necessário fazer muita leitura labial, regravar músicas e, no caso de liturgias e de celebrações culturais, desvendar o texto que era declamado para reproduzi-lo com alguma verdade na dublagem.
Auxiliado pelo designer de som Vladimir Golovnitski, com quem trabalha há mais de duas décadas, o cineasta precisou mobilizar 75 pessoas para atuarem dublando e gravando diálogos. “Foi muito difícil, antes de tudo, encontrar vozes para dublar pessoas de lugares porquê Uzbequistão, Turcomenistão, Tajiquistão e também o Daguestão. E no caso da Iacútia [região no extremo norte da Rússia], precisamos convocar uma pessoa de Budapeste que conhece um pouco do linguagem para expressar algumas palavras em iacuto.”
Muitas das imagens, sobretudo as rurais, parecem exóticas, com rituais de marcada opulência visual. Grande segmento das cenas urbanas, porém, mostra um dia a dia relativamente parecido com o de qualquer cidade numulário da quadra. O que faz sentido: Loznitsa é taxativo ao expressar que nunca houve socialismo em seu país natal.
“O que havia na União Soviética era capitalismo de Estado, com elementos de uma sociedade eslava. Acho que, quando estrangeiros chegavam ao país, percebiam que estavam, de certa forma, em um campo de concentração”, diz, referindo-se à metódico vigilância estatal sobre tudo e todos.
O cineasta acredita que, em muitas das cenas que buscam transmitir uma sensação de normalidade, havia no fundo um enorme pavor generalizado. “Veja as pessoas no mercado em Baku [no Azerbaijão]: estão tensas, parecem sobrecarregadas de problemas. Elas sentem pânico. E dá para perceber isso também nas pessoas na enorme loja de departamentos, em Moscou.”
Loznitsa crê que a sensação dos cineastas italianos no país não deve ter sido tão dissemelhante. “Eles eram vigiados o tempo todo. Havia sempre dois agentes acompanhando o grupo, que não diziam explicitamente ‘somos da KGB’, mas todo mundo entendia, embora eles dissessem ser assistentes no projeto. Eles tinham que jogar esse jogo com aqueles dois sujeitos.”
“Imperium” é dividido em episódios, em universal demarcados pela região em que foram filmados. Na transição entre um e outro, a tela fica toda vermelha. “O sangue! O sangue!”, Loznitsa explica, em seguida dando mais detalhes sobre a estrutura que escolheu.
“Início por Moscou, apresentando imediatamente a ideologia solene, porquê uma tese. E o restante do filme é uma antítese, passo a passo —é a ruína ou a desconstrução dessa tese. E todos esses episódios se contrapõem a ela de alguma forma e mostram um pouco dissemelhante.”
Loznitsa diz que, com o filme, fica evidente que a teoria da existência de uma “cultura soviética” sempre foi falsa. “Porquê é verosímil ter e manter culturas tão diferentes dentro de um mesmo país? Só com vexame. Com a polícia, o serviço secreto, o tropa.” Que ele diz ser um pouco que a Rússia atual tenta repetir, com o projeto imperial de Putin.
“A Rússia continua mandando e tentando apender territórios. Essa é uma mentalidade muito arcaica, incompatível com a sociedade moderna. E é um pouco que vai contra a humanidade.”





