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Como Benito di Paula reviu o samba popular com piano
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Como Benito di Paula reviu o samba popular com piano – 19/10/2026 – Ilustrada

Uma história famosa sobre Benito di Paula tem a ver com Ella Fitzgerald. A cantora americana de jazz decidiu gravar “Madalena”, elaboração de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, depois de ouvir o cantor fluminense, morto no domingo (18), aos 84 anos, tocá-la em uma boate com seu piano suingado.

Mas, enquanto o brasiliano influenciou uma mito do jazz americano, o contrário não é muito verdade. Embora alguns enxerguem uma veia jazzística na obra de Benito di Paula, o próprio cantor dizia que não gostava do gênero e não citava nenhum artista do estilo entre as suas inspirações.

Essa percepção tem a ver com a centralidade do piano na sua música, que reimaginou o samba batucando nas teclas, injetando nele o romantismo da música brega, um retrato enamorado do Brasil nas letras e uma latinidade de raiz africana. Sucesso ao nível de Roberto Carlos nos anos 1970, sua produção minguou nas décadas seguintes, mas sua visão original do samba resistiu ao tempo.

Fluminense de Novidade Friburgo, Di Paula forjou sua musicalidade se apresentando em boates e bordéis. Aprendeu a tocar violão com o pai e desenvolveu sua linguagem nas teclas por conta própria, transpondo os acordes de um instrumento ao outro. Quando o pianista da orquestra de dança de uma mansão noturna que tocava faltou a um show, ele assumiu o posto. Seu jeito expansivo de tocar chamou a atenção, e o cantor nunca mais largou as teclas.

Quando Benito di Paula começou sua curso, na dez de 1960, já havia gente no Brasil transpondo a linguagem percussiva do samba para o piano. Johnny Alf se valia da síncope do estilo brasiliano e João Donato batucava as teclas, criando desenhos rítmicos mais ligados ao toque do tamborim. Ambos estavam embrenhados nas influências de jazz e nas harmonias intrincadas da bossa novidade.

Di Paula vinha de outra linhagem. Fã do sambista Ataulfo Alves, ele dizia que adorava bossa novidade, mas achava o gênero muito difícil de tocar. Se o estilo de João Gilberto e Tom Jobim prezava pela dificuldade harmônica, a economia do esquina sussurrado e uma melancolia contida, Di Paula preferia acordes mais simples, cantava porquê um crooner romântico e nunca rejeitou o drama.

Trabalhando no giro de boates e cabarés, ele recebeu uma proposta para lucrar em Santos, no litoral paulista, o duplo do que recebia no Rio de Janeiro. Foi em São Paulo que ele assumiu o piano e desenvolveu seu balanço com as teclas. Partia do samba, mas tinha possante inspiração em ritmos afro-cubanos, porquê o mambo.

“Eu ouvia muito, e adorava, Perez Prado e Tito Puente. Aquilo ficou. Quando montei um trio para tocar num hotel, [a bateria] já não fazia mais [ele faz o ritmo do samba com a voz]. Era sempre direto no chimbal, com o bumbo fazendo os dois [toques] do samba e a outra mão fazendo o que fizesse. Aí, bicho, virou um ‘chá chá chá’, uma coisa que todo mundo adorava”, ele disse a Charles Gavin no programa O Som do Vinil, do Via Brasil.

Foi também em São Paulo que conheceu os donos da gravadora Copacabana, responsável por publicar a maior —e mais importante— secção de sua discografia. O cantor lançou compactos na segunda metade da dez de 1960, mas estreou em disco em 1971.

O álbum de estreia era um retrato mais retraído do Di Paula despojado que despontaria nos anos seguintes. Era também uma obra mais de tradutor do que de compositor, que não durou nas lojas porque continha uma versão de “Apesar de Você”, de Chico Buarque, censurada pela ditadura militar.

O segundo disco, no ano seguinte, tinha outra rostro. “Violão Não se Empresta a Ninguém”, a filete de início, abria com um cavaquinho e não deixava dúvidas de sua natureza sambística. Constituição de Benito, “Ela”, que deu título ao álbum, fez sucesso na voz de Jair Rodrigues e deu a senha para que a Copacabana apostasse na caneta —e não só na voz— de seu artista.

“Um Novo Samba” é o trabalho que o estabeleceu no imaginário da música brasileira. Com 11 faixas, todas escritas por ele, sintetizou a imagem clássica do cantor —com smoking, joias, um bigode ostensivo e uma cabeleira ainda mais vasta. Mais que isso, consolidou sua musicalidade entre o samba e a música romântica popular.

É desse disco a música “Retalhos de Cetim”, hoje um clássico das rodas de samba país afora, que traz Benito entre a percussividade da escola de samba e o esquina sofrido de um bolero triste. Na letra, ele procura a melancolia no meio do Carnaval, com um personagem que chora em plena avenida com o coração partido.

Dali em diante, Di Paula emplacou sucesso detrás de sucesso e virou figura estável na vida pública do país. Estava na TV, no rádio e nos toca-discos. Compôs “Amanheceu”, de 1975, mormente para Roberto Carlos, com quem chegou a rivalizar nas vendas de discos, aos milhões. Muito antes da vaga atual de megashows, tocava em estádios de futebol pelo país.

É longa a lista de sambas românticos do cantor. A sequência de “Modificação” e “Vai Permanecer na Saudade”, ambas do disco autointitulado de 1975, soa quase porquê bregas do Pará. “Não Precisa me Perdoar” e “Porquê Dizia o Rabino”, do mesmo álbum, retratam homens em profundo sofrimento posteriormente um desentendimento amoroso.

Suas músicas, no entanto, não se resumiam às letras românticas, e faziam retratos da cultura, da sociedade e da paisagem brasileira. “Sandália de Pele”, introduzida por uma cuíca, une as duas coisas —um enamorado se lembra da querida enquanto passeia pela cidade de Salvador. A Bahia era musa recorrente de Benito, porquê em “Bahia”, de 1977, e “Maria Baiana Maria”, filete de início de seu clássico disco de 1976.

São desse mesmo álbum, um de seus vários chamados exclusivamente de “Benito di Paula”, músicas porquê “Meu Brasil Meu Guloseima Querido” e “Tudo Está no Seu Lugar”. Essa vertente de composições de exaltação do país, somada à asserção do título dessa segunda filete, motivou uma série de críticas de que o cantor estaria fazendo músicas para o regime militar.

Em entrevista ao Conversa com Bial, da TV Mundo, ele definiu a situação porquê “um momento de muita fraqueza de muita gente”. “Quando saí de mansão, de Friburgo, minha mansão estava caindo. Mamãe com 13 irmãos. Eu tinha que trabalhar, não dava para estudar. Logo, fui trabalhar. Não sei porquê vim parar em São Paulo, porquê encontrei Ella Fitzgerald, Stevie Wonder, Ravi Shankar, todo mundo me dando espeque. Enfrentei duas ditaduras horríveis —a do Getúlio e essa outra estúpida aí. Faço a música porque dei duas casas para minha mãe, com o suor do meu trabalho honesto e a ajuda de Deus. Aí vêm uns babacas, sem o menor pudor, manifestar que fiz música para a ditadura. A ‘dita’ deles é que não está dura —nunca estiveram.”

Di Paula já contou que morou em favelas, porquê o Morro da Formiga, na Tijuca. Quando melhorou um pouco de vida, já em Santos, mudou-se para uma pensão de italianos, que recebiam os quadrinhos do Charlie Brown. A música do cantor que leva esse nome, veio da teoria que ele teve de apresentar ao personagem as coisas do Brasil —da torcida do Flamengo a Luiz Gonzaga.

O rei do baião, aliás, foi homenageado por Benito em “Sanfona Branca”, de 1975, era em que o pernambucano estava em baixa —e o fluminense em subida. Ele ficou tão grato que lançou “Chapéu de Pele e Gratidão”, citando o fã na letra. “Porquê é bonito, Benito”, repete a letra de Aguinaldo Batista.

Ao longo da dez de 1980, Di Paula foi perdendo espaço na indústria fonográfica e na música. Sua produção minguou nas décadas seguintes. Ele ficou marcado porquê um cantor de “samba-joia”, rótulo criado nos anos 1970 para nomear um tipo de samba muito popular, que incluía também artistas porquê Agepê e Luiz Ayrão. Recaía sobre o artista também a pecha de brega, por culpa do texto romântico de secção de sua obra.

Numa entrevista de 1997 à Folha, remoto dos holofotes, o cantor respondeu à arguição de ser “mercantil”. “Ah, mas quem não é? Eu queria ser os Beatles. Quer mais mercantil que eles? Isso é que é ser mercantil. Nós somos simplesmente comerciais. Só. Se você faz um disco, o que você espera? Que ele faça sucesso. Lotar o Maracanã, porquê fez o Frank Sinatra, é ser mercantil? Fazer duetos com o Tom Jobim e com todo mundo é para vender ou para permanecer na prateleira? É para vender. Mas sei que a minha música é a mais simples de todas.”

“Simples em que sentido?”, seguiu o repórter. “Minha música é popular. Paladar do popular, do povão mesmo. Inclusive eu digo que não sou sambista, sou ‘sambeiro’. Não sou pianista, sou ‘pianeiro’”, disse o cantor, que ainda se lembra de ter sido chamado de “samba-brega” e “de cafona, de cafona”.

Quarenta anos depois do auge de seu sucesso, e tapume de 20 depois desta entrevista, resta a certeza de que a música de Benito di Paula resistiu a modismos e ao teste do tempo. Em muitos casos, fez o caminho de volta. Se o cantor levou o samba ao piano, à noite e aos estádios, Xande de Pilares, desde a era do Revelação, trouxe Di Paula de volta ao samba mais puro, regravando com sucesso a música “Do Jeito Que a Vida Quer”.

Porquê “Retalhos de Cetim”, é presença obrigatória em nove de dez rodas de samba pelo Brasil afora, fazendo justiça ao legado de Benito —o “pianeiro” que recebeu do samba sua estrutura artística, mas devolveu a ele um cancioneiro à sua profundidade.

Folha

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