Documentários musicais trocam a inovação por afago – 24/07/2026 – Gustavo Alonso
Comecei a pesquisar música popular há quase 25 anos. No início dos anos 2000 se contava nos dedos os livros, filmes e peças de teatro sobre artistas de nossa música. Hoje em dia, e acho que prelúdios a permanecer velho quando digo “hoje em dia”, há uma grande produção sobre a música popular. A ponto de mesmo o mais solícito comentador se perder diante do manancial de obras.
Diante da quantidade de produtos, é preciso filtros, mormente em relação aos documentários, resultado privilegiado pelo mercado de streaming. Faz-se necessário diferenciar os que querem exclusivamente homenagear um artista dos que de trajo querem contribuir para o debate músico, aprofundar questões e trazer novas perspectivas, inovando de alguma forma.
Leste mês foram lançados dois documentários no Globoplay que buscam ser exclusivamente homenagens aos respectivos artistas. O primeiro é “Anos 90: A Explosão do Pagode”, dos diretores Emílio Domingos e Rafael Boucinha. É uma obra que quer exclusivamente rememorar o sucesso de bandas porquê Katinguelê, Negritude Junior, Raça Negra, Exaltasamba, Só pra Contrariar, Molejo, Soweto e Karametade no término do século pretérito.
Apesar do tema rico e referto de polêmicas, o documentário não procura zero além de homenagear os artistas, não esboçando qualquer densidade que acrescente um pouco à memória daqueles que viveram a dez. É um grande apanhado de imagens de registro e entrevistas com alguns nomes do gênero. Nesta proposta, faltaram alguns personagens essenciais do pretérito, porquê Alexandre Pires, do Só pra Contrariar, Luiz Carlos, do Raça Negra, e Leandro Lehart, do Art Popular.
Faltou ouvir também especialistas e críticos que foram importantes na validação social dos pagodeiros. Lembro mormente da assombro de uma importante figura do mundo cultural da viradela do século, o intelectual Hermano Vianna, vetusto colunista da Folha e hoje sumido do mainstream.
Antropólogo reconhecido, idealizador de programas de Regina Casé na Mundo, porquê o Brasil Legítimo, Mediano da Periferia e o Esquenta!, Vianna admirava profundamente o trabalho de Leandro Lehart e ajudou na legitimação do artista e do pagode entre certa intelectualidade de classe média.
Mas porquê o documentário não vai a fundo no tema, e visa exclusivamente ser um voo panorâmico sem polêmicas sobre o pagode, perde-se a oportunidade de debater questões muito brasileiras, porquê a conexão entre intelectuais e setores populares ou a prisão de pagodeiros famosos.
Lehart, sentenciado por estupro, ainda não foi recluso. Seu caso nem sequer é abordado no documentário. Por sua vez, a prisão de Belo por tráfico de drogas em 2008 é simplificada de forma malcriada na produção do Globoplay. Tudo é lindo, tudo é belo.
O segundo resultado lançado pela plataforma neste mês foi o documentário “Preta: Eu Não Ando Só”, de Sandra Kogut, sobre a vida e morte da cantora Preta Gil. É obviamente uma homenagem, que começou a ser formatada quando a cantora já padecia do cancro que viria a matá-la em 2025.
O documentário tem o seu valor no quesito emocional. Mas não procura alongar zero além da melancolia e da homenagem a uma cantora que se tornou uma boa crooner, uma empolgada animadora de público, mas sem obra autoral consistente.
Preta conseguiu emplacar no imaginário vernáculo exclusivamente uma única melodia, “Sinais de Queima”. Seus shows eram basicamente de canções de repertórios alheios. Preta se insere, com condescendência, na longa tradição de crooners brasileiros, porquê Elza Soares e Emílio Santiago.
Em um vasqueiro momento, Mulato Veloso e o companheiro Gominho especulam sobre Preta ter sido uma tropicalista. Gil e Caetano comentam rapidamente sobre ela ter sido uma pré e pós-tropicalista, sem densidade na discussão.
Seria um tema interessante a se discutir diante das implicações mercadológicas abertas pelo tropicalismo com a cultura pop, que face à relativização dos critérios estéticos, às vezes resvalou na assombro fortuita pelo ordinário. Não custa lembrar que Caetano Veloso já considerou Márcio Victor, do Psirico, o porvir da música brasileira.
Ambos os documentários apostam numa prática que se tornou onipresente, que é a pouquidade de narrador. Quem conta as histórias são os próprios entrevistados, amarrando esse tipo de produção ao sabor do que se quer expor no presente.
Quem aposta exclusivamente nas falas dos entrevistados fica refém da falta de sátira da atualidade e do parco libido de expor um pouco novo.
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