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Sem medo de ser vulgar, Dolly Parton foi feminista radical
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Dolly Parton: Entenda estilo extravagante e ousado da diva – 25/08/2026 – Ilustrada

De todos os aforismos proferidos por Dolly Parton, a “diva country reluzente do Tennessee”, porquê Andy Warhol a chamou, que morreu na terça-feira em Nashville, Tennessee, talvez o mais revelador tenha sido uma frase dita por ela em 1995, durante uma lista Top 10 de David Letterman sobre coisas irritantes.

Uma das coisas que mais a incomodavam, brincou Parton, em pé em uma varanda de seu parque de diversões Dollywood, vestindo uma blusa preta e dourada com um decote vazado emoldurando os seios, o cabelo armado porquê uma halo platinada e um grande sorriso no rosto, eram “contadores que não entendem quanto custa me fazer parecer tão barata”.

Na verdade, ninguém entendia melhor do que Dolly Parton o que era preciso para parecer Dolly Parton —nem refletia mais sobre o que isso significava e sobre porquê as roupas podiam dar personalidade a uma voz.

Ela podia ter somente 1,52 metro de profundeza, mas fez de si mesma uma figura maior do que a vida. Ao fazer isso, desafiou estereótipos de todo tipo sobre mulheres, semblante e teor, com uma piscadela, uma boa ração de ironia autoconsciente e a recusa em pedir desculpas pelo que queria.

Desde que assinou seu primeiro contrato de gravação com a Monument Records, em 1965, ela inventava não somente seu som, mas também sua persona pública: uma loira burra caricata, com uma enorme peruca platinada, saltos de 15 centímetros, sutiã de bojo e strass, a quem mais tarde batizou, em uma melodia, de “Backwoods Barbie”, ou “Barbie do interno”.

Esse estilo inconfundível nunca vacilou. Na idade de sua morte, Parton teria mais de 350 perucas —uma para quase todos os dias do ano—, mais de 2.000 pares de sapatos e um montão de 4.645 metros quadrados com figurinos de palco cobertos de brilhos. Na verdade, ela tinha tantas roupas que escreveu um livro inteiro sobre elas. A obra, “Behind the Seams: My Life in Rhinestones”, era uma espécie de autobiografia contada por meio das roupas, complementando “Dolly Parton, Songteller: My Life in Lyrics”, sua autobiografia em canções. Para ela, eram dois lados da mesma história.

E ela inspirou não somente seus fãs, que compareciam a convenções de sósias de Dolly —Rhinestone Fest e Dolly Day— vestidos dos pés à cabeça porquê ela, mas também artistas porquê Miley Cyrus, Kacey Musgraves e Carrie Underwood, todas as quais passaram por suas próprias fases de cowgirl de strass. Isso sem falar em Emma Grede e Khloé Kardashian, da Good American, que colaboraram com Parton em uma coleção de jeans e roupas chamada Joleans —um trocadilho tipicamente Dolly.

Porquê diziam os versos de seu álbum de estreia: “Esta loira burra não se deixa fazer de boba por ninguém”.

Hoje, esse tipo de construção de uma imagem uno parece uma estratégia geral para artistas de qualquer gênero, mas Parton fez isso antes da era dos stylists e dos contratos com marcas. E muitas vezes fez isso diante de críticas explícitas: de seu avô pastor, chocado quando ela ainda era párvulo; dos pais de seus colegas de escola, que a consideravam “uma má influência”, porquê escreveu em seu livro; e dos executivos de sua gravadora, que achavam que ela não seria levada a sério porque, segundo ela mais tarde parafraseou, diziam: “Você parece mais uma prostituta do que uma cantora”.

O que eles não sabiam era que ela entendia perfeitamente o que estava fazendo: recorria a clichês profundamente enraizados no imaginário cultural coletivo ao mesmo tempo que os confrontava. Ela não somente trabalharia e cantaria mais do que todos os outros; também brilharia mais, subvertendo as próprias expectativas que criava.

“Nunca deixe um strass sem revirar”, disse ela a Warhol em uma conversa para a Interview, republicada pela revista em 2014. Cada lampejo era um lembrete dos perigos de subestimar ou estereotipar alguém com base na semblante. Ou, porquê ela cantava: “Não me julgue pela capote, porque sou um livro muito bom”.

É verdade que sua inspiração de estilo talvez tenha sido a mulher mais malfalada da cidade, com “suas saias justas, seus sapatos de salto supino, suas unhas vermelhas, seu batom vermelho e seu cabelo descolorido” —ou pelo menos foi logo que escreveu em seu livro de voga. Mas ela permaneceu casada com um único varão durante toda a vida. É verdade que suas roupas eram um tanto espalhafatosas, mas, porquê provou “Coat of Many Colors”, sua melodia sobre um casaco feito de retalhos que sua mãe costurou para ela quando párvulo, há significado em uma plumagem vibrante.

(Tanto que o casaco de muitas cores acabou sendo escolhido pela American Songwriter porquê uma das três peças de roupa mais famosas da música, ao lado da capelo cor de framboesa de Prince e dos sapatos de camurça azul de Elvis.)

É verdade que seu cabelo era tão falso que, porquê disse a Letterman, representava “risco de incêndio”, mas também era prático. As perucas significavam, segundo Parton, que ela podia evitar a descoloração e o eriçamento necessários para arrumar seu cabelo de verdade —e que poderiam destruí-lo—, além de prometer que “nunca teria um dia de cabelo ruim”.

E, sim, ela poderia “se virar com menos”, porquê disse a Barbara Walters em uma entrevista de 1982. Mas por que deveria? “Eu paladar de mais”, afirmou.

Entre seus colaboradores nessa empreitada estavam Lucy Adams, que criou os macacões boca de sino cravejados de cristais usados nas capas de seus álbuns das décadas de 1960 e 1970; Bob Mackie, responsável pelo visual ainda mais enroupado de brilhos do próprio de TV “Dolly and Carol in Nashville”, de 1979; Tony Chase, também um dos favoritos de Gloria Gaynor; Ann Roth, figurinista de “Porquê Varar seu Patrão”, seu primeiro filme; e o designer Steve Summers, que começou a trabalhar com Parton em 1991 e passou três décadas porquê diretor criativo dela no ateliê da Dollywood.

“Dolly criou a imagem”, disse ele em 2023. “Ela estabeleceu todas as regras básicas. Eu somente as segui.”

Essas regras, segundo ela, sempre começavam com “muito justo e muito refulgente”. Fosse em sua tempo de mariposa, com brilhos e tons pastel; em sua era de cowgirl de strass com franjas; ou em sua encarnação de diva de Las Vegas.

“Eu nunca me importei com o que as outras pessoas faziam e nunca me importei com o que diziam sobre o que eu vestia”, disse Parton à Vogue quando seu livro de memórias sobre voga foi lançado. “Era mais importante que eu me sentisse confortável em minhas próprias roupas e comigo mesma.”

O restante do mundo podia estar correndo detrás do grunge, do minimalismo, do choque ou de contratos com marcas, mas ela nunca se desviou da estética que brilhava tão intensamente para ela desde moça. Embora certa vez tenha brincado: “Não sou um ícone da voga; sou uma agressão aos olhos”, o que ela foi, de vestuário, foi memorável.

Folha

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