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'Don Carlo', no Municipal, vê lirismo de duelos políticos
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‘Don Carlo’, no Municipal, vê lirismo de duelos políticos – 16/09/2026 – Ilustrada

Uma das principais e mais sombrias óperas italianas, “Don Carlo”, de Giuseppe Verdi, volta a ser encenada no Theatro Municipal em seguida 21 anos.

Trabalho de transição, em que Verdi abandona convenções do início de curso e incertezas quanto a novas técnicas e vai à maturidade, “Don Carlo” estreia nesta sexta-feira (18) e encerra uma temporada marcada por mudanças na programação do teatro em seguida a troca de gestão do multíplice cultural, sob comando do Instituto Baccarelli desde junho.

“Don Carlo”, aliás, só foi confirmada, entre outros fatores, por motivo do progressão na contratação do elenco, principalmente o estrangeiro, iniciada em agosto do ano pretérito. O orçamento foi repensado, mas não prejudicou significativamente a montagem de Caetano Vilela que, dentre as várias versões do próprio Verdi, optou pela mais monumental, a italiana, com quatro horas e 30 minutos e dois intervalos.

Foi também necessário o aval dos gestores para a produção de uma ópera de poderoso cunho político, centrada no embate entre Igreja e Estado. Baseada na peça do teutónico Friedrich Schiller, “Don Carlo” estreou em 1867 e apresenta o que realmente atraía Verdi —dramas pessoais que só ganham sentido graças a uma teia de interesses e conflitos políticos.

Escrito inicialmente em galicismo e depois traduzido para o italiano, o enredo da ópera é um enredado de tramas e histórias paralelas. O ponto de partida é um consonância de sossego entre a Espanha e a França, no século 16. Elisabetta di Valois, filha do rei galicismo, apaixona-se por Carlo, herdeiro espanhol. O pai deste, Filippo 2º, porém, resolve se matrimoniar com ela.

Perdido entre a paixão pela madrasta e a decisão de lutar contra o tropa do pai, Carlo é influenciado pelo camarada de puerícia Rodrigo, que, na tentativa de levar a cabo seus ideais liberais, aproxima-se do rei e desperta a ira do Grande Inquisidor —a história é ambientada na Espanha tomada pela Santa Pergunta.

“O que interessa a Verdi é a disputa entre o rei e o Inquisidor”, afirma Vilela, descrevendo Filippo 2º porquê o régio que descobre a solidão do poder e a insuficiência perante a Igreja. O diretor destaca uma cena que considera decisiva desse embate, quando o rei recebe o religioso em seus aposentos. Filippo pede um lição para seu rebento, no que é atendido pelo Inquisidor, que, por sua vez, pede em troca a cabeça de Rodrigo, o Marquês de Posa, cujas ideias liberais incomodam os católicos.

“Portanto o trono deve sempre se inclinar perante o altar”, diz o rei, inconformado por receber a ordem de matar o único varão que considera camarada. A ironia no glosa é também sinal do poderoso anticlericalismo de Verdi.

“Pela primeira vez, a Igreja serpente a reino. E o indumentária de o rei estar sem diadema e de pijama, enquanto o Inquisidor aparece todo paramentado, escoltado de seus pajens, é a forma de Verdi trazer a política para dentro de morada. Filippo percebe que não tem domínio sobre a Igreja, que corrói o poder por dentro”, afirma Vilela.

Para o encenador, o dueto, que dura 40 minutos, é o momento essencialmente teatral da ópera, com todos os elementos apontados por Schiller, em sua peça, porquê política, paixões destruidoras, amores frustrados e ideias liberais. Também é uma resposta à sátira contra a falta de naturalidade da ópera —com o estilo do trovar recitado, o gênero ganha verdade e dramaticidade.

Vilela ainda evitou duas escolhas cênicas adotadas por diretores para perceber o sensacionalismo. A primeira é o caráter homoerótico na relação entre Carlo e Rodrigo, presente mormente nas versões francesas.

No primeiro grande dueto, “Dio, che nell’Espírito Infondesti”, os dois homens selam um juramento de lealdade e união até a morte, com Verdi usando temas passionais que podem conduzir a amizade a um patamar supra dos laços amorosos tradicionais. “Vejo porquê um tanto absolutamente fraterno. São amigos de puerícia e eu não queria que isso distraísse o público”, diz o encenador.

Vilela abriu mão também da pirotecnia de cenas porquê aquele em que o rei executa hereges, queimados vivos diante da turba. Enquanto diversas montagens estrangeiras mostram fogueiras chamuscando, a paulistana prefere que os condenados deixem o palco antes do tortura.

Também foi descartada a cruz que é normalmente exibida no fundo da cena. “Preferi a diadema de espinhos, um objeto mais simbólico. Quando o rei entra em cena, desce uma diadema de espinhos de cinco metros, que emoldura o fundo do cenário. Cristo é usado pela Igreja para queimar os pecadores”, diz Vilela.

“No momento do sacrifício, a diadema muda de cor, para o vermelho. As pessoas se ajoelham diante do rei enquanto Cristo, que é a figura mais importante, está relegado ao fundo.”

Verdi sempre se preocupou com o paisagem teatral das obras. “Don Carlo” é fruto disso, de uma relação mais direta da orquestra com o quina, ou seja, da música com o texto. “A orquestra desponta quase porquê uma linguagem. Não no sentido de estilo, mas filosófico, dramatúrgico. Porquê em Wagner, a orquestra surge porquê uma outra voz, um outro personagem, o que concede um maior poder dramático”, afirma o tenor paraense Atalla Ayan, que fará Carlo em um dos elencos.

A valia vocal é reforçada pela soprano americana de origem mexicana Ailyn Pérez, que vive pela segunda vez Elisabetta de Valois. “Verdi requer muita maturidade na voz, porque cada personagem tem um momento em que se revela vulnerável”, diz ela, contrária à posição de submissa atribuída à sua personagem.

“É uma mulher poderoso, com coragem de falar francamente com o rei. Mas sabe da obrigação de furar mão de seu libido por Carlo em troca da sossego entre os dois países. É um ato de perceptibilidade.”

Diferentemente das óperas anteriores de Verdi, em “Don Carlo” a orquestra dialoga sempre com as linhas vocais, antecipando, comentando ou contradizendo o que está sendo cantado. Nesse caso, a música deixa de ser um mero suporte harmônico para se tornar uma extensão da mente e dos sentimentos dos personagens.

Para que isso fique evidente ao público, a Orquestra Sinfônica Municipal, sob a regência de Roberto Minczuk, ganha reforço do Coro Lírico Municipal, com presença maciça nos quatro atos, o que acentua a dramaticidade.

“Eu temia exagerar em determinadas cenas, mas Minczuk me incentivou dizendo que, para a plateia entender as paixões, a música crescente pede uma exacerbação em todos os níveis”, diz Vilela.

Outro pormenor que ganhou reforço é a presença de Rodrigo, o Marquês de Posa, com protagonismo que chega a superar o de Carlo. Meio moral e político da ópera, ele é movido por um grande ideal —a liberdade dos oprimidos e o termo da tirania.

“Isso em meio a personagens presos a paixões obsessivas ou disputas de poder”, afirma o barítono Paulo Szot, tradutor do personagem. “Estudiosos apontam Rodrigo porquê alter ego de Schiller para refletir suas ideias de liberdade. E Verdi potencializa isso, principalmente numa cena poderoso em que Rodrigo esclarece ao rei o que se passa fora da sua bolha, desmentindo que o povo o governanta e que tudo está em sossego.”

As relações de poder criadas por Verdi se inspiravam em William Shakespeare, responsável que o compositor italiano considerava “o grande explorador do coração humano”. Em “Don Carlo”, o protagonista é visitado pelo fantasma do avô, Carlos 5º, porquê um místico frade que vaga pelo mosteiro de São Justo

No quinto e último ato, quando Don Carlo é ladeado por Filippo 2º e pelos guardas da Pergunta, Carlos 5º surge das trevas e conduz o neto para a segurança do santuário.

“Há uma inegável influência hamletiana nas duas aparições do fantasma do avô, além da dolorosa situação de Carlo ao ter de admitir o matrimónio de sua prometida, Elisabetta di Valois, com o pai, assim porquê Hamlet vê sua mãe casar-se com o tio”, diz Vilela.

Folha

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