Por que é tão difícil trovar Cranberries?
A margem irlandesa The Cranberries completaria 35 anos em 2026. Mesmo em seguida a morte da vocalista Dolores O’Riordan, em 2018, o grupo segue lembrado por covers, principalmente de artistas queridinhos do indie pop (e rock).
A presença uniforme de versões em shows e nas redes sociais, no entanto, esbarra em uma realização técnica complexa. Por fim, por que é tão difícil reinterpretar as canções do Cranberries?
O g1 ouviu os técnicos vocais Rafael Dantas e Janaina Pimenta para entender as características que tornam o esquina de Dolores tão único. Eles também avaliaram oito versões: de homenagens que funcionaram a tentativas que causaram notório estranhamento.
A técnica do ‘soluço’
Dolores O’Riordan, do Cranberries, em show de 2016
GUILLAUME SOUVANT / AFP
Dolores O’Riordan (1971-2018) não teve estudo formal de esquina, mas sua vivência em igrejas e a legado cultural irlandesa moldaram seu estilo.
A marca registrada é o uso uniforme do yodel, uma técnica que consiste na troca ou quebra das formas de trovar: fica mais agudo e depois grave, alternando rapidamente.
Segundo o profissional Rafael Dantas, a técnica consiste na “troca ou quebra de registros”, feita de forma saudável e com uso de voz mista. Na música country americana, o yodel costuma ser um enfeite, mas Dolores o transformou em um recurso mediano para seu estilo.
“Ela usava yodel em praticamente todas as frases. Isso virou a marca registrada da margem”, completa Dantas. “Quando ouvimos e vemos algumas homenagens, muitas funcionam, e outras, o nosso ouvido tem um estranhamento, por ser muito dissemelhante da original.”
Sofrência suave
A vocalista Dolores O’Riordan (sentada), o baixista Mike Hogan, o baterista Fergal Lawler e o guitarrista Noel Hogan, do Cranberries, em 2012
Joël SAGET / AFP
Janaína Pimenta, que também é fonoaudióloga, destaca a alternância na versão da irlandesa. “Ela tem uma voz suave e ao mesmo tempo um ar de sofrência. É o ponto chave”, analisa ela.
“Tecnicamente, ela usa registro de peito e cabeça, fazendo essas mudanças que dão a sensação de dualidade.”
“Você precisa ter técnica para fazer essas mudanças de registro e sustentá-las”, explica Janaína. “Tecnicamente, ela usa registro de peito e cabeça, faz essas mudanças de registro que dá essa sensação dessa dualidade.”
Para a coach vocal, várias versões falham justamente por não captarem essa entrega: “A forma uma vez que a Dolores cantava pegava a gente porque a emoção estava à flor da pele”.
Veja o veredito de covers do Cranberries, de combinação com o g1 e com ajuda dos especialistas:
➖✅ FUNCIONOU
Chappell Roan – “Dreams”: A americana, atração do Lollapalooza 2026, entendeu a prelecção. Ela adaptou a tonalidade para o clarão correto de sua voz, mantendo sua originalidade. A versão é respeitosa, mas adaptada ao estilo de sua voz.
Hayley Williams – “Dreams”: A vocalista do Paramore apostou em uma versão acústica e intimista em um show na Irlanda. Manteve a origem sem imitar os maneirismos de Dolores, o que garantiu uma homenagem honesta, suave e muito executada.
➕➖ MAIS OU MENOS
Japanese Breakfast – “Dreams”: A versão divide opiniões técnicas, mas ganha na “vibe”. Existem problemas de afinação, mas a sonoridade e a entrega emocional da margem indie americana garantem o saldo positivo.
Royel Otis – “Linger”: Esse cover que dominou o TikTok é do duo australiano e ele cantaram uma versão no Lolla 2026. É inegável: o timbre encanta, mas é fácil sentir quase um desconforto vocal na performance. É aventuroso, mas cansa o ouvido sengo.
Rosé (Blackpink) – “Linger”: A estrela do K-pop trouxe sua assinatura vocal para uma versão competente. Só que a cover perde um pouco daquela “sujeira” emocional e orgânica que tornava a original tão impactante.
❌ NÃO FUNCIONOU
Jão – “Linger”: O cantor baixou o tom. E também baixou o impacto. Menos visceral, a versão calminha vale pela homenagem. A cover apresentada no Lolla 2025 mostrou que ele topa passar riscos, mas o resultado final soa morno.
Angélica – “Linger”: A versão brasileira “Se a gente se entender” é um clássico da TV. Faz lembrar dos tempos em que a apresentadora era também cantora. Mas a dona do hit “Vou de táxi” entrega uma versão somente inusitada.
Jack Antonoff (Bleachers) – “Dreams”: O produtor de Taylor Swift e Lana Del Rey escorregou mal-parecido. A avaliação é que a voz ficou muito fora de sua região mais procedente, faltando “punch”. Falta impacto vocal, apesar de o instrumental ser muito construído.
Fonte G1
