A relação entre Portugal e a teledramaturgia brasileira é um afeto velho, selado pelo fenômeno de bilheteria que o filme de Bruno Barreto consolidou em 1976. É sob o repercussão dessa memória que a novidade montagem de “Dona Flor e Seus Dois Maridos” cumpre temporada no país, tendo Lisboa porquê ponto de partida. No entanto, a direção de Sergio Módena e a adaptação de Vítor Rocha esquivam-se da nostalgia fácil: em vez de replicarem o pretérito, apostam na prontidão narrativa e na mística sensorial de uma Salvador carnavalesca. O espetáculo condensa a obra em 90 minutos ininterruptos, transmutando o Carnaval de mero cenário em pulsação dramática fundamental.
Nesse mergulho estético, a cenografia e a luz extrapolam a geografia para trasladar um estado de espírito, desenhando o precipício entre a explosão cromática da vida com Vadinho e a sobriedade asséptica da farmácia de Teodoro. No palco, o inverno lisboeta dissolve-se num calor que é tanto climatológico quanto emocional, transformando o teatro num terreiro seduzido onde a música dita o ritmo dos corpos. O trio protagonista sustenta esse círculo com um estabilidade notável, conferindo substância humana aos arquétipos de Jorge Estremecido.
A portuguesa Sofia Ribeiro constrói uma Flor que transita entre a pressão social e a emancipação do libido, encontrando força em sua própria vulnerabilidade ao ser libertada pela presença física e uniforme do fantasma de Vadinho. Nascente, encarnado por Bruno Cabrerizo, surge com uma virilidade magnética; longe de ser um vilão doméstico, seu Vadinho é humanizado pela intensidade de quem não soube viver pela metade. Fechando o triângulo, Vítor Hugo escapa habilmente da caricatura do marido maçudo, entregando um Teodoro metódico e genuinamente bondoso, o que torna o dilema final de Flor uma escolha verdadeiramente dolorosa.
A adaptação de Rocha, chancelada pela família de Estremecido, imprime um ritmo de músico à peça sem não ceder ao populismo. A direção de Módena garante uma fluidez coreográfica que funde os ambientes da cozinha, do quarto e da farmácia num fluxo contínuo e emocional coletivo. Ao final, a montagem honra o responsável ao abraçar suas contradições fundamentais: a ordem e o caos não se anulam, mas provam que, no território do paixão e do teatro, os opostos podem — e devem — dançar juntos até o último acorde.
Três perguntas para…
… Sergio Módena
O que o motivou, especificamente, a trazer esta adaptação para os palcos portugueses agora, em 2026?
Fui convidado pela Projecto 6 e pela Morente Poderoso para encaminhar esta coprodução e fiquei muito feliz, pois já leio a obra do Jorge Estremecido há qualquer tempo e, coincidentemente, estava revisitando seus livros quando recebi o invitação. É muito oportuno trazer “Dona Flor” de volta aos palcos agora. Ela é uma personagem que descobre seu empoderamento dentro de uma sociedade extremamente conservadora — a Bahia dos anos 1930 e 1940. Mesmo jovem, Flor já rompia com limitações impostas pela família e não aceitava as determinações da mãe sobre com quem deveria se matrimoniar.
Depois, ela vive a proeza de ter dois maridos. Mais do que uma licença do realismo poético de Jorge Estremecido, vemos uma mulher que, porquê disse Roberto DaMatta, “escolhe não escolher”. Ela entende que ambos a suprem de maneiras diferentes. É um tema que dialoga com as discussões atuais sobre as liberdades do feminino. O público, principalmente as mulheres, embarca nessa reflexão e celebra essa personagem amadiana que, ao se despir de pudores, se empodera. Esse vista específico atrai muito a atenção dos espectadores.
Porquê a inconstância cultural e a mistura de sotaques influenciaram a dinâmica dos ensaios e a química em cena?
A questão dos sotaques determinou tudo. Porquê eu não estava com um elenco totalmente brasiliano para retratar a Bahia da forma tradicional, confesso que me assustei no início. Mas decidimos apostar: se é um encontro de produções de Brasil e Portugal, isso deve refletir-se em cena. Somos países irmãos, e trazer essas diferenças de prosódia torna tudo mais rico, honesto e verdadeiro para o testemunha.
No prólogo, informamos ao público que o espetáculo promove esse encontro de sotaques. Isso conferiu à encenação um lugar lúdrico; não tentamos fazer uma reprodução histórica da Bahia, mas sim lembrar uma atmosfera que poderia estar em qualquer lugar do mundo. É interessante ver, por exemplo, a atriz que interpreta a mãe falando com sotaque nordestino e a Sofia, que faz a Flor, respondendo porquê portuguesa. O público aceita e adora esse pacto desde o início.
Quanto ao triângulo amoroso, a química é muito possante. Cada marido representa um vetor para Flor: Teodoro é a responsabilidade, a segurança e a previsibilidade — um varão bonito e interessante, longe de ser um “bobalhão”. Já Vadinho traz a fardo sexual, a alegria e a sarau. Ter dois atores brasileiros contracenando com uma atriz portuguesa adiciona uma categoria de leitura que deixa a relação mais “apimentada” e interessante.
De que maneira as canções do Carnaval baiano (Ivete Sangalo, Araketu) funcionam porquê extensão da emoção das personagens?
O repertório faz todo o sentido, pois as canções falam de paixão, saudade e alegria. O Vadinho é a própria representação do Carnaval — não à toa, ele morre em uma quarta-feira de cinzas. Quando o Vitor trouxe a proposta desse recorte da música baiana, o nosso diretor músico, Guilherme Gila, trabalhou em releituras que se encaixam porquê uma luva na narrativa.
Jorge Estremecido sempre defendeu a sentença popular, e cá usamos a cultura do axé, repaginada, para imaginar a história. Acredito que seja a primeira vez que se faz um músico com esse repertório específico. As músicas não estão soltas; elas ajudam a narrar a história e permitem que o público as redescubra dentro de um contexto dramático, evocando elementos que são fundamentais na obra de Jorge.
Casino Lisboa – Parque dos Oceanos, 45 – Parque das Nações, Lisboa, Portugal. Quinta a sábado, 21h. Domingo, 17h. Até 17/5. Duração: 90 minutos (sem pausa). Classificação indicativa: 16 anos. A partir de € 23 em ticketline.pt. A montagem segue para Porto (21 a 23/5) e Figueira da Foz (29 e 30/5)
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