Notícias Favoritas

O seu portal favorito de notícias na Internet

'donatello' Resgata Dores E Amores Da Infância 11/09/2024
Celebridades Cultura

‘Donatello’: peça usa sorvete para falar de Alzheimer – 16/07/2026 – Mise-en-scène

Há um momento vasqueiro no teatro em que a encenação consegue transpor a barreira da ficção e tocar diretamente a experiência coletiva da plateia. É nesse limiar que se estabelece “Donatello”, solilóquio músico estrelado e escrito por Vitor Rocha, com direção de Victoria Ariante.

O espetáculo propõe uma reflexão sensível e corajosa sobre o Alzheimer, ancorada em um recurso narrativo tão singelo quanto profundo: a vida porquê um sorvete que derrete sob o calor implacável do tempo. Longe dos grandes aparatos tecnológicos, a montagem aposta na economia de elementos cênicos – uma mesa, uma cadeira, uma bicicleta e um pianista em cena – para edificar uma atmosfera de intimidade que potencializa o impacto emocional da narrativa.

A trama acompanha o sazão de um menino diante da primeira crise do avô, vítima da doença neurodegenerativa. Ao perceber que o idoso já não reconhece seu nome, mas preserva a memória gustativa do sorvete de mendubi e coco branco, o neto arquiteta uma estratégia de resistência afetiva: codificar todas as lembranças significativas da própria vida em sabores.

A premissa, embora poética, encontra respaldo na ciência ao explorar a estimulação sensorial porquê provável gatilho para a memória, ainda que a dramaturgia não se proponha a um tratado médico, mas a uma investigação sobre os limites do paixão diante do esquecimento.

Um dos diferenciais do espetáculo é a quebra da quarta parede antes mesmo do início solene da sessão. Vitor Rocha recebe o público no palco, conversa e coleta palavras e memórias em post-its. Esses fragmentos reais, trazidos pelos espectadores a cada noite, são incorporados de forma improvisada ao texto e às canções, tornando cada apresentação um evento único e irrepetível.

Mais do que um recurso dramatúrgico, esse procedimento espelha, no projecto da performance, o esforço cognitivo do avô para se ancorar na verdade – o ator, ao precisar lembrar e integrar essas palavras em tempo real, vivencia ele mesmo a fragilidade da memória. Ao fundo, o piano, tocado ao vivo por Guilherme Gila, atua porquê personagem invisível e flutuante, reagindo ao fluxo de consciência do protagonista e guiando o testemunha por essa arquitetura sonora e afetiva.

A opção narrativa de filtrar a tragédia pelo olhar de uma petiz que vai amadurecendo conforme o tempo passa confere à peça uma delicadeza lírica que evita o tom panfletário ou a morbidez. Sob essa perspectiva, as crises do avô são traduzidas porquê viagens espaciais inspiradas em clássicos do cinema, e a ruinoso física do corpo ganha contornos quase oníricos. Não se trata de uma romantização da doença, mas de uma estilização da dor para torná-la suportável. Um recurso estético que aproxima o público da experiência sem violar sua integridade emocional.

O espetáculo não traz soluções mágicas para o luto e o esquecimento. Seu viço reside, antes, na capacidade de transformar uma dor geral em experiência estética compartilhada. Um vasqueiro treino de trato coletiva que convida o público a saborear, com atenção plena, as próprias lembranças e as pessoas que patroa, antes que o tempo, inevitável e implacável, as dissipe.

Três perguntas para…

… Vitor Rocha

O sorvete é uma linguagem que substitui a termo esquecida. Porquê você descobriu que o paladar era o conduto sensorial evidente para transcrever o paixão em meio ao apagamento da memória?

Tenho a mania de pensar em antônimos no meu trabalho; paladar de juntar coisas distantes para tirar o público do automático. Já usei cantigas de roda em tragédias e fantoches dos anos 90 para falar de depressão. Dessa vez, eu queria abordar a segmento dura do envelhecimento e da perda de memória.

Para fabricar esse contraste, sabia que precisava olhar para a puerícia, para o prelúdios da vida. Foi pensando no que me remetia àquela era que cheguei ao paladar, que é, de vestimenta, um dos maiores meios de teletransporte implantados na nossa cabeça.

Incorporar sugestões da plateia a cada apresentação em tempo real exige uma entrega absoluta. Porquê você se prepara mentalmente para isso suceder de forma orgânica?

É um jogo que exige bastante concentração. Desde que tive a teoria de incorporar as memórias da plateia, sabia que seria reptante, mas também o que tornaria tudo mais íntimo e jocoso. O melhor jeito de fazer alguém querer ouvir uma história é mostrar que ela também é sobre essa pessoa.

Em termos de preparação, além da concentração antes do espetáculo, o que mais me ajuda é estar realmente discreto a quem participa: reparar em porquê são, no que vestem e porquê reagem. Não é só um jogo de perguntas e respostas, é um momento de compartilhar memórias. Funciona melhor quando eu consigo ir além do nome e imaginar, de vestimenta, aquele “pai”, aquela “tia” ou “camarada de puerícia” que a pessoa está evocando e dividindo comigo.

Se o “Donatello” pudesse presenciar à peça em qualquer lugar da memória que ainda resta, o que você acha que ele diria sobre o neto que virou ator para mantê-lo vivo?

Essa é a hora em que quebro um pouco o magia: a história não é autobiográfica e o vovô Donatello nunca existiu fora dos palcos. Eu mal conheci meus avós. A teoria do espetáculo surgiu, na verdade, do que vivi nos últimos meses de vida do meu pai, que foi diagnosticado com um tumor cerebral. É um lugar frágil, dolorido e bonito que a família passa a ocupar diante de um diagnóstico sem trato.

Essa crueza me fez querer falar sobre o matéria, mas através da ficção, pois minha segmento preferida de tudo isso é fabricar. Ainda assim, acabei recorrendo a algumas memórias próprias. A que escolhi manter viva porquê homenagem foi o sabor de sorvete predilecto do meu pai, que é o grande catalisador da história. Acho que, se ele pudesse presenciar, diria que adorou a galhofa, me cobraria os créditos e ficaria feliz por ter sido promovido a “vovô” na ficção, já que em vida isso não foi provável.

Teatro do Núcleo Experimental – Rua Barra Fundíbulo, 637, Barra Fundíbulo, região oeste. Sábado, 20h e domingo, 19h. Até 19/7. Duração: 90 minutos. Classificação indicativa: 10 anos. Os ingressos para a temporada estão esgotados. Na próxima, não deixe de ver.

Folha

LEAVE A RESPONSE

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *