Cinemateca vê ‘milagre’ na recuperação do Canal 100 – 16/07/2026 – Baú do Cinema
“Um milagre.” Assim a diretora técnica da Cinemateca Brasileira, Gabriela Queiroz, classifica a recuperação dos filmes do Meio 100, projeto iniciado em 2024 e prorrogado até maio de 2027. “Tínhamos a esperança de não salvar muito do material. Imaginávamos uma taxa de 60% de descarte, ficou entre 35% e 40%”, diz.
O projeto procura restabelecer, registar e digitalizar o pilha do Meio 100, entregue à Cinemateca em 2011. Até 2013, uma força-tarefa cuidou do material. Na estação, 50% da coleção já havia sido avaliada. O restante, murado de 8.000 latas de filmes, ficou parado até 2024 em razão das sucessivas crises na instituição.
Criado pelo cineasta Carlos Niemeyer, o Meio 100 revolucionou a cobertura esportiva no país, imprimindo uma narrativa cinematográfica aos cinejornais, e esteve presente nas salas de cinema de 1957 a 1986. É sempre lembrado pelas imagens de futebol, mas seus programas abrangeram diferentes aspectos da vida política, cultural e social do país.
Segundo Gabriela, o material a ser restaurado estava em uma sala em que era difícil respirar por motivo do acúmulo de ácido acrimonioso, usado na fabricação das películas. “Abrimos uma lata toda enferrujada, com alicate, esperando encontrar um rolo totalmente perdido, e ele ainda tinha informações de imagem e áudio”, conta.
A partir daí, começou um trabalho de arqueologia cinematográfica. Em 2025, a equipe de catalogação trabalhou nos documentos do Meio 100 e montou um vocabulário e uma metodologia técnica para o pilha.
“Isso só foi provável porque os roteiros vieram com os filmes. Foram processados murado de 2.000 registros de todas as séries do Meio 100”, diz a diretora. Com esse material, foi provável cruzar os dados com os rcinejornais para saber o que sobreviveu.
O próximo passo foi levar os filmes para a roladeira, equipamento que permitiu que fossem avaliados. Gabriela explica que o pilha é todo picotado, com sequências usadas em vários programas (por exemplo, um lance de gol aparecia em edições de cinejornais diferentes).
“A catalogação ajudou no processo de identificação dos filmes. É um trabalho de quebra-cabeça”, diz. Nesta lanço, murado de 9.000 rolos foram incorporados ao pilha.
Na sequência, o material foi levado para processamento no laboratório de áudio e som para ser restaurado e copiado. “Gastamos R$ 3 milhões em película virgem, suporte metodologicamente mais firme e confiável, para gerar matrizes de preservação”, diz Gabriela.
Depois, começou a digitalização, para ampliar as possibilidades de aproximação ao material. Segundo a diretora, com a prorrogação do projeto e a readequação orçamentária, a Cinemateca pôde comprar um superscanner.
“Até o momento, já foram digitalizadas 20 horas. Com o equipamento, conseguimos dar um grande salto neste trabalho. O projeto permitiu comprar estações de subida performance para tratamento da imagem e de som, gerar matrizes e arquivos de espalhamento e aproximação”, diz.
Agora, dados obtidos em todos esses processos estão sendo cruzados para que 500 conteúdos sejam levados em breve ao BCC (Banco de Conteúdos Culturais), serviço do dedo gratuito da Cinemateca disponível ao público. Também estarão lá 6.000 páginas de arquivos, entre documentos e roteiros do Meio 100.
“Vamos chegar em maio de 2027 com um retrato do que foi o trabalho de arqueologia de informação e responder à grande pergunta: o que sobreviveu do material que ficou desassistido por dez anos?”, diz Gabriela.
A instituição também aproveitou a Despensa do Mundo para difundir o Meio 100. Pílulas de três minutos de programas foram apresentadas nos intervalos das exibições dos jogos do Brasil no Museu do Futebol, no Pacaembu, em São Paulo.
E colocou no ar o primeiro de uma série de vídeos com entrevistados que falam sobre o Meio 100 e memória pessoal e coletiva. O registro traz o ex-jogador Raí assistindo a imagens do irmão Sócrates capturadas pelas lentes dos cinejornais.
Em 2024, o projeto do Meio 100 foi orçado em R$ 27 milhões. Segundo Gabriela, a instituição conseguiu captar 70% do valor pela Lei Rouanet. Além da recuperação dos filmes, o trabalho deixa um legado para a Cinemateca.
“Contratamos murado de 30 funcionários para preservação, laboratório de áudio e som e documentação. Formamos pessoal e estrutura técnica; compramos equipamentos, computadores, softwares de tratamento e restauração.”
O pilha ainda se tornou uma nascente de renda para a Cinemateca. “O projeto tem viabilizado novas produções sobre o futebol brasílio. Sabemos do alcance que o teor terá em streamings, filmes, documentários”, diz. Segundo ela, clubes também já procuraram a Cinemateca para licenciar conteúdos.
Em seguida a restauração dos filmes do Meio 100, a prioridade da Cinemateca, que completou 80 anos, serão as obras da Atlântida, estúdio do Rio famoso por suas chanchadas nos anos 1940 e 1950. “Temos de restituir as coisas para a sociedade. Os acervos foram comprados porque havia interesse público”, afirma Gabriela.
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