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'É tempo de lutar', diz Urias sobre cenário eleitoral
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‘É tempo de lutar’, diz Urias sobre cenário eleitoral – 09/10/2026 – Ilustrada

“Foi um ano de coragem”, diz Urias, no natalício de lançamento de “Carranca”, seu terceiro álbum de estúdio. A cantora e compositora mineira diz que, durante todo o processo de geração, precisou enfrentar diversos medos em relação ao resultado da obra. “Essa coragem não é pouquidade de temor, mas de jornada com o temor.”

O risco girava em torno da novidade sonoridade e da possibilidade de o público não seguir sua transformação. “[Tomei] a decisão de falar da minha religião, da minha espiritualidade, que acaba sendo muito política, da minha negritude, da minha ancestralidade”, diz. O marco de um ano chega com um show nesta sexta, em São Paulo, na Audio, com exórdio de Mya Akoma e com a DJ Licciss nas carrapetas da apresentação, realizada pelo Toca Sessions.

Nos últimos meses, Urias sentiu que o público não somente abraçou o trabalho, mas se deixou levar pela curiosidade provocada por suas referências. Deu claro, por fim, e o resultado foi uma indicação ao Grammy Latino de melhor álbum de rock ou de música escolha em língua portuguesa. “Hoje em dia eu já não desacredito em mais zero.”

A artista diz gostar de deixar espaço para que cada ouvinte encontre sua própria versão. “Para mim significa isso, para você significa aquilo”, diz. A exórdio para falar de espiritualidade também marca uma mudança pessoal.

Ela conta que esse era um vista de sua vida que, durante muito tempo, preferiu manter reservado. Com o maduração, porém, sentiu urgência de apresentar ao público essa dimensão que sempre esteve presente. “Tem mais esse pedacinho cá de mim que faz segmento de um todo, que sempre esteve presente, mas agora eu quero compartilhar”, afirma.

Antes de ser cantora, Urias foi muitas coisas. Em Uberlândia, no interno de Minas Gerais, onde nasceu, estudou simultaneamente em duas escolas, fez dança, teatro, quina, piano e inglês. Mais tarde, cursou relações internacionais e depois tradução; trabalhou uma vez que padrão e DJ e passou pela equipe de Pabllo Vittar, sua amiga de faculdade.

Também fez covers e chegou a trabalhar em uma loja de departamento. Foi em seguida se cansar da rotina 6×1 na loja que decidiu tentar viver de música e começou a erigir a curso autoral. A decisão ganhou forma com os primeiros shows e, principalmente, com “Diaba”, lançada em 2019. Desde portanto, a artista negra e trans construiu uma obra marcada pela transformação.

Em “Fúria”, seu primeiro álbum, colocou o corpo no meio —tanto o corpo físico quanto o corpo político. A experiência de ser uma mulher trans fazia com que as perguntas sobre sua identidade ocupassem espaço recorrente nas entrevistas e na recepção de seu trabalho. Por isso, com “Her Mind”, seu segundo disco, a cantora buscou transladar esse olhar para assuntos da mente.

A heterogeneidade de gêneros que atravessa sua discografia também acompanha essa trajetória. Urias diz que gosta de buscar um tanto que ainda não tenha feito, sem negar daquilo de que gosta. Em “Her Mind”, ela já tinha a teoria de fazer “música eletrônica brasileira para o mundo”, incorporando instrumentos uma vez que berimbau e cuíca.

Em “Carranca”, essa lógica se encontrou com a teoria de resgatar ritmos do pretérito e transportá-los para o presente. “Queria fazer as coisas parecerem uma vez que um ‘soul brasílico’, mas num sentido de buscar os ritmos de antigamente, trazer eles para a modernidade.”

Um destes resultados aparece na filete “Voz do Brasil”, que recupera o nome e uma sonoridade associada ao programa radiofônico estatal, e na própria simbologia usada pela cantora, que apareceu em cena com filete presidencial e bandeira brasileira.

Ao comentar o atual cenário brasílico, Urias rejeita a teoria de tratar o eleitorado somente uma vez que uma subdivisão entre “bons” e “maus”.

A cantora diz estar “completamente assustada” com a presença de políticos que, segundo ela, mobilizam discursos contra pessoas trans e outros grupos LGBTQIA+. A cantora vê a reeleição de Erika Hilton uma vez que um símbolo de resistência, mas afirma que a esquerda precisa encontrar uma informação mais direta para inferir quem não se identifica com o campo progressista.

Para ela, segmento dos brasileiros ainda enxerga a política uma vez que uma disputa de “meu time contra o seu”, sem perceber os efeitos concretos das decisões eleitorais e uma vez que podem afetar direitos já conquistados. “A gente tem que se organizar”, afirma. “É tempo de lutar, não de desanimar.”

Folha

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