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Educação é prioridade para moradores de favelas do Rio nas
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Educação é prioridade para moradores de favelas do Rio nas eleições

No estado do Rio de Janeiro, 12,8 milhões de eleitores estão aptos a ir às urnas em outubro. Desses, 2,1 milhões vivem em uma das 1.724 favelas fluminenses, segundo o Recenseamento Demográfico de 2022 do Instituto Brasílio de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados mostram que essas áreas, apesar de antigas, ainda enfrentam maiores dificuldades de urbanização e de aproximação a serviços e políticas públicas, o que evidencia a desigualdade na presença do Estado nesses territórios.

Na cidade do Rio, por exemplo, 1,3 milhão de pessoas moram em uma das 813 favelas, áreas com menos casas ligadas à rede de esgoto e chuva e menor cobertura da coleta de lixo, embora não sejam regiões homogêneas, uma vez que explica a professora de serviço social da Universidade Federalista do Rio de Janeiro (UFRJ) Eblin Farage. Uma das principais estudiosas do tema, ela coordena o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Favelas e Espaços Populares (NEPFE).

Com a proximidade da troca de governantes, moradores de favela cariocas revelam à Filial Brasil demandas prioritárias para as comunidades, uma vez que melhorias na mobilidade, instrução, cultura, lazer, saúde e participação social. A segurança, uma preocupação na visão deles, reflete a escassez de ações nessas áreas, embora a violência e as operações policiais sejam um problema permanente.

Letícia Vitória Guimarães, de 16 anos, é moradora do Multíplice do Boche, na zona setentrião. Envolvida em uma série de iniciativas comunitárias, uma vez que os coletivos Gerar, de jovens, e o Mulheres em Ação, ela irá às urnas pela primeira vez em outubro.
 


Rio de Janeiro (RJ), 31/08/2026 – A ativista e pesquisadora Letícia Vitória Silva Guimarães posa para fotografia no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 31/08/2026 – A ativista e pesquisadora Letícia Vitória Silva Guimarães posa para fotografia no Complexo do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A ativista e pesquisadora Letícia Vitória Guimarães é moradora do Multíplice do Boche, na zona setentrião do Rio – Foto: Tomaz Silva/Filial Brasil

Para escolher em quem votar, a jovem revela que considera perfis “envolvidos com as pautas negras, com os direitos humanos e com a população”. Na visão dela, o candidato ou candidata também precisa saber dialogar.

“Muitas vezes, [governantes] chegam com respostas prontas, sem saber o que queremos, uma vez que achamos melhor, logo, precisa [ser alguém] disposto a ouvir”, frisou Letícia, que integra ainda o Parecer Estadual da Garoto e do Jovem, além de ser bolsista de um programa para jovens talentos da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio).

A jovem também elenca uma vez que prioridade propostas para mobilidade. O aproximação à cidade, frisa, é um repto para moradores de áreas periféricas. “Hoje você não tem um ônibus que saia do Boche ou de qualquer favela [da zona norte] para zona sul. Eu sou jovem, ir à praia é uma demanda real, de recta ao lazer”, disse, afirmando que a falta de linhas de ônibus também dificulta o aproximação a empregos.

Trabalho

Programas uma vez que o Jovem Novel não cobrem os custos com viagens de dois, até três ônibus, e a alimento de quem passa o dia fora, afirma. “Os valores [de repasse] são baixos, hoje, R$ 20 não pagam nem uma quentinha”, criticou Letícia, sobre a política que procura inserir jovens de 14 a 24 anos no mercado de trabalho.

Da maior favela do Brasil, a Rocinha, com 72 milénio habitantes, a jornalista Isabelle Rodrigues Trindade, de 26 anos, se preocupa com a escassez de oportunidades profissionais. Ela gostaria de trabalhar na dimensão, mas não encontra vagas. Formada há dois anos na PUC-RIO, ela já trabalhou no portal de notícias da Rocinha, o Fala Roça, mas agora atua uma vez que agente cultural, em um bairro próximo.

Segundo a jovem, os moradores de favelas também estão de olho nas propostas para ofício e renda, sendo o término da graduação 6×1 uma prioridade.

“É muito difícil conciliar trabalho, família e estudo com essa rotina, principalmente, por motivo dos grandes deslocamentos, caso das pessoas que moram em favelas”, analisou. O regime de trabalho, avalia, também retira da juventude tempo de qualificação e de lazer.


Rio de Janeiro (RJ), 03/09/2026 - A jornalista Isabelle Trindade fala sobre a proposta dos candidatos para as periferias do Rio de Janeiro. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 03/09/2026 - A jornalista Isabelle Trindade fala sobre a proposta dos candidatos para as periferias do Rio de Janeiro. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

A jornalista Isabelle Trindade fala sobre as propostas dos candidatos para as periferias do Rio de Janeiro – Foto: Rovena Rosa/Filial Brasil

Instrução

A oferta de mais cursos técnicos e profissionalizantes, além de projetos esportivos, vai definir o voto de João*, um jovem de 26 anos que vive de bicos, é pai de duas meninas e mora em uma grande favela da zona setentrião. “Cá, o curso começa, a gente até inicia, mas acaba antes de a gente concluir “, criticou, ao falar sobre iniciativas encerradas antes de formarem as turmas. “Eu ainda queria estudar, mesmo sendo difícil [trabalhar e estudar]. Falar um português melhor e ter uma vida melhor”, pontuou.

O jovem também serpente propostas para as crianças com deficiência e autismo e cita a urgência de creches preparadas com mais mediadores nas salas. “Muitas famílias passam por dificuldade diárias, dentro da favela, onde as condições de vida já são mais precárias, mas que não encontram respostas do Poder Público.”
 


Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2026 – Retrato da educadora popular e estudante universitária de História Sara Sant'anna, na Uerj. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 27/08/2026 – Retrato da educadora popular e estudante universitária de História Sara Sant'anna, na Uerj. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Desigualdades na cidade do Rio preocupam a educadora popular e estudante de história na Uerj Sara Sant’anna – Foto: Fernando Frazão/Filial Brasil

Estudante de história na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Sara Sant’anna, de 24 anos, também está preocupada com as desigualdades na cidade. Cria da Favela do Rodo, na zona oeste, ela serpente a instalação de centros culturais na região, além de polos de instrução superior.

“Campo Grande é um dos maiores bairros do Brasil e a oferta de cursos superiores públicos cá é limitada. A faculdade mais perto é longe, em Seropédica, a uma hora”, disse a educadora. Sara é também diretora da Mansão Frutos, dedicada a cursinhos de pré-vestibular na Cidade de Deus, comunidade da zona oeste imortalizada no filme homônimo de Fernando Meirelles e Kátia Lund.

Enfrentamento ao racismo e saúde

Outra preocupação de moradores de favela é com ações que enfrentem o racismo. Na cidade do Rio, segundo o IBGE, a maior secção de moradores das favelas cariocas é formada por negros, sendo 21% pessoas pretas e 49%, pardas. Os brancos, maioria em outras áreas da cidade, são um em cada três moradores das comunidades.

No Morro da Providência, uma das primeiras favelas do país, projetos sociais da organização Galeria Providência evidenciam uma vez que o racismo se tornou uma barreira na conquista de melhores condições de vida, a encetar pela saúde, uma prioridade sítio.

“Um debate que avança, em meio a uma população afetada pelo plebeu nível educacional e pelas fake news [que confundem e desinformam], é o da saúde”, contou o pesquisador e fundador da organização, Hugo Oliveira. “Quando colocamos em incerteza um atendimento ruim no hospital, por exemplo, de violência obstétrica contra mulheres negras, o território consegue ter uma dimensão do problema”, avalia.
 


Pesquisador e gestor cultural Hugo Oliveira, Dr. em Comunicação, cria do Morro da Providência. Foto: Hugo Oliveira/Arquivo Pessoal
Pesquisador e gestor cultural Hugo Oliveira, Dr. em Comunicação, cria do Morro da Providência. Foto: Hugo Oliveira/Arquivo Pessoal

Pesquisador e gestor cultural Hugo Oliveira defende maior fala entre moradores da favela e Poder Público – Foto: Hugo Oliveira/Registo Pessoal

O gestor cultural usa outros exemplos para retrair o diálogo sobre racismo nas favelas: as abordagens policiais, que se traduzem mais em violência contra jovens negros do que brancos, e o racismo ambiental, que se reflete no aproximação a moradias mais precárias ou vulneráveis a eventos climáticos extremos que em outras áreas da cidade.

“Esses assuntos vêm sendo colocados de forma superficial nas campanhas”, analisou o gestor. “Mas são vitais, mexem com toda a estrutura, se eu moro em um espaço saudável, isso é um fator de saúde física, emocional e até místico”, avaliou o doutor em notícia pela UFRJ.

Para Oliveira, as eleições são um momento de olhar para lideranças locais, comprometidas com os territórios. “A tua cabeça pensa onde o teu pé pisa. Ninguém sabe melhor dos nossos territórios do que nós mesmos”, afirmou.

“Hoje a favela tem intelectuais, orgânicos ou acadêmicos, que produzem saberes, conhecimento, e é preciso promover a fala entre eles o Poder Público, principalmente, o Executivo”, recomendou, sobre o governo do estado.

Segurança

Em era de eleições, as favelas são disputadas por diferentes grupos políticos, no Rio de Janeiro. Mas nem todos candidatos conseguem se apresentar aos moradores. É preciso negociar com criminosos para fazer campanhas no sítio, e as eleições esbarram em um problema permanente, a presença do delito organizado.

Nascido na Cidade de Deus, Bruno Rafael Castilho Alves, de 46 anos, se mudou recentemente para o núcleo da capital fluminense. Além da proximidade com o ofício, ele cita a violência uma vez que um fator determinante, embora continue frequentando a comunidade, onde mantém, há muro de 20 anos, um projeto social de aulas de muay thai. Nele, usa o hip-hop para conscientizar os alunos mais jovens.

Na visão de Bruno, muitos candidatos não estão preocupados em atender às demandas de instrução, saúde ou esporte nas áreas periféricas, que seriam “medidas eficientes” para enfrentar a criminalidade. Ao contrário, ele aponta para discursos que exaltam a morte e o confronto.

“Vemos muito candidato falar em ‘dar tiro na cabecinha do jovem’, mas a população, principalmente periférica, não apoia”, criticou.


Rio de Janeiro (RJ), 08/09/2026 - O produtor cultural Bruno Rafael fala sobre as propostas dos candidatos nas eleições de 2026. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 08/09/2026 - O produtor cultural Bruno Rafael fala sobre as propostas dos candidatos nas eleições de 2026. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

O produtor cultural Bruno Rafael critica discursos de candidatos que exaltam o confronto uma vez que forma de combater a criminalidade – Foto: Rovena Rosa/Filial Brasil

Para o educador e os demais entrevistados, políticas públicas para a juventude aliadas ao enfrentamento da atuação financeira do delito deveriam ser prioridade.

“A população demanda combate de forma inteligente, sem ceifar a vida de ninguém”, acrescentou Sara, da Favela do Rodo. Ela acrescentou que, nestas eleições, muitas propostas das campanhas estão centradas em aumento de policiamento, de encarceramento e redução da idade penal, o que preocupa, diante dos relatos de ataque e violência policial. “Eu, infelizmente, já tive a vivenda arrombada várias vezes e vi policiais apontarem uma arma para a cabeça do meu pai”, contou a estudante.

No Rio de Janeiro, especificamente, organizações e movimentos sociais foram ao Supremo Tribunal Federalista solicitar que operações em favelas tenham mais planejamento e sejam realizadas com menos impacto nas comunidades. Em universal, escolas e serviços públicos fecham por motivo dos tiros disparados durante os confrontos.

Portanto, para os jovens, a segurança passa por melhorias na qualidade de vida de quem vive nas favelas, imprensados entre a violência policial e o controle do delito organizado, que gere setores econômicos uma vez que internet, transporte, venda de chuva envasada e a própria segurança de moradores e comerciantes.

“A periferia está cansada de invasão”, afirmou Bruno Rafael. “O susto de morar na comunidade é por motivo das operações [policiais], da projéctil, que não é perdida, é achada em inocentes. Não tem uma vez que encontrar normal uma operação às 8h da manhã, com crianças indo para a escolas e gente indo trabalhar”, criticou. “A comunidade quer uma ocupação com responsabilidade, a projéctil mata pessoas uma vez que eu”, emendou.

O morador de favela, avalia Bruno, apesar de dissemelhante, em termos sociais e econômicos, procura propostas que vão desde urbanização a políticas de saúde, esporte, cultura e instrução para seus filhos. “Isso que a gente quer”, listou.

Levar em conta a especificidade de cada favela na cidade ou no estado do Rio deveria ser uma prioridade dos governos, avalia a professora Eblin Farage, que estuda a presença do Estado nesses espaços. “Há uma heterogeneidade de cotidiano, de exigência histórica e de sujeitos que não permite homogeneização”, explicou.

Ela não se surpreende com a avaliação dos entrevistados, de colocar a segurança pública uma vez que uma proposta secundária para as favelas.

“Não há, na história do Rio de Janeiro, uma política de segurança pública bem-sucedida, que seja referência para essas pessoas”, avaliou. “Para eles [moradores], a segurança são as operações, o caveirão, a violência armada e isso não interessa, não os protege.”

Por outro lado, Eblin Farage analisa que os moradores têm referências de políticas habitacionais, de mobilidade urbana e instrução recentes, das quais se lembram.

Cada eleição, ponderou, é uma janela para pactuação de compromissos entre candidatos e comunidades. No entanto, diante das falhas dos governos em executar os combinados, Eblin Farage explica que os eleitores de favelas têm apostado mais na relação com o Legislativo, ou seja, em deputados estaduais, federais e senadores, com quem o diálogo e as relações tendem a ser mais próximos.

Ela alerta, porém, para relações clientelistas, uma vez que o assédio de projetos sociais geridos e mantidos por políticos, em favelas, que ano a ano se apresentam uma vez que selecção diante da escassez do Poder Público. Nesse tipo de atuação de organizações sociais, a pesquisadora vê fragmentação da mobilização por direitos.

“[Durante as eleições], ONGs de políticos desempenham um papel nefasto, reeditam o clientelismo, o curral eleitoral, promovem a extrema direita, fomentam relação nebulosa com grupos armados locais, sobretudo, a milícia, e não contribuem para a formação dos sujeitos, a resguardo dos direitos humanos.”

Contribuir para organizar e mobilizar moradores na resguardo de políticas públicas, inclusive em era de eleições, politizando o cotidiano da favela e o siso generalidade deveria ser o principal papel dessas organizações nos territórios, concluiu Eblin Farage.

*Nome imaginário a pedido do entrevistado.

Fonte EBC

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