Eliza Capai vê mudanças em cidade berço do Bolsa Família – 01/08/2026 – Ilustrada
“Por que será que Deus fez a mulher assim? Será que a mulher seria dissemelhante se fosse feita direto do barro?”, questiona uma garotinha logo no início do documentário “A Fabulosa Máquina do Tempo”. Vestindo uma túnica, uma vez que se fosse Jesus, ela estranha a passagem da Bíblia sobre uma vez que Eva foi criada a partir da costela de Adão. É um faz-de-conta, mas sua pergunta é genuína.
Foi por meio de brincadeiras que a diretora Eliza Capai conseguiu recontar as histórias reais das meninas de Guaribas, cidade no interno do Piauí, e das mulheres de suas famílias, marcadas pela miséria há gerações. Agora, o filme está nos cinemas do país posteriormente ter pretérito pelo Festival de Berlim, em fevereiro, e pelo É Tudo Verdade, em abril.
“A Fabulosa Máquina do Tempo” é um documentário híbrido, ou uma docuficção, unindo trechos roteirizados às entrevistas, pesquisas e registros do envolvente. É um gênero que remete ainda às origens do cinema —caso dos trabalhos de Robert Flaherty—e que segue se desdobrando até hoje, com títulos mais recentes uma vez que “Pensamento”, de Maria Augusta Ramos, e “Quatro Filhas de Olfa”, indicado ao Oscar em 2023.
No caso de Capai, a narrativa tem camadas. Ora, as meninas são gravadas brincando de casinha, com latas de alumínio, embalagens vazias de shampoo e um pedaço de papelão —e, sem perceber, dão pistas de sua veras com qualquer movimento ou diálogo.
Em outros momentos, a diretora conquista as crianças enquanto elas entrevistam as próprias mães. Uma delas pergunta o que a genitora faria se pudesse voltar no tempo. “Teria insistido mais nos estudos, para só depois matrimoniar e ter filhos”, é a resposta.
Quando outra pequena pergunta para a avó uma vez que era Guaribas décadas detrás, descobre que na cidade o queima era a lenha e não havia luz nas casas. A chuva encanada chegou só em 2003. Antes, todos eram católicos; hoje, predominam os fiéis da igreja pentecostal O Brasil para Cristo.
“A Fabulosa Máquina do Tempo” é fruto de um trabalho iniciado há 13 anos. Ao ler o livro “Vozes do Bolsa Família”, de Walquiria Leão Rego e Alessandro Pinzani, Capai se deparou com o levantamento de que mulheres eram priorizadas pelo governo para receber o mercê. Isso porque, estatisticamente, investem mais em comida e material escolar, enquanto os homens têm tendência a usar o moeda para lazer fora de vivenda.
Daí, Capai foi pela primeira vez a Guaribas, posteriormente lucrar uma bolsa de jornalismo. A teoria era investigar o impacto do Bolsa Família na cidade, nascimento do programa criado no primeiro procuração de Lula.
“Eu entrevistava mulheres da minha idade, na filete dos 30 anos, e elas diziam que viviam na escravidão. Ali, isso significava a falta do substancial”, diz a diretora. A escassez se estendia de itens básicos, uma vez que chinelos, às necessidades mais essenciais, uma vez que ter três refeições por dia.
Quando a diretora questionou as mulheres sobre o maior sonho delas, a resposta era a mesma. “Diziam ‘quero um marido bom, que me valorize’”.
Em 2021, quando Capai voltou à cidade, as coisas tinham mudado. As filhas daquelas mulheres que viviam na escassez eram bochechudas, descreve ela, e tinham novos sonhos. “Elas não queriam matrimoniar de jeito nenhum”, diz. “Houve uma mudança também subjetiva. Elas não viam mais o próprio valor atrelado a um varão.”
“A Fabulosa Máquina do Tempo” faz par com outro documentário, a ser lançado futuramente, sobre a história das mães das meninas, com quem Capai se encontrou diversas vezes de 2013 a 2024.
Nas últimas visitas ao sítio, a diretora e sua equipe deram oficinas de roteiro e de jornalismo às crianças —foi mal elas souberam interrogar as próprias mães, por exemplo.
Há ainda outra categoria no filme. Capai propôs situações às meninas e pediu para que, a partir delas, criassem um enredo que elas mesmas encenariam para a câmera.
Em uma dessas elaborações, as meninas recriam a história da mãe que não conseguiu estudar. Uma delas se veste de nubente, com bigode de cartolina e paletó de lençol, e a outra, de vestido branco, é a prometida. No altar, uma vez que na vida real, a pretendente diz “sim”, mesmo que esteja na incerteza. No faz-de-conta, porém, o marido também passa tempo em vivenda com as crianças, e a mulher sai para estudar.





