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Em 'Precisamos Falar', pais lidam com crime dos filhos
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Em ‘Precisamos Falar’, pais lidam com crime dos filhos – 23/09/2026 – Ilustrada

Você acorda com essa notícia: “Uma mulher em situação de rua morreu quando o caixa eletrônico em que ela dormia explodiu. A câmera de segurança mostra que a explosão foi causada por um artefato de incêndio de artifício jogado contra a vítima por um juvenil. Outros dois jovens estavam no lugar.” A polícia não identificou os envolvidos, mas você sim. E seu rebento está entre eles. O que você faz?

Essa é a provocação medial de “Precisamos Falar”, que estreia nesta quinta-feira (24). O longa-metragem brasiliano é a quinta adaptação do best-seller holandês “O Jantar”, de Herman Koch, inspirado na história real de uma mulher morta dessa maneira, em 2005, em Barcelona. Uma das adaptações para o cinema é a americana, de 2017, com o mesmo título do livro e protagonizada por Richard Gere.

O enredo se desenvolve em torno do encontro de dois casais brancos da escol econômica: um deles, pais do rapaz que atirou o artefato, e o outro parelha, dos meninos que o acompanhavam. Entre brindes com vinho custoso e pratos de subida gastronomia, eles decidem se devem ou não entregar os filhos para a polícia.

Em “Precisamos Falar”, Marjorie Estiano e Alexandre Nero interpretam os pais do maior culpado. Hermila Guedes e Emílio de Mello, dos outros dois adolescentes.

E não faltam ingredientes para aumentar a indigestão desse boda, a inaugurar pelo indumento de que os dois homens são irmãos, ou seja, o juvenil que causou a explosão é primo dos outros. Desses dois garotos, um foi adotado e, desde pequeno, sofre com bullying e racismo do primo por ser preto. E ainda tem a cereja do bolo azedo: o pai deles é candidato a governador, predilecto nas pesquisas, e o delito, de enorme repercussão, aconteceu às vésperas da eleição.

Os casais arrotam elegância enquanto analisam suas opções no cardápio de privilégios, impunidade e desigualdade, para depois pagarem a conta com “o horizonte dos meninos”. No embate polarizado daquele jantar, o prato principal acaba sendo a própria sociedade, com os dilemas morais e éticos de cada tempo e lugar.

E o tempero de “Precisamos Falar” tem sabor de Brasil, com as duas mulheres atuando uma vez que antagonistas, uma vomitando narrativas progressistas e a outra, antiprogressistas, com contradições para todos os gostos: “Posso encontrar meninos pobres que assumam o delito, e pagamos um moeda que pode mudar a vida deles”; “A moral e a moral que vocês tanto pregam é do muro de mansão para fora?”; “Se um deles se mansão um dia e dá porrada na mulher, a gente também vai dar um jeito?”; “Racista, fascista!”; “Ah, chega de mimimi…”

Com direção de Rebeca Diniz e Pedro Waddington, o roteiro da adaptação pátrio é assinado por Sergio Goldenberg, com supervisão de George Moura –ambos roteiristas premiados e veteranos do cinema e da TV, escreveram juntos recentemente para a Globoplay as telenovelas “Guerreiros do Sol”, do ano pretérito, e “Paraíso Perdido”, que estreia no ano que vem.

“Duas questões se colocam no filme. É moralmente esperado que você respeite as leis do país, a Justiça, assim uma vez que é moralmente esperado que você proteja seu rebento”, diz Goldenberg. “É bom que o testemunha se sente à mesa e se coloque um pouco na pele daqueles personagens.”

Em pesquisas para o roteiro, Goldenberg reviu crimes famosos no Brasil envolvendo jovens das altas classes socioeconômicas. Um deles é o do líder indígena pataxó Galdino Jesus dos Santos, queimado enquanto dormia em um ponto de ônibus, em Brasília, em 1997, por cinco rapazes —a resguardo sustentou que não passou de “folia”, “ato inconsequente de jovens”.

Outro é o do rebento da apresentadora Ciça Guimarães, atropelado e morto aos 18 anos por um veículo em subida velocidade, em um túnel interditado, no Rio de Janeiro, em 2010 –o pai do rapaz que dirigia o veículo ofereceu propina a PMs para evitar a prisão em flagrante do rebento.

Em sua adaptação, Goldenberg foi além do thriller psicológico centrado no jantar, para produzir sequências de suspense com os garotos. Enquanto os pais se alimentam da teoria de controlar o direcção dos filhos, em uma sala de jantar com iluminação confortável, os adolescentes estão lá fora, no escuro, terminando de entornar o caldo das inconsequências.

O roteirista aproveita para avultar mais um condimento possante, que não fazia secção do romance: a violência extrema entre adolescentes nas redes sociais. No filme, o jovem exibe na internet o vídeo da mulher morrendo queimada.

“Os garotos usam hoje as redes sociais para acessar as vítimas, marcar as ações e transmitir tudo. É terrível. Isso mexe muito com a gente, principalmente quando somos pais”, diz o roteirista, que tem filhos de dez, 23 e 28 anos.

Ele conta que ficou extremamente impressionado com o caso recente da rapariga de 13 anos, do Mato Grosso do Sul, induzida por outros adolescentes a se suicidar em uma transmissão ao vivo do Discord —o incidente levou à proibição de lives da plataforma no país.

“Tento imaginar o que se passa na cabeça deles. Há uma urgência de espetacularizar o sofrimento, um sadismo que graduação de uma maneira assustadora”, afirma. “Tenho vontade de fazer um filme sobre essa história da Lívia [a menina morta na live], documentário ou ficção, porque precisamos olhar para isso e pensar em formas de interceder.”

Em “Precisamos Falar”, o tradutor do jovem que mata a mulher no caixa eletrônico e exibe o delito nas redes sociais é o ator Thiago Voltolini, 24. Ele começou a atuar ainda na puerícia e já participou de novelas da Mundo.

“Tomei um choque quando li o roteiro e vi o tamanho da responsabilidade de fazer esse personagem”, ele diz. “Tentei descobrir alguma humanidade nesse face que faz coisas terríveis, e fui percebendo que ele não é um psicopata, mas fruto da geração desses pais, dessa bolha, e isso o deixa ainda mais terrível, porque ele é real, é alguém que está por aí.”

Depois de encarar o drama e a violência em “Precisamos Falar”, Thiago se voltou à comédia. Ele está em papeleta no papel de Fabio Porchat na peça “Meu Fruto É Um Músico”, sobre a vida do comediante Paulo Gustavo.

Com produção da Conspiração e da Mundo Filmes, essa é a estreia na direção de longas de Pedro Waddington, que já dirigiu as séries documentais “Anitta: Made In Honório” e “Em Lar com os Gil”. Ele também integrou a direção da série “Sob Pressão”, ao lado de Andrucha Waddington, seu pai —outro Pedro Waddington, seu primo, é o ator que fez o papel de Tiago Roitman na novidade versão de “Vale Tudo”.

Rebeca Diniz também é estreante no comando de um longa-metragem, mas tem mais de duas décadas em sets de cinema e TV –está no núcleo de direção das séries “Juntas e Separadas” e “Emergência 53”, nessa última, com Pedro e Andrucha.

“Precisamos Falar” entra em papeleta em 80 salas de cinema, estreia modesta para o cinema brasiliano —blockbusters nacionais, para se ter uma teoria, superam milénio salas—, mas depois deve lucrar fôlego em plataformas de streaming.

A Conspiração não divulga o orçamento, mas o formato, com poucos cenários, é mais econômico. “Esses dilemas morais rendem bons filmes de sala, filmes de diálogo, e, ou por outra, existe uma grande demanda da indústria por produções que sejam fortes, mobilizem o público, mas tenham dispêndio conseguível”, diz Goldenberg.

Folha

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