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Em quem Marília Mendonça votaria? 23/10/2026 Gustavo Alonso
Celebridades Cultura

Em quem Marília Mendonça votaria? – 23/10/2026 – Gustavo Alonso

Foi lançada no dia 16 deste mês no Prime Video a série documental “Marília Mendonça: Sentimento Louco”, da diretora Susanna Lira, uma homenagem à artista morta há cinco anos. O grande trunfo da produção é a grande quantidade de vídeos e áudios privados. Isso se deve ao indumento de a família da cantora ter autorizado a série. Talvez por isso não espanta que a série fuja da política porquê o diabo da cruz.

Mas até quando se pode fugir do tema? Marília Mendonça criou o feminejo, ramo que abraçou o feminismo porquê estética na música sertaneja. No auge da curso de Marília, feministas de rede social diziam que ela banalizava o movimento, enquanto acadêmicos e jornalistas se dividiam sobre a transformação da tarifa feminista em mainstream mercantil. Posteriormente sua trágica morte, as vozes dissonantes se calaram.

A série aborda genericamente as questões femininas no esquina de Marília, mas evita a polêmica. Marília viveu numa era em que o feminismo estava em subida, entre os mandatos de Dilma, Temer e Bolsonaro. Assim, é plangente que a série não avance no principal paradoxo músico do nosso tempo: o gênero mais popular do Brasil, frequentemente associado ao bolsonarismo e ao agronegócio, gestou uma cantora que se afeiçoou a pautas historicamente ligadas à esquerda.

O documentário não mostra, mas Marília participou do movimento “#EleNão” em 2018. Recebeu uma saraivada de críticas dos sertanejos e retirou o posicionamento. Sua recuada foi tão sentida que Caetano Veloso gravou um vídeo dizendo compreender a desistência, mas pedindo que ela fosse poderoso.

O documentário registra que Marília doou oxigênio aos hospitais de Manaus durante um dos períodos mais críticos da pandemia, de forma anônima. A atitude revela uma figura maiúscula. Mas também apequena a produção, incapaz de mostrar que a ação de Marília foi fruto do descaso delinquente do governo bolsonarista.

A fuga do tema na série do Prime Video sobre Marília não está sozinha. Todas as recentes produções audiovisuais sertanejas evitam a política. Uma vez que pesquisador e responsável de livro sobre o tema, já fui convidado a pesquisar para documentários e exposições sertanejos. A orientação é sempre taxativa: “Política não!” Fugindo de um tema tão importante, Susanna Lira fez uma série anódina, capaz de deleitar exclusivamente os fãs, e talvez aqueles que esqueceram a dimensão de Marília.

Espanta que uma diretora de filmes tão politizados —porquê Torre das Donzelas (2019) e Gonzaguinha: da maior valimento (2026)— tenha ermo sua arguta visão ao abordar o sertanejo. O primeiro filme documentou as companheiras de quartinho de Dilma Rousseff durante a sua vida na prisão na ditadura. O segundo documentou a trajetória do politizado Gonzaguinha, um dos arautos da resistência músico à ditadura. Em entrevista à CNN Susanna disse que “depois de Marília, não existem mais limites para as mulheres na música brasileira”. A julgar pelas produções recentes, há um limite muito simples: é proibido abordar a política. Uma pena.

Lançado entre o primeiro e o segundo vez da eleição presidencial, o documentário provoca uma reflexão: qual seria o posicionamento de Marília agora? Ela votaria em Lula? Ou tiraria o time de campo, porquê João Gomes? Rejeitaria ambos os candidatos? Ou apoiaria Flávio, porquê boa segmento dos sertanejos?

Nesta semana, depois um primeiro vez modorrento, os sertanejos caíram de cabeça na campanha. Terça passada mais de 30 cantores se reuniram com Flávio Bolsonaro na Herdade Toca da Orca, em Nerópolis (GO), de propriedade do senador Wilder Morais (PL). Chamou a atenção que exclusivamente um integrante de várias duplas compareceu: Zezé foi, Luciano, não; Marrone foi, Bruno, não; Rodolfo foi, Israel, não; Jorge foi, Mateus, não. Cauan foi, Cleber, não. Jader foi, Carlos, não. Marcelo foi, João Lucas não. Estariam as famílias sertanejas tão divididas quanto as famílias brasileiras? Murilo Huff, ex-namorado de Marília e pai de seu rebento, esteve presente. Será que Marília iria?

Nenhuma artista do feminejo esteve lá: nem Maiara nem Maraísa, nem Simone, nem Simaria. Nem Lauana Prado. Nem Naiara Azevedo. A principal artista da atualidade, a cantora Ana Castela, também não deu as caras. Cantoras de gerações anteriores, porquê Roberta Miranda e Paula Fernandes, tampouco foram.

A exiguidade das mulheres no tribuna e o silêncio do documentário mostram que a política continua sendo o maior tabu do sertanejo. Se nunca saberemos porquê Marília se posicionaria hoje, sua trajetória prova que tentar desvincular a arte da política do país é ignorar a própria força popular que a consagrou.


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Folha

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