Epifania transforma crise criativa em fábula musical – 05/11/2026 – Mise-en-scène
A maturidade de um fundador não se mede só pelo que escreve, mas pela capacidade de organizar a cena com conformidade. Com “Epifania – Uma Fábula Moderna”, Vitor Rocha chega a dez espetáculos autorais e se confirma porquê uma das vozes mais inventivas da dramaturgia músico brasileira.
Ao se distanciar do lirismo regional do início da curso, encara um repto perigoso: uma autoficção metateatral sobre bloqueio artístico, sofreguidão contemporânea e a mercantilização da imaginação. O triunfo dessa viradela está na combinação entre a densidade da escrita, a precisão despojada da encenação e o virtuosismo do septeto que ele graduação e conduz no palco.
Porquê dramaturgo e letrista, Rocha domina a prosódia e a síntese poética, equilibrando humor cáustico e seriedade sem clichês. Mas é na encenação que sua visão ganha força. Em vez do gigantismo vazio das produções convencionais, ele aposta na força da página em branco.
A intimidade do espaço cênico é um recurso dramatúrgico: o palco despido ganha vida pela dinâmica dos corpos e pela manipulação direta dos elementos essenciais. Ao lado do diretor músico e compositor Marco França, Rocha adota o teatro de mediação coletiva, onde os próprios atores executam a partitura, transformando violões, teclados e percussão em extensões dos personagens.
Essa escolha só funciona graças ao rigor técnico e à entrega do elenco. O motor do espetáculo é o atrito metalinguístico entre Verso e Fábula, vividos por Marco França e Laura Castro. França imprime a Verso a pulsação acelerada, a exigência de eficiência e o pragmatismo de uma mente algorítmica. Castro dota Fábula de lirismo sutil, sagacidade e calor humano, defendendo a lentidão e o meandro poético. A química entre os dois rende um diálogo de afiada lucidez.
No meio do conflito humano, a protagonista Filipa (Luiza Porto) e seu vizinho Valério (Diego Rodda) ancoram a identificação da plateia com densidade e frescor. A transição da crise urbana para o território mítico ganha força com a ingresso das Primas, interpretadas por Anna Toledo, Marília Lopes e Aline Cunha.
O trio, com seu trabalho vocal irrepreensível e presença magnética, encarna as artesãs cósmicas que conhecem o peso da material bruta da geração, derrubando o mito romântico da inspiração fácil e ensinando a protagonista a sustentar o silêncio e o vazio que antecedem as boas ideias.
A direção de Rocha costura os detalhes a serviço dessa atuação integrada: os movimentos do cotidiano urbano de Fabrício Licursi, os recortes de luz de Fran Barros que isolam a solidão na penumbra, o contraste entre o figurino funcional dos vizinhos e o porte escultórico das Primas, concebido por Acrides e Matheus Gadelha no visagismo.
Amparado pelo imagem de som cirúrgico de Guilherme Zomer, o elenco transita entre fala, esquina e realização instrumental com fluidez. Vitor Rocha mostra que sua força autoral não está somente na lucidez solitária da caneta, mas na capacidade de reunir grandes talentos para transformar a fragilidade humana em teatro forçoso.
Três perguntas para…
… Vitor Rocha
Em “Epifania”, a pressão da eficiência e da mercantilização da imaginação ganha corpo no palco. Essa peça nasceu de um esgotamento real ou de uma premência de discutir o papel do dramaturgo no teatro contemporâneo?
Felizmente, o segundo caso. Eu pensei muito sobre as bolhas que a internet cria, sobre as pontes que o quantia anda derrubando enquanto diz “impulsionar”, sobre os números estratosféricos que tudo se torna em segundos. Pensei sobre a solidão assistida, sobre a lucidez sintético, sobre chover no molhado só para pertencer, sobre esse feed em risca reta e, principalmente, sobre a nossa espontaneidade, nossas relações e nossas dualidades caindo por terreno no meio disso.
Portanto, depois de um tempo, passei a me concentrar no meu papel nessa história. Pensando em quem sou eu nessa loucura e qual é a minha função nesse cenário. Será que tudo precisa ter uma função? Veio daí. De pensar porquê transfixar parênteses e estabelecer diálogos num mundo tão polarizado, porquê plantar questionamentos em épocas tão certas de si, porquê fabricar alguma coisa dissemelhante se todos sabem o que estão buscando e, principalmente, porquê não ser somente o nosso trabalho se nosso trabalho é tão —e cada vez mais— pessoal.
A partitura músico não é mero seguimento: os próprios atores tocam instrumentos que funcionam porquê extensões dos personagens. Porquê se deu a construção dessa relação entre texto e música com o Marco França?
Desde o início, quando ainda estava escrevendo o texto e as letras do espetáculo, eu já sabia que gostaria de ter um elenco-banda. Quando contei ao Marco dessa vontade, ele não só topou a teoria, porquê passou a fabricar músicas sob medida para esses atores e seus talentos, seus instrumentos.
“Epifania” é o nosso terceiro trabalho juntos fazendo letras e músicas originais, acho que cada vez estamos mais afiados e íntimos artisticamente, isso ajuda muito. Eu, porquê nas outras vezes, fui costurando as letras junto do texto e o Marco alinhavando com os temas a medida que tudo ia sendo vestido pelo elenco já que bastante coisa foi se dando também na sala de ensaios.
Você disse que sua origem é “fabulosa e fabulesca”. Pode explicar melhor porquê isso acontece na prática?
Eu acho que a presença dos dois narradores do espetáculo, o Verso e a Fábula, responde muito a essa pergunta pois eles são a materialização perfeita de um conflito interno meu acerca dessa “fabulice”. Eu sabia que queria falar de questões atuais, sociais, filosóficas, tecnológicas e éticas. Mas também sei (e isso há qualquer tempo, por conta de outros trabalhos) que através de mim as histórias sempre ganham qualquer tipo de metáfora lúdica, a fantasia sempre acompanha.
Sei que é difícil para mim fugir dessa origem imaginativa e sei também que nem sempre esse estilo de escrita acessa a todos. Por isso, travei um debate entre meu “tico e teco” durante todo o processo de geração: qual o melhor jeito de falar sobre todas essas questões? Será que uma fábula ainda cabe, ainda vale imaginar? Ou será que isso vai reduzir a seriedade do que está sendo relatado? Será que devo abraçar essa origem ou usar isso porquê um repto para fabricar alguma coisa dissemelhante? A resposta virou pergunta no resultado final, em forma e teor.
Teatro Estúdio – Rua Mentor Nébias, 891, Campos Elíseos. Quarta e quinta, 20h. Até 17/12. Duração: 110 minutos. Classificação indicativa: livre. A partir de R$ 60 (meia-entrada) em sympla.com.br





