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Lendas do cinema mudo japonês e americano recheiam mostra
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Lendas do cinema mudo japonês e americano recheiam mostra – 05/11/2026 – Ilustrada

Em que outro evento um filme de 1926 teria tamanho destaque, senão na Jornada do Cinema Taciturno, que a Cinemateca Brasileira promove a partir desta quinta-feira (5), em parceria com a Giornate del Cinema Muto, de Pordenone, na Itália?

O filme em questão é “Uma Página de Loucura”, de Teinosuke Kinugasa, diretor que décadas mais tarde realizaria o marcante “Portal do Inferno”, de 1953, impressionante pelo seu uso da cor.

Em 1926, Kinugasa, antes um ator especializado em papéis femininos, se juntou aos “neossensorialistas”, grupo teatral de vanguarda que acreditava no mote “ver é mais importante do que compreender”. O primeiro fruto dessa parceria é o rememorável “Uma Página de Loucura”.

Não faz muito sentido falar em trama com esse tipo de filme plenamente formal, mas vá lá —um varão vai trabalhar num manicômio somente para permanecer perto de sua mulher, que foi internada.

A historiadora italiana Maria Roberta Novielli, autora de um belíssimo livro sobre cinema nipónico, resumiu muito: “Kinugasa altera a perpetuidade narrativa racional encadeando e/ou ofuscando as demarcações entre os inumeráveis flashbacks e as alucinações, desviando assim a percepção do real e do tempo histórico”.

Dá uma boa teoria de uma vez que é o filme. Mas o testemunha não tem uma vez que se preparar adequadamente para a fúria de imagens impressionantes que verá neste filme precípuo para entendermos a evolução do cinema nipónico. Cá, a teoria meio batida de verso cinematográfica encontra uma materialização.

O belíssimo “Uma Página de Loucura” é a principal, mas não a única atração da Jornada. Além dos registros de viagens de bondes pelas cidades, na chamada série de pequenos curtas chamada “Phantom Tram Rides”, material irresistível uma vez que documento da vida urbana no primórdio do século pretérito, outros longas fazem segmento da programação.

Há, por exemplo, o fascinante “M’Liss”, de 1918, dirigido por Marshall Neilan, cineasta prolífico nos anos 1920, que foi perdendo a força durante o cinema falado.

Nascente é mais um dos filmes que Neilan dirigiu para a estrela Mary Pickford, uma das lendas do cinema americano. A atriz interpreta uma moça aventureira envolvida com um falso culpado de um violação. Não é faroeste, mas parece; naquela estação, todos os filmes ambientados em zonas rurais pareciam faroestes.

Porquê diretor contratado da Mary Pickford Films, Neilan realizou, entre outros, os célebres “Stella Maris”, de 1918, e “Daddy Long Legs”, de 1919. “M’Liss” não goza da mesma notoriedade, mas está longe de ser um filme menor.

Também dos Estados Unidos vem “Don Q, Son of Zorro”, dirigido por Donald Crisp e protagonizado por Douglas Fairbanks. O filme, lançado em 1925, é uma prolongação de “A Marca do Zorro”, que Fred Niblo dirigiu para o mesmo Fairbanks em 1920. Uma prolongação pouco inspirada, que parece ter sido realizada uns sete anos antes. Vale pelo grande ator, cá contracenando com Mary Astor.

Crisp foi um diretor de muitos filmes nos anos 1920, incluindo o magnífico “Navegador por Incúria”, feito ao lado de Buster Keaton. Não conseguiu se harmonizar ao sonoro. Por sorte, sua curso de ator era muito sólida e continuou assim até os anos 1960.

Da Suécia, a Jornada exibe “A Família Gyurkovics”, lançado em 1920 e assinado por John W. Brunius. O filme vale sobretudo por trazer Gösta Ekman, um dos atores mais amados do cinema e do teatro suecos, anos antes de protagonizar “Fausto”, 1926, do grande F.W. Murnau.

Ekman, que não deve ser confundido com seu neto Gösta Ekman, também ator, lendário a partir dos anos 1960, colabora também no roteiro desta comédia dramática sobre uma numerosa família, seus problemas e as aventuras dos filhos mais velhos. Além da força do ator, vale lembrar que o cinema sueco era um dos mais respeitados da estação.

O cinema italiano já não era, nos anos 1920, a potência que foi nos anos 1910, mas “O Histrião”, realizado em 1924 por Mario Almirante, é imperdível, ao menos pela presença da carismática atriz Italia Almirante Manzini, prima do diretor, que veio ao Brasil nos anos 1930, falecendo em São Paulo em 1941.

A cena da infestação de ratos, com um gato pulando em cima deles para aniquilá-los, diante da alegria dos convidados, vale a sessão. E o filme ainda ilustra muito a teoria —de Henri Langlois— de que os cineastas italianos aprendiam a filmar frequentando museus.

Tão obrigatório quanto “O Histrião” é o germânico “Genuine”, de 1920, menos por sua qualidade, subalterno à do filme italiano, do que por sua prestígio. É o terceiro filme mais espargido de Robert Wiene, diretor que havia feito história, meses antes, com “O Gabinete do Dr. Caligari” e voltará a impressionar com “As Mãos de Orlac”, de 1924.

O “caligarismo” continua de maneira um pouco mais tímida, em algumas sequências de cenário estilizado em linhas diagonais. “Genuine” não é desprezível, mas não tem mais a força da novidade, sendo, em certa medida, um filme derivativo.

A jornada ainda exibe o vasqueiro “A Igreja do Diabo”, de 1919. É o único filme dirigido pelo ator germânico Hans Mierendorff e representa o início de um período de vantagem do cinema germânico, só interrompido pela subida do nazismo em 1933.

Folha

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