Escolas deveriam ensinar como converter tristezas em humor – 15/06/2026 – João Pereira Coutinho
Todos temos nossos momentos de megalomania. Eu não sou exceção: se mandasse no mundo, todos os alunos, dos seis aos 18 anos, teriam de frequentar uma lição extra na escola. Além de matemática, ciências ou da língua materna, haveria “stand-up comedy” porquê disciplina obrigatória.
As vantagens são tão óbvias que chega a ser constrangedor citá-las. Entre as mais imediatas: crédito pessoal para falar em público, destreza verbal para se falar com os outros —e, sobretudo, treino contínuo para transformar as tristezas da vida em material humorístico.
Zero escaparia: a família, os amigos, os amores. As frustrações, os medos, as falsas esperanças. Quando não conseguimos nos livrar dos esqueletos que temos no armário, disse George Bernard Shaw, o melhor é ensiná-los a dançar. Ou a rir, acrescento eu.
Em uma ou duas gerações, aposto que teríamos adultos menos neuróticos, menos fanáticos, menos propensos a cancelar os outros. A estupidez é mana gêmea da falsa seriedade.
Foi nisso que pensei quando assistia, grato e maravilhado, ao filme “Isso Ainda Está de Pé?”, dirigido por Bradley Cooper. Porquê foi que o filme me escapou quando passou nos cinemas?
No núcleo da história estão Alex e Tess —notáveis Will Arnett e Laura Dern—, separados depois de 26 anos de vida em geral. As razões da separação são um mistério —para nós e para o próprio Alex. Uma noite, não exatamente sóbrio, Alex resolve entrar em um clube de comédia em Novidade York. Não para presenciar. Para subir ao palco. Essa é a primeira piada.
A segunda é que ele não tem piadas para narrar, o que também não deixa de ser uma ilusão: a vida dele é a melhor piada que existe.
O público ri da estranheza. Depois, das histórias que ele conta —o matrimónio, os filhos, os pais. Alex ri também, porquê se as ouvisse pela primeira vez, agora sob um ângulo cômico.
A experiência é viciante. Ele volta uma noite, depois outra, e mais outra ainda. É um péssimo humorista, dizem os profissionais, embora elogiem sua ingenuidade.
A ex-mulher, por puro eventualidade, assiste a um dos números. E também ela se ouve porquê personagem principal. Expor que gosta seria um excesso, mas não é que gosta mesmo?
A infelicidade em que Alex vive não desaparece. De certa forma, transforma-se em nitidez e perdão. E, com essa novidade perspetiva, a pergunta fundamental: ele é infeliz com o matrimónio ou infeliz no matrimónio? Uma diferença sutil, que geralmente escapa aos amantes desencontrados.
Não escapa a Alex: a capacidade irônica que ele teve de trespassar de si mesmo, de se olhar porquê objeto de riso e estudo, permitiu-lhe chegar às coisas realmente sérias.
Porquê lembrava o plumitivo Martin Amis, só podemos saber o que é sério quando conhecemos também o que é engraçado. O humor não é uma fuga à seriedade, mas um caminho até ela.
Pessoas sem humor não são, por definição, mais sérias. São literais, condenadas a viver na superfície das coisas —onde tudo parece urgente e zero é verdadeiramente importante.
Revinda ao início: todos temos nossos momentos de megalomania. Se eu mandasse no mundo, haveria “stand-up comedy” no currículo das escolas. Quando tornamos as nossas dores visíveis e ridículas, elas ficam finalmente ao nosso alcance.
P.S.: É uma triste ironia saber que, nos 250 anos da independência dos Estados Unidos, o historiador Gordon S. Wood não estará entre os vivos para festejar. Morto recentemente, aos 92 anos, vítima de um acidente de trânsito, Gordon Wood foi um dos grandes intérpretes do promanação da república americana.
Suas obras centrais, porquê “The Radicalism of the American Revolution”, vencedor do Pulitzer, são uma refutação cintilante da teoria de que 1776 foi uma mera rebelião de ingleses contra ingleses por culpa de impostos —o célebre bordão “no taxation without representation”.
Na verdade, a independência foi o desfecho de um longo processo de emancipação das colônias, sustentado pelo prolongamento demográfico, pelo enriquecimento mercantil e pelo aprofundamento de ideias liberais que, ironicamente, os colonos aprenderam com os próprios ingleses da metrópole.
A independência não foi perfeita? Evidente que não —a manutenção da escravidão é sua principal mancha. Mas também cá Wood lembrou o óbvio: a novidade gramática liberal inaugurou uma linguagem de emancipação que, nos séculos seguintes, seria mobilizada contra os seus próprios limites.
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