Um sigilo guardado durante 25 anos movimenta o reencontro de dois homens, em um apartamento de Buenos Aires, na peça “Visitante a Habitação”, que faz temporada no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo. De forma inesperada, os ex-namorados ficam frente a frente, lembram momentos da juventude e precisam mourejar com o motivo que causou a separação.
Tem a ver com homofobia e repressão em uma Argentina ainda contaminada pela ditadura militar no final do século pretérito, período em que o jovem parelha tem o paixão interrompido. Os personagens são interpretados pelo prateado Juan Tellategui e pelo brasiliano Cícero de Andrade, com direção compartilhada entre Zé Guilherme Bueno e Miguel Arcanjo Prado.
O texto original, “Tu Hipocampo y Mi Caballito de Mar”, do prateado Alberto Romero, ganhou adaptação dramatúrgica de Arcanjo, marcando a estreia do jornalista especializado em teatro na geração de um espetáculo para os palcos.
O espetáculo estreou no mês em que se celebra o Dia Internacional contra a LGBTFobia. Em 17 de maio de 1990, a OMS (Organização Mundial da Saúde) retirou oficialmente a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças. A montagem também chega às vésperas da 30ª Paragem do Orgulho LGBT+, marcada para 7 de junho, na avenida Paulista, em São Paulo.
O preconceito, no entanto, ainda é uma veras. O Atlas da Violência, produzido pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e pelo Fórum Brasílio de Segurança Pública, mostra que o número de registros de violência contra pessoas LGBTQIA+ no Brasil cresceu 1.227% de 2014 para 2023. Eram 1.157 casos no primeiro ano observado, saltando para 15.360 no último.
“Quando nos deslocamos das capitais, vemos que ainda é muito presente a violência familiar, os adolescentes sendo expulsos de lar, a violência psicológica”, diz Tellategui, que comemora 30 anos de curso artística, 15 deles no Brasil.
Arcanjo optou por manter a encenação em Buenos Aires, em saudação à nacionalidade do responsável. “Ele é um dos poucos atores argentinos que construiu uma curso no Brasil, portanto faço esse diálogo entre os dois países pela própria presença dele cá”.
É uma presença que carrega vivências sobre o cinema, os palcos e a TV argentina. O apartamento do cenário, por exemplo, fica na Corrientes, a avenida dos teatros em Buenos Aires. Em pleno núcleo portenho, Gabo (Tellategui) e Fernando (Andrade) fazem um acerto de contas marcado pela persuasão de que o paixão sobrevive à intervalo e ao tempo pretérito.
Em uma homenagem às novelas latino-americanas, há drama, conflitos, romance e comédia em uma história em que os fatos vêm à tona aos poucos, em uma espécie de parábola da teledramaturgia proposta pelo diretor Zé Guilherme. A intenção, diz, é deixar o público grudado na cadeira e pensando: “Meu Deus, que história”.
“Será que é uma romance ou não é? Acho que isso é o lícito do teatro: cada um pensar o que quiser. E isso, de alguma maneira, também vem porquê sugestão na dramaturgia do Alberto”.
Andrade vê em seu personagem uma tentativa de entender o pretérito por meio de um diálogo intenso entre dois homens, uma situação que ainda não é corriqueira nas encenações de histórias de paixão.
“É uma relação tão formosa e tão enxurro de possibilidades porquê a de um parelha heteronormativo”, afirma. O relacionamento entre Gabo e Fernando não é fundamentado exclusivamente na atração sexual, mas também no afeto e no companheirismo interrompido quando a vida a dois exclusivamente começava. O drama da dupla é não ter podido viver a própria história.
“Muitas pessoas da comunidade LGBTQIA+ não tiveram a chance de viver um primeiro paixão em sua mocidade. Os personagens Gabo e Fernando se arriscaram e hoje, 25 anos depois, ganham a oportunidade de fechar ou reabrir essa primeira história que ficou inconclusa”, diz o responsável.
Além de “Visitante a Habitação”, outras peças em edital na capital paulista abordam os relacionamentos homoafetivos. É o caso de “Chez Toi – Em Seu Lugar”. No espetáculo, em edital no Teatro Nair Bello, Abigail (Bárbara Bruno) vive afastada da filha Emily (Bianca Rinaldi) por razão do romance com Laura (Viviane Figueiredo), uma pianista morta há 20 anos.
Apresentada no Sesc Ipiranga, “Anywhere” é inspirada em relatos de refugiados e imigrantes LGBTQIA+ e acompanha um varão retido em um aeroporto à espera de um documento. Em “Clô, pra Sempre”, no Teatro Mooca, Eduardo Martini retoma o sucesso da tradução do estilista e apresentador Clodovil Hernandes, com suas conquistas e dores.





