É muito lítico racontar as façanhas de montanhistas, trilheiros, voadores e praticantes das mais diversas modalidades de esportes de façanha. Era sobre um tanto assim, um tanto lítico, que eu tinha me programado para ortografar neste cantinho que me cabe semanalmente. Só que não é zero lítico passar derrotado por mais uma morte uma vez que a da jovem Maria Eduarda Rodrigues de Freitas, arremessada de uma ponte abandonada na região de Limeira, no interno de São Paulo, e morta aos 21 anos pela irresponsabilidade, a inaptidão e/ou a desatenção de uns cidadãos que vendiam a promessa de adrenalina a 40 metros de fundura, e que esqueceram do mais indispensável do indispensável: prender a corda ao corpo da rapariga antes de jogá-la ao vazio.
Assuntos legais que me perdoem, mas não vai ser esta pilar que vai ignorar a morte de Maria Eduarda.
Porque o pior é que casos absurdos uma vez que o de Maria Eduarda acontecem praticamente todo termo de semana, com resultados que vão de simples escoriações a ferimentos graves e, sim, mortes. A temporada de montanhismo provoca crises de impaciência em cada batalhão de bombeiros das imediações das belas paisagens que muitos querem gozar e que, infelizmente, tantos enfrentam sem a menor informação ou a mínima e devidíssima orientação. Não há um final de semana desta épocado ano em que não ocorra ao menos um resgate em alguma bela vista que, de sonho, vira pesadelo ou estatística.
Alguns desses casos ganham as redes sociais e, com elas, a mídia, principalmente se geraram imagens impressionantes uma vez que o voo irremissível de Maria Eduarda. À sua divulgação, despertam-se debates inflamados e, em universal, desinformados que começam no obsceno “ela procurou” e vão até a mais obsceno ainda divulgação de fotos do corpo montanhoso —sim, até isso a gente recebe por cá, para desespero dos estômagos mais sensíveis. A morbidez humana não tem limites.
Muitos dos casos, porém, e dá pra expressar que é a maioria das estatísticas, por ninguém ter se lembrado ou tido tempo de filmar ou fotografar o momento do evento, mal alcançam os grupos de WhatsApp e Telegram especializados nos esportes de façanha. Neles, também, as posições se dividem: para muitos, a divulgação desse tipo de imagem compromete o negócio de todo o segmento de, em universal, pequenos empresários. A maioria, infelizmente, informais e exercendo suas atividades ao calafrio das normas, que vivem de vender justamente o gostinho da ousadia, do indiferente na espinha, da imagem colorida que vai subir, simples, às tais redes.
É uma vez que se, varrendo a sujeira para debaixo do tapete do olhar público, a lambança pudesse seguir livre e solta para atrapar o próximo incauto.
Mas, atenção: é importante deixar simples que nenhum leigo é obrigado a saber de todos os riscos, nem dos procedimentos que devem ser tomados, muito menos checar o CNPJ e a capivara dos que estão contratando porque viram no perfil do amiguinho ou, pior, do influencer de plantão, belas imagens de quem deu sorte. A ponte não estava escondida em qualquer ponto remoto da floresta amazônica, mas numa região densamente habitada do interno do estado mais rico da União. À vista de quem quisesse enxergar os muitos clientes que buscavam irregularmente a atividade a cada final de semana.
Se Maria Eduarda caiu de uma ponte que não devia estar lá, por levar do zero a lugar nenhum; se a ponte é do governo federalista, municipal ou venusiano; se os que cometeram o ato bárbaro eram mais ou menos experientes, mais ou menos habilitados ou irresponsáveis aventureiros que assumiram o risco de matar; se já tinham vendido o serviço para dezenas de pessoas que viveram para racontar —zero disso elimina o fator indispensável que está presente em praticamente todas as ocorrências dos esportes de façanha: de zero adianta expressar que um tanto não pode ser feito assim ou assado, que cá ou lá não pode isto ou aquilo, se não houver uma fiscalização rigorosa que iniba ao sumo o que, em si, sempre vai ser uma atividade de risco, e é bom que isso fique simples.
Não se trata, entretanto, de buscar a solução simplória de culpar o sofá pela traição e jogar o traste pela janela, defendendo a proibição do rope jump, ou do base jump, ou de qualquer outro esporte de façanha, que gera renda e atrai um turista diferenciado. Se trata, isso sim, de testificar que alguém (e não vai ser o cliente) vai se confirmar de que quem oferece qualquer serviço está minimamente legalizado, habilitado e com capacidade de fundamentar que segue todos os procedimentos de segurança que as normas preveem. Descobrir que expressar a jornalistas que está proibindo a prática disto ou daquilo, cá ou lá, e que com isso vai evitar novos problemas é tapar o sol com uma tamis daquelas muito grossas e tentar cegar a opinião pública. Pior: permitir que outras Marias Eduardas virem manchetes sensacionalistas.
À família, meus sentimentos.
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