Maria Bethânia, aos 80, é radical de seu próprio movimento – 17/06/2026 – Ilustrada
Pés descalços, cabelos esvoaçantes, gestos dramáticos, uma cena em que música, trova e devoção se confundem. Poucos artistas brasileiros construíram uma iconografia tão imediatamente reconhecível quanto Maria Bethânia.
Aos 80 anos, a serem completados neste 18 de junho, e em seguida seis décadas de curso, Bethânia permanece uma figura único da cultura brasileira —não unicamente pela presença que criou nos palcos, mas pela forma porquê conduziu sua trajetória.
Ao longo desse período, atravessou movimentos, modismos e transformações da indústria músico sem perfurar mão dos próprios critérios. Se pertenceu a qualquer movimento artístico, foi àquele que ela mesma criou.
E, hoje, está longe de ocupar unicamente o lugar de patrimônio cultural. Incansável, segue em atividade e figura entre artistas brasileiros cujos novos projetos ainda mobilizam atenção imediata.
Nos últimos anos, protagonizou, ao lado do irmão, Caetano Veloso, uma das turnês por estádios mais celebradas do país. Depois, em 2025, marcou seus 60 anos de curso com um show privativo e, no mês pretérito, subiu ao palco ao lado de Shakira, cantando para uma praia de Copacabana lotada.
Esse sucesso é revérbero de uma individualidade gestada desde os anos 1960. Enquanto Caetano, Gilberto Gil e outros jovens artistas de Salvador mergulhavam nas descobertas da bossa novidade, Bethânia já seguia outra direção.
Uma vez que registra o livro “Maria Bethânia, Primeiros Anos – Da Cena Cultural Baiana ao Teatro Músico Brasiliano”, ela admirava João Gilberto, mas não desejava aderir ao seu estilo. Preferia a trouxa emocional dos velhos sambas e sambas-canção de Noel Rosa, Batatinha e Antônio Maria.
Ao incorporar essa dramaticidade, Bethânia nunca foi unicamente cantora. Sempre levou para a música elementos do teatro, da trova e do ritual. Seus espetáculos se transformaram em experiências cênicas nas quais a vocábulo tem o mesmo peso da melodia.
Não por casualidade, tornou-se uma grande divulgadora da literatura em português, apresentando ao grande público textos de Fernando Pessoa, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Guimarães Rosa, entre outros.
Ou por outra, sempre deixou evidente porquê sua espiritualidade ditava sua arte. Criada na devoção católica de sua mãe, Dona Canô, e sendo filha de Iansã no candomblé, Bethânia fez do sincretismo uma das forças de sua obra, unindo santos e orixás, sagrado e secular.
Foi por meio do teatro que Bethânia ganhou projeção pátrio em 1965, ao substituir Nara Leão no espetáculo “Opinião”. A tradução de “Carcará” fez dela símbolo de resistência nos primeiros anos da ditadura militar. Mas o rótulo de cantora de protesto logo passou a incomodá-la.
Para não ser reduzida àquela imagem, evitou interpretar “Carcará” por anos. Voltou a trovar Noel, gravou canções de paixão e ampliou o repertório.
A mesma postura reapareceria com o tropicalismo, ao qual nunca aderiu completamente. Em seu livro “Verdade Tropical”, Caetano descreve o “individualismo feroz” da mana e sua resistência a qualquer forma de comprometimento coletivo. Segundo ele, Bethânia compreendia as ideias tropicalistas, mas defendia “a sangue e queimada sua individualidade”.
A própria cantora resumiu essa posição de forma ainda mais direta no documentário “Doces Bárbaros”, que revisita a turnê realizada em 1976 por ela, Caetano, Gilberto Gil e Gal Costa. Ao ser questionada sobre sua identificação com qualquer gênero ou movimento, respondeu: “Nenhum. Sou meio à margem. Eu prefiro ser leal a mim.”
A lógica se estende à relação com a indústria músico. Bethânia sempre cultivou notabilidade de inflexível. Canta o que quer trovar. Grava o que considera digno de seu repertório. Monta espetáculos segundo seus próprios padrões. Quem trabalha com ela costuma se harmonizar ao seu universo, e não o contrário.
O resultado é uma obra construída segundo parâmetros muito particulares. Mesmo quando alcançou enorme sucesso —porquê “Álibi”, de 1978, com mais de 1 milhão de cópias vendidas, com hits porquê “Sonho Meu”, “Explode Coração” e “Olhos nos Olhos”— Bethânia não alterou sua bússola artística para aprazer ao mercado.
Nas décadas seguintes, seguiu aprofundando esse projeto autoral. Discos porquê “Mel” (1979) consolidaram uma tradutor interessada tanto na cantiga popular quanto na construção teatral dos espetáculos.
Já trabalhos porquê “As Canções que Você Fez para Mim” (1993), devotado ao repertório de Roberto e Erasmo Carlos, e “Brasileirinho” (2003), mergulho nos clássicos do cancioneiro pátrio, demonstraram sua versatilidade. Mais recentemente, álbuns porquê “Meus Quintais” (2014) e “Noturno” (2021) reafirmaram a centralidade da trova na sua obra.
A resguardo da própria liberdade em seu trabalho também alimentou a notabilidade de artista exigente —e às vezes temida— que a acompanha há décadas. São conhecidos os episódios em que interrompeu apresentações para reclamar do som, emendar falhas técnicas ou cobrar mais atenção da equipe.
No documentário “Maria – Ninguém Sabe Quem Sou Eu”, de 2022, porém, ela oferece outra leitura para esse comportamento. “Eu sou infernalmente ligada em mim. Ou seja, eu não me dou sossego. Me vigio o tempo todo”, afirma.
Em outro momento, explica que precisa de pessoas capazes de compreender sua maneira de trabalhar. “Não acho que sei fazer tudo porque não sei mesmo. Mas eu preciso de toda sabedoria ao meu volta, gente inteligente, gente sensível, gente que compreenda essa minha ‘empáfia’ de escolhas e maneiras. Compreenda e que isso vire uma coisa corriqueiro, igual a tomar um copo d’chuva.”
Mais de seis décadas em seguida sua estreia, enfim, Bethânia continua sendo uma artista dos quais próximo movimento ainda desperta curiosidade e expectativa. Assim, segue contemporânea aos 80 anos porque ela é o seu próprio estilo.





