Estudo prova pioneirismo de Hercule Florence na fotografia – 16/09/2026 – Ilustrada
Hercule Florence, morto já há quase um século e meio, nunca esteve tão perto do maior canhão de luz a iluminar sua obra. O artista nascido na França, de nacionalidade monegasca com raízes também na Itália antes mesmo da unificação do país, construiu toda a sua obra no interno paulista, onde, entre muitas outras coisas, inventou a retrato.
Esse é um oferecido disputado, atravessado por debates de um tecnicismo duríssimo de entender para leigos, e tensões geopolíticas, em que países disputam para seus cidadãos o lampejo inicial que revolucionou para sempre a forma de vermos e retratarmos o mundo. O oferecido não disputado é que Florence foi mesmo o primeiro a usar a termo “retrato” para descrever o que estava tentando fazer, uma sensação com zero mais do que a luz.
Nesta semana, um time que reúne secção dos herdeiros do artista —ele teve 20 filhos em dois casamentos—, o gerente do departamento de retrato do Instituto Moreira Salles e um pesquisador do Getty, organização americana de ponta na preservação da imagem fotográfica, apresentam em Oslo, durante um encontro mundial do Juízo Internacional de Museus, o mais respeitado fórum de discussões de uma natureza nem sempre palpitante, os resultados de anos de pesquisas realizadas em Portugal e nos Estados Unidos que enfim comprovam que as imagens criadas pelo artista ainda no início do século 19 são, sim, fotografias, ou objetos fotográficos, no jargão do meio.
Isso faz com que, na cronologia, ele venha depois do gálico Joseph Nicéphore Niépce, responsável de uma imagem também considerada porquê tal, há exatos dois séculos, mas esteja primeiro de outros pioneiros, porquê o britânico William Henry Fox Talbot, que só viria a fixar uma imagem anos depois, e do também gálico Louis Daguerre, inventor do daguerreótipo, que foi se popularizar porquê equipamento de produção fotográfica só no término daquela dezena.
“É um ‘turning point’, porque é um resultado científico”, diz Antonio Florence, tetraneto do artista e presidente do instituto que o representa, lembrando a base que sustenta uma série de novas descobertas. Iluminado por um neon azul com os traços do “Grito” de Edvard Munch no bar de um hotel na capital norueguesa, ele fala da constatação, há três anos, pelo laboratório Hércules, em Évora, no interno português. Não, não há qualquer relação entre o nome do artista e o da instituição, só coincidência feliz. “Esses são os objetos fotográficos mais antigos visíveis a olho nu. Ele foi o primeiro a fixar uma imagem usando nitrato de prata e cloreto de ouro.”
O pulo do gato pode estar aí, se quisermos ser técnicos —e eles querem. Niépce, em 1826, sete anos antes de Florence, fixou uma imagem usando um corante derivado do petróleo divulgado porquê betume da Judeia, que leva muito mais tempo para dar contornos nítidos àquilo que foi retratado e sobrevive só por milagre. Sua imagem da silhueta de dois casarões vista de seu ateliê em Le Gras, na França, levou um dia inteiro para eclodir. Ela é hoje conservada num tanque sem oxigênio e sob luz controlada num museu de Austin, nos Estados Unidos.
Por não se mexerem, as construções vistas da janela são um clássico desse tipo de experimento nos primórdios da retrato. Em janeiro de 1833, alguns anos e milhares de quilômetros de intervalo de Niépce, Hercule Florence anotou em seu quotidiano, num gálico de letras cursivas com a elegância sofrida de um eletrocardiograma a mostrar milénio batimentos por minuto, alguns experimentos felizes.
Da câmera rudimentar que ele construiu com uma caixinha, uma paleta de pintor, a lente de binóculos de ópera e um espelho, surgiu a imagem reconhecível das casas do outro lado da rua, aparição fantasmagórica que levou quatro horas para se formar no papel, com as cores branca e preta invertidas e as posições dos sobrados ao contrário, até tudo sumir sem ele saber porquê fixar a imagem com a química da estação.
O que os pesquisadores portugueses e americanos agora tentam provar é que, meses depois do experimento com o casario fantasma, Florence aprenderia a mexer com nitrato de prata e cloreto de ouro para preservar suas imagens no papel, o que faria dele o pioneiro inquestionável do padrão que se firmou na produção fotográfica pelas décadas que vieram depois.
Em outubro daquele mesmo ano, Florence voltou a seu quotidiano para relatar o que chamou de sua invenção da “retrato ou sensação com a luz”. Isso foi anos antes de o britânico John Herschel falar em “photography” e ser reconhecido por isso, um motivo de grande logro para Florence nos trópicos distantes do meio do mundo.
O que o artista radicado no Brasil conseguiu perpetuar a duras penas no papel fotográfico, porém, não poderia ser mais ordinário, coisa dessas ironias da história das revoluções tecnológicas na arte. São modelos para a sensação de rótulos de remédios para a farmácia do sogro e os floreios em torno do que serviria porquê layout de um diploma de maçom —o sogro era da maçonaria também.
Toda a química que ele descobriu a princípio funcionava para produzir belas molduras para um zero vazio. Enquanto obra, não passa de um pouco com caráter utilitário. Enquanto passo para um novo momento do que entendemos porquê geração de imagens, é um escândalo, o palco cândido para todo o teatro que seria encenado ali no horizonte próximo até a invenção do cinema e dos nossos vídeos bobos de hoje nas redes sociais. Sergio Burgi, do Instituto Moreira Salles, aliás, compara a invenção à geração do iPad de Steve Jobs, na Apple.
Num aviso nos seus muitos manuscritos, Florence mostrava sua atenção à fragilidade do processo nascente e alertava que era importante manter essas impressões longe da umidade, do calor intenso e do contato com ácidos e sais, lembrando que a luz do dia faz descolorir o papel e o que o melhor era vigiar tudo dentro de um livro ou de uma gaveta. Foi o que ele fez —as três imagens fotográficas sobreviventes daquele 1833 tão distante chegaram até nós porque estavam no meio das páginas dos manuscritos da autobiografia do artista, um volume que atravessou décadas intocado pela luz solar.
Essas peças, duas delas do Instituto Moreira Salles e uma do Instituto Hercule Florence, passaram por estudo minucioso em Portugal, com equipamentos capazes de identificar porquê os agentes químicos na sensação reagiram à luz desde o início e, portanto, de provar que as reações orquestradas pelo artista naquela superfície de trajo são as responsáveis pelo surgimento e pela fixação da imagem.
Enquanto isso, outro estudo ainda em curso no Getty, em Los Angeles, procura recriar as mesmas imagens usando os métodos da estação e apressar o envelhecimento delas de modo sintético, para confrontar os resultados com a natureza dos exemplares históricos. Essa seria uma espécie de prova definitiva e inconteste do pioneirismo de Florence, mas os especialistas dizem que não há uma receita de bolo a ser seguida e lacunas no processo do artista, ou linhas faltantes em seus manuscritos em grande secção ultradetalhados, dificultam o processo.
Os esforços vão muito além, dizem os especialistas, de uma disputa geopolítica na risca que também já se travou na história sobre a invenção do avião, que opõe Santos Dumont aos irmãos americanos Orville Wright e Wilbur Wright. Burgi diz que os novos estudos servem para desfazer uma narrativa eurocêntrica que opunha as metrópoles imperialistas e suas colônias, mostrando que o desenvolvimento de certas vanguardas nos trópicos acompanhava as pesquisas na Europa e nos Estados Unidos.
Num dos pontos mais ao setentrião do planeta, ele quer provocar uma novidade reflexão sobre as relações entre o setentrião e o sul globais pelas lentes de um cidadão do mundo. “Queremos ampliar a compreensão daquele momento em que havia, em todas as partes, um processo atomizado por trás do libido e da vontade de pôr uma retrato no papel.”





