Na última sexta os EUA proibiram o uso do protótipo de IA mais poderoso da Anthropic por “estrangeiros”. Você não leu inverídico. O critério da proibição é nacionalidade, alguma coisa inédito nesse contexto. Mesmo quem mora nos EUA mas não tem cidadania está proibido de usar o protótipo. Estão banidos também os próprios funcionários estrangeiros da empresa.
Dada a impossibilidade de satisfazer uma ordem assim, já que não é fácil prescrever a cidadania de cada usuário, a Anthropic decidiu suspender o entrada do seu protótipo mais avançado para todo mundo, indiscriminadamente.
A decisão de Washington acendeu um alerta global. E de quebra mostrou o que “soberania tecnológica” significa na prática (já volto a isso).
As empresas do setor de IA gostam de proferir que a perceptibilidade sintético é a “novidade eletricidade”: a novidade infraestrutura em cima da qual pessoas, organizações e países vão erigir suas atividades, fluxos de trabalho, estudo e até a gestão de serviços públicos. Só que os EUA não têm o poder de trinchar a eletricidade de “estrangeiros”. Com a IA esse poder não só existe uma vez que acaba de ser usado.
A consequência é que pessoas, organizações e países vão precisar pensar muitas vezes antes de erigir em cima de uma IA que pode ser suspensa. Usar perceptibilidade sintético requer investimento, tempo, capacitação. Zero disso se justifica se a plataforma pode deixar de funcionar a qualquer momento de forma repentina, mesmo que você dependa dela.
A proibição dos EUA repercutiu fortemente na China. Lá a ação foi chamada de “qiabozi” (卡脖子), que em mandarim significa “estrangular o pescoço”. O termo foi usado em sentido duplo: a confirmação de que depender das IAs americanas implicaria o risco de ser estrangulado a qualquer momento. E a constatação de que a estratégia chinesa de apostar em modelos locais estava certa.
Se a geopolítica continuar interferindo na tecnologia uma vez que aconteceu desta vez, vai ser necessário pensar soberania do dedo em quatro níveis. O primeiro, mais rudimentar, é ter controle lugar sobre os dados no país. O segundo é ter independência na prisão de software, auditando e mitigando a possibilidade de interferências externas. O terceiro é exigir que a infraestrutura de hardware e software seja controlada por cidadãos do próprio país. E o quarto, é ser capaz de desenvolver de forma autônoma sua própria tecnologia, incluindo modelos de perceptibilidade sintético.
Não tirei esses níveis da minha cabeça. Essa é a classificação que a Percentagem Europeia lançou no último dia 3 de junho no seu “Pacote de Soberania Tecnológica”. Dadas as circunstâncias, esse sim é um protótipo europeu que o Brasil poderia almejar.
Nosso país copiou a Europa para fazer sua lei de IA, em tramitação no Congresso. Mas copiou a Europa de 2019. De lá para cá a lei europeia de IA foi drasticamente simplificada. Os europeus perceberam que regulação divorciada de política industrial tem uma vez que consequência exclusivamente atrasar as capacidades locais e gerar ainda mais obediência externa.
E vale lembrar que o Brasil não alcança sequer o nível 1. Hoje, 60% da trouxa do dedo do país está hospedada em datacenters no estado da Virgínia nos EUA. Isso inclui sites, aplicativos, negócio eletrônico, operações bancárias, Pix e até serviços públicos uma vez que o SUS. As possibilidades de “qiabozi” são enormes.
E em perceptibilidade sintético, o principal projeto público para desenvolver um protótipo de IA lugar e soberano foi feito no Piauí, o “SoberanIA.ai”. Estive em Teresina nesta semana e lá ouvi o seguinte vaticínio: “o Ministério da Resguardo ainda vai precisar do SoberanIA”. Talvez esse momento chegue antes do que imaginamos.
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