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Pillion: Filmes independentes penam para chegar ao Brasil – 14/06/2026 – Ilustrada

Um mês em seguida as filmagens de “Pillion”, em 2024, os direitos de distribuição deste romance BDSM entre um motoqueiro durão e um jovem tímido já estavam nas mãos da A24. Em maio do ano pretérito, o longa com Alexander Skarsgard chamou a atenção no Festival de Cannes, levou o prêmio de melhor roteiro na mostra Um Manifesto Olhar e chegou aos cinemas americanos em fevereiro deste ano.

Foi nesta idade que a Diamond Films anunciou a estreia brasileira para abril. De lá para cá, o filme foi diferido duas vezes, a última para 21 de maio, até sumir do calendário vernáculo.

Na bolha cinéfila das redes, as mudanças causaram estranhamento, com sugestões de que o título cortará custos de divulgação e irá direto ao streaming. Mas Vinícius Pagin, diretor da Diamond, maior distribuidora independente da América Latina, diz que o fado de “Pillion” segue indefinido.

O filme de Harry Lighton é somente um, dentre vários filmes, estrangeiros e nacionais, que sofrem esse vai e vem para chegar ao rodeio vernáculo, num jogo multíplice que envolve estratégias financeiras, calendários de festivais, premiações e a consolidação do Brasil uma vez que polo de atração mundial.

Outro filme da Diamond tomou a última data prevista para “Pillion”. O terror “Hokum”, lançado em 1º de maio nos Estados Unidos, antes de hits uma vez que “Preocupação”, estava previsto para chegar um dia antes no Brasil, mas foi empurrado para o dia 21 por blockbusters uma vez que “Michael” e “O Diabo Veste Prada 2”, que dominaram as salas no final de abril.

Aliás, nesse meio-tempo, “Pillion” chegou ao catálogo da HBO Max dos Estados Unidos —e, consequentemente, à pirataria.

“Lançamos quase 30 filmes por ano, que afetam uns aos outros”, diz Pagin. “Cinemas dão conta de longas independentes, blockbusters e títulos já em edital. Lançar dois filmes juntos é um suicídio econômico.”

No Brasil, a maioria dos filmes tem suas sessões definidas na semana de estreia, em seguida exibições especiais para representantes de cinemas. Uma exceção são blockbusters aguardados, lançados por seus próprios estúdios, com sessões marcadas com maior antecedência e pré-venda de ingressos.

Nos demais casos, os cinemas analisam as obras e indicam o que querem ou não exibir. Assim, cabe às distribuidoras determinar o retorno e, logo, manter ou propor novas datas.

Os exibidores —que bancam o aluguel das salas, projetores e taxas de sites de venda, entre outros custos— ganham mais da metade da bilheteria inicial. A fatia para os donos de cinemas aumenta a partir da segunda semana, conforme novos títulos disputam o público.

Distribuidoras colhem o restante e compensam a compra dos direitos de distribuição —um valor que, a depender do tamanho da produção, pode variar de centenas de milhares até milhões de dólares. Outros gastos incluem o marketing e a produção dos arquivos para as salas de projeção.

O processo ainda inclui impostos nacionais. É o caso do ISS, o Imposto Sobre Serviços, que afeta a venda de ingressos, e a Condecine-remessa —para obras estrangeiras, exige dos distribuidores 11% do que os investidores de fora recebem.

“O exibidor sinaliza cenários em que a data escolhida coincide com lançamentos que podem prejudicar outros”, diz Valdinei Strapasson, gerente de programação da Cinesystem, dona de 29 salas em São Paulo.

Já Adhemar Oliveira, possuinte do Espaço Petrobras, diz alocar mais títulos com menos sessões para cada um. Hoje, o cinema de rua tem três salas em atividade. Procurada, a Cinemark, rede internacional que tem mais de 150 salas na capital paulista, não respondeu à reportagem.

Nas redes sociais, usuários sugeriram que o detença de “Pillion” se devia à sua temática queer, e o compararam a outras produções do subgênero que demoraram a chegar ao Brasil. Uma delas é “A História do Som”, com Josh O’Connor e Paul Mescal.

Depois da estreia em Cannes, a Mubi lançou o filme nos Estados Unidos, em outubro do ano pretérito, enquanto ele era exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. À idade, a distribuição no Brasil era da Universal Pictures, mas o longa acabou deixando a empresa e chegou em fevereiro deste ano pela Imagem Filmes, de menor porte.

Strapasson, da Cinesystem, diz que critérios ideológicos não interferem na programação. “Toda produção é analisada sob a ótica dos planos de exibição, contanto que tenha classificação indicativa e autorização. Complexos voltados a filmes de arte costumam dar mais espaço a obras uma vez que ‘Pillion’ se comparados a locais frequentados principalmente por famílias.”

Já o premiado “O Olhar Misterioso do Flamingo” —sobre travestis acusadas de espalhar uma doença pelo olhar— passou pelo Festival do Rio e, depois, saltou de fevereiro para março no calendário de estreias.

Segundo o diretor de operações da Imovision, Luan Filippo Oldenbrock, o filme foi pensado para um rodeio menor no Brasil. A distribuidora é dona do cinema Suplente Cultural, que ajuda a alocar seus títulos.

Dados da Filial Vernáculo do Cinema, a Ancine, mostram que o longa, em 166 sessões, arrecadou no Brasil murado de R$ 20 milénio —ou US$ 4.000, menos de 10% dos quase US$ 70 milénio arrecadados globalmente. Orçado em US$ 3 milhões, o filme não prejudicou seus produtores graças à venda dos direitos de distribuição e verbas viabilizadas pela coprodução entre Chile, França, Alemanha, Espanha e Bélgica.

Já “Queens of the Dead”, também da Imovision, se saiu pior. O terror americano sobre drag queens que lutam contra zumbis custou US$ 2 milhões, teve boa recepção em festivais, mas arrecadou somente US$ 113 milénio. No Brasil, em 169 sessões, algumas na Cinesystem, arrematou somente o equivalente a US$ 2.000. “Ficou muito aquém da média de salas que filmes B costumam ter”, diz Oldenbrock.

“Pillion” é um caso privado, pois não passou por festivais brasileiros. Não faltaram chances —a Mostra de São Paulo e o MixBrasil, voltado à cultura LGBTQIA+, tentaram incluir o filme em suas seleções. Porquê estratégia, diz a Diamond, nenhum de seus lançamentos participou de eventos nacionais no ano pretérito.

Para o diretor do MixBrasil, André Fischer, filmes queer não enfrentam dificuldades de distribuição. Para ele, recentemente, distribuidoras têm se esquivado de festivais para evitar críticas negativas que eventualmente atrapalhem o lançamento mercantil de seus títulos.

Nesse sentido, a má recepção de “Alpha” —longa de Julia Ducournau que metaforiza a Aids—, no Festival de Cannes, em maio do ano pretérito, é um verosímil motivo para o filme só ter sido lançado por cá no início deste mês.

Outros profissionais consultados pela reportagem, porém, dizem que exibidores não acreditam que filmes sobre questões uma vez que gênero, raça e orientação sexual atraiam muito público no país.

A falta de indicações de “Pillion” ao Oscar também influenciou a Diamond. A expectativa era que o longa repetisse o efeito de “Conclave”, que estreou em fevereiro do ano pretérito no país e somou 23 milénio sessões, quatro meses em seguida a estreia americana.

Grandes estúdios seguem a mesma lógica, uma vez que mostra o oscarizado “Anora”. Originalmente previsto para 2024, a Universal adiou a estreia brasileira para 2025, em data ulterior ao pregão dos indicados. Por cá, o filme arrecadou quase US$ 35 milhões.

Agora, a Diamond enfrenta dilemas parecidos com “Fjord”, vencedor da última Palma de Ouro, e “I Love Rocky”, longa sobre Sylvester Stallone que chega aos Estados Unidos em novembro.

“Posso recorrer ao público que espera esses filmes e surfar no período anterior às indicações, ou frustrar o pessoal, talvez perdê-lo para a pirataria, mas projetar esses títulos com possíveis nomeações”, diz Pagin.

Desde a pandemia, a intervalo entre a estreia nos cinemas e o lançamento no streaming diminuiu. Lá fora, “Pillion” chegou ao aluguel um mês depois de lançado nas salas.

Falando de produções nacionais, “Ainda Estou Cá” e “O Agente Secreto” ficaram vários meses em edital antes de chegar ao streaming. No caso do filme com Wagner Moura, a produção criou expectativa em seguida ser premiado em Cannes, em maio do ano pretérito, saiu-se muito na estreia em novembro e foi ainda impulsionado pelas indicações ao Oscar e ao Mundo de Ouro.

Gerente de lançamento da Vitrine Filmes, que distribuiu o longa, Bernardo Lessa afirma que a falta de grandes adversários também pautou a escolha daquele mês.

Os dois trabalhos, porém, são uma exceção num mar de produções nacionais independentes que demoram a chegar ao rodeio e, quando chegam, são praticamente ignoradas.

Segundo dados da Comscore, quase 60% das semanas de 2025 tiveram cinco ou mais estreias nacionais. Mais da metade das duas centenas de filmes nacionais lançados, porém, não atraiu sequer milénio espectadores, de tratado com o Filme B.

Em paralelo, só neste ano, mais de 150 projetos foram aprovados pelo Edital de Comercialização em Cinema, que determina que os títulos sejam lançados dentro dos 12 meses seguintes.

Embora o público tenha desenvolvido desde a pandemia, outro duelo é a concentração de títulos nacionais em dias de semana e em horários pouco frequentados, antes das 17h.

Uma reportagem da Folha mostrou uma vez que “Zuzubalândia: O Filme”, uma animação de 2024, voltou às salas da Cinemark no ano pretérito e, até maio deste ano, teve milhares de sessões pela manhã, com média de 0,1 testemunha por exibição. A prioridade dada ao imagem serviu para satisfazer a Prestação de Tela, que obriga a suplente de secção da programação para obras nacionais, e evidenciou fragilidades da política pública.

“Precisamos incentivar a volta dos brasileiros às salas”, afirma Lessa. “Devemos investir na formação de plateia desde a escola, em ingressos populares, no entrada em cidades sem cinema. Sem público, não há uma vez que alocar a produção.”

Folha

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