A ex-chefe de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, Daniela da Silva, 39, tem um novo propósito: “Desfazer a tomada da internet pelas big techs”. O primeiro passo para isso é o lançamento de uma instrumento para proteger a identidade de funcionários que querem delatar violações.
“Eu trabalhei numa dessas empresas e sei que existem trabalhadores que também estão preocupados com o que está acontecendo”, afirma. Ela deixou a empresa depois o CEO da Meta, Mark Zuckerberg, anunciar, em janeiro do ano pretérito, a flexibilização de moderação e checagem de teor nas redes.
No próximo dia 10, Daniela anunciará a formação de uma entidade de direitos digitais chamada Ctrl+Z —referência ao comando do teclado usado para desfazer ações.
“Precisamos fazer com que as empresas de tecnologia tenham pavor das pessoas, não que as pessoas tenham pavor das empresas de tecnologia”, disse.
A ex-executiva recebeu a Folha em sua mansão. A única notificação que interrompeu a entrevista foi um silvo do brinquedo Tamagotchi, o pequeno monstro virtual que pertence à filha dela.
O que faz um profissional de políticas públicas?
Era uma função que se dava da porta para fora: eu fazia essa representação do resultado para o governo brasiliano. E também era da porta para dentro: cabia a mim informar meus colegas engenheiros, que estavam em qualquer lugar do mundo, a reverência do que estava acontecendo no contexto regulatório no Brasil.
Faz secção do trabalho de relações governamentais e políticas públicas de big techs ortografar projetos de lei e encaminhá-los a parlamentares?
Isso não fazia secção do trabalho que eu fazia porquê profissional de políticas públicas. Nunca entendi que o meu trabalho era passar trecho de projeto de lei para parlamentar no Brasil. Hoje, existem evidências que outros colegas fazem dissemelhante.
É generalidade?
Existem evidências públicas. Há uma material do Intercept sobre projetos de lei, em que o metadado do registo mostra o nome de um profissional de políticas públicas da Meta. E isso acontece em todos os setores, infelizmente, não só no setor de big tech. Eu nunca entendi esse porquê meu trabalho, e isso era uma tensão na empresa também.
Você anunciou sua saída da Meta logo depois Mark Zuckerberg anunciar o término do programa de checagem e flexibilizar as políticas de moderação. Pode explicar o que te incomodou à quadra?
Quando Mark Zuckerberg anunciou o final dos programas de checagem de notícia, dizendo que esses programas eram enviesados por natureza e não estavam contribuindo para a liberdade de sentença, ele pregava ali a teoria de uma volta ao pretérito, uma volta às origens do que a plataforma é: uma empresa fundada por engenheiros com uma teoria de neutralidade da tecnologia.
Ele dizia “vamos voltar mais para esse pretérito, menos mediação da nossa secção, para que haja mais liberdade de sentença”. Hoje, sabemos que esse é um léxico que vem de um campo político muito específico, que é um campo político de extrema direita. A fala dele não é neutra.
Para mim, foi uma guinada importante numa empresa que até logo tinha valores bastante liberais no ponto de vista de falar de direitos das mulheres, de falar de direitos de comunidade LGBTQIA+. Eu sentava num cantinho do escritório que tinha uma bandeira trans em cima da minha cadeira.
Uma vez que isso afetava seu trabalho?
Há uma fala do Mark Zuckerberg nesse vídeo que, para mim, é a pingo d’chuva mais representativa da mudança do que era a minha função naquela empresa.
É quando ele que vai se confederar ao governo de Donald Trump para impedir regulação nos países onde a Meta opera. Ele cita vários países do contexto global e cita a América Latina com uma menção a cortes secretas. Eu entendi aquilo porquê um recado muito direto para a minha equipe.
Eu senti que o trabalho de políticas públicas ia se fundar muito mais numa lógica de resistir a tendências regulatórias que já estavam postas. Eu não tenho nem expertise nem o objetivo de vida de ser uma bloqueadora de projeto de lei.
Pretérito um ano da sua saída do WhatsApp, decidiu se juntar com o legista Luã Cruz, ex-Idec (Instituto de Resguardo de Consumidores), e com a jornalista Tatiana Dias, ex-Intercept, para fundar uma organização a Ctrl+Z. Qual é o propósito desse movimento?
O Luã vem de uma instituição que eu sei que faz um trabalho que mexe o ponteiro nessa superfície de litigância estratégica. A Tatiana, que foi minha colega na faculdade, vem do Intercept. Entendemos que, juntando forças, poderíamos produzir uma iniciativa que atuasse, onde hoje existe um vácuo, de enfrentamento direto ao padrão de operação dessas empresas.
Precisamos fazer com que as empresas de tecnologia tenham pavor das pessoas, não que as pessoas tenham pavor das empresas de tecnologia.
As pessoas estão numa período de sensação de insuficiência, quase porquê em uma distopia. É provável desfazer isso. Daí vem o nome da organização Ctrl-Z, que é o comando para desfazer a tomada da internet.
Qual é esse vácuo de atuação que o Ctrl+Z pretende ocupar?
Um exemplo no exterior interessante é o movimento People vs Big Tech na Europa. Esse é um movimento muito focado na litigância, e nós temos uma noção mais ampla de Justiça. Mas essa foi uma organização importante para que se aprovasse o Do dedo Services Act, na Europa [a regulação de plataformas digitais].
Nos últimos seis anos, muito do que se debate em termos de legislação para a internet acaba parado no Congresso. Considerando esse cenário, a litigância é uma saída?
Nós temos dispositivos que já existem, que podem ajudar o cidadão brasiliano a se posicionar em frente a essas empresas, que é o caso da lei do consumidor.
Falamos muito sobre subir o dispêndio de operação das empresas no Brasil. Precisa ser parecido com o que acontece no setor distraído, no que acontece no setor bancário, nos quais o desrespeito ao consumidor e a má conduta têm um dispêndio persistente. Queremos que isso aconteça no setor de big tech também.
A primeira iniciativa anunciada pelo Ctrl+Z foi uma instrumento para proteger delatores corporativos. Uma vez que vai funcionar?
Na cobertura do setor de big techs, o material que mostra porquê funcionam essas empresas é muito fundamentado em vazamento de informação. Foi assim no Facebook Papers e na Cambridge Analytica, por exemplo. É o que acontece também no julgamento mais recente nos Estados Unidos sobre as plataformas serem viciantes ou não. Os documentos internos são importantíssimos para que entendamos o funcionamento dessas empresas.
Eu trabalhei numa dessas empresas e sei que existem trabalhadores de dentro que também estão preocupados. Não temos uma cultura tão possante de denúncia no Brasil porque temos um tórax jurídico frágil de proteção do denunciante.
O que queremos fazer, antes de tudo, é fortalecer uma cultura de denúncia. O Ctrl+Z vai oferecer a tecnologia para isso. Vai ser uma plataforma que recomendamos que acesse pelo Tor [navegador que permite encontrar os links não indexados em buscadores, na região digital conhecida como dark web]. Isso pode manter o anonimato do delator.
Cláusulas de confidencialidade estão em todos os níveis de trabalho para grandes empresas de tecnologia, incluindo os funcionários terceirizados. Há alguma proteção jurídica para quem quebre esses contratos?
A legislação brasileira protege o sigilo da natividade, a Constituição. Não há nenhum contrato privado que possa se sobrepor ao valor da Constituição, que defende a liberdade de sentença e também dá ao jornalista não exclusivamente a possibilidade, porquê o responsabilidade de proteger o sigilo da sua natividade. O principal marco de proteção dessas pessoas, hoje, é o sigilo da natividade.
Além das cláusulas, há uma série de ferramentas para que empresas vigiem seus funcionários. O nível atual de vigilância sobre o empregado inibe denúncias?
Com certeza inibe denúncias. Eu escutei relatos depois da minha saída sobre um aumento da vigilância sobre os funcionários, sobre uma sensação maior de vigilância, não só na Meta porquê em outras big techs. É um problema e um debate que precisamos enfrentar.
A Meta, em outra ocasião, já impediu a divulgação do livro de sua ex-embaixadora Sarah Wynn-Williams. Esse precedente mostra que a Meta está disposta silenciar seus ex-funcionários?
Existe um longo histórico de whistleblowers [denunciantes] que sofreram retaliação por meio do judiciário —a própria Francis Haugen, se eu não me ilusão.
As empresas estão dispostas a isso, mas as pessoas continuam denunciando. Eu palato dessas histórias porque mostra o que nós podemos fazer com poucas pessoas. Olha o que a Francis Haugen fez quando divulgou o Facebook Papers. A empresa sabia os riscos de sua ex-funcionária mostrar o que acontecia com crianças e adolescentes.
Isso mostra o quanto cidadãos e cidadãs engajados e comprometidos com o interesse público podem elanguescer as estruturas.
E é provável treinar influência nas estruturas das big techs, hoje sediadas nos EUA, por meio de atuação no Brasil?
Eu acredito que sim. A partir da vigência do ECA Do dedo vamos encetar a ver uma série de mudanças na implementação do design das ferramentas.
É um grande blefe dessas empresas quando elas ameaçam não operar mais no Brasil. O mercado brasiliano é importante.
O que acontece no Brasil pode influenciar o que se passa na África, no Sudeste Asiático. Eu acredito firmemente em um efeito cascata que o Brasil pode ter em outros países. Essa é a única maneira que já mudou o comportamento dessas empresas no pretérito.
RAIO-X | DANIELA DA SILVA, 39
É cofundadora da Ctrl+Z, organização voltada para direitos digitais, litigância estratégica e proteção a denunciantes do setor de tecnologia. Atuou porquê superintendente de políticas públicas do WhatsApp no Brasil, onde era responsável pela interlocução entre a plataforma e autoridades brasileiras.
