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Expedição leva atendimento em saúde a ribeirinhos de Rondônia
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Expedição leva atendimento em saúde a ribeirinhos de Rondônia

Em uma manhã tranquila de maio, centenas de pessoas se agrupavam em torno da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Calama, um região da capital rondoniense, Porto Velho. Elas aguardavam as equipes da expedição Paquete Ciência, Saúde e Cidadania, que prestariam atendimento em diversas áreas, em privativo de saúde.

A iniciativa, na sexta edição, foi um momento em que as comunidades ribeirinhas de Porto Velho puderam ter entrada aos mais diversos serviços. A maioria deles inexistente nas proximidades ou, quando disponível, só por meio de viagens extenuantes, que podem insistir até nove horas.

A iniciativa foi promovida entre os dias 20 e 24 de maio, pelo Instituto Vernáculo de Ciência e Tecnologia de Pesquisa e Conhecimento de Superioridade da Amazônia Ocidental e Oriental (INCT-CONEXAO), rede pátrio e internacional de pesquisadores, instituições científicas, empresas e organizações sociais, em parceria com a faculdade Afya São Lucas, de Porto Velho. No navio, mais de 100 pessoas, entre estudantes, professores e pesquisadores, realizaram ações voltadas à saúde, ensino e cidadania.
 


Porto Velho - 31/05/2026 - Sexta edição da expedição Ciência, Saúde e Cidadania, que presta atendimento em Calama, distrito de Porto Velho (RO). Foto: Nubia Abe
Porto Velho - 31/05/2026 - Sexta edição da expedição Ciência, Saúde e Cidadania, que presta atendimento em Calama, distrito de Porto Velho (RO). Foto: Nubia Abe

Sexta edição da expedição Paquete Ciência, Saúde e Cidadania, que presta atendimento em Calama, região de Porto Velho (RO) – Foto: Nubia Abe

A expedição percorreu o Rio Madeira, na região conhecida uma vez que Reles Madeira, visitando as comunidades de Calama, Nazaré e São Carlos e levando atendimento direto à população, além de atividades educativas e científicas. Nos dois primeiros dias, o navio atracou em Calama, a maior comunidade da região, onde vivem tapume de 2,3 milénio pessoas.

Uma das pessoas que aguardavam atendimento é a agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis, de 52 anos, moradora da comunidade Leiva Rio Preto. À Dependência Brasil ela contou que para chegar ao sítio de atendimento levou mais de duas horas e meia navegando pelo rio em uma rabeta (tipo de embarcação pequena). Mas, antes, até chegar à orla do rio, levou mais de duas horas, percorrendo a cavalo uma estrada de tapume de 12 quilômetros (km).

“Para a gente vir no posto para fazer fiscalização de malária, um fiscalização generalidade, a gente tem que vir até Calama. É essa a dificuldade, trespassar de lá para ser atendida e, quando vem um navio desse, com todo tipo de fiscalização e de consulta, a gente tem que aproveitar. Até porque nem sempre a gente fica sabendo. Uma vez que é longe, a gente tem essa dificuldade e, às vezes, quando a gente chega, o navio já foi embora”, relatou.

Para conseguir chegar à comunidade de Calama, Vânia contou com a ajuda de uma vizinha, a mesma que fez o aviso da chegada do navio.

“Ela soube e eu falei assim: avisa o dia certinho que a gente vai. Eu vim para a moradia dela um dia antes e de lá a gente saiu, porque é muito longe. Se eu fosse trespassar de moradia, eu teria que trespassar meia-noite para chegar cá umas 7h, e era capaz de nem ter mais vagas”, continuou.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -  A agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis  faz exames oftalmológicos disponibilizados pela expedição Ciência, Saúde e Cidadania.Foto: Nubia Abe
Porto Velho - 31/05/2026 -  A agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis  faz exames oftalmológicos disponibilizados pela expedição Ciência, Saúde e Cidadania.Foto: Nubia Abe

A agricultora familiar Vânia Caetano dos Reis faz exames oftalmológicos disponibilizados pela expedição Paquete Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

No dia anterior, a agricultora familiar já havia feito o mesmo trajeto para se consultar.

“Ontem eu vim ser atendida por odontologia e o médico universal, passei também no dentista, por cá tudo, passei nas belezas também”, disse, se referindo ao atendimento em estética, um dos serviços prestados à população. “Passei também ou também no oftalmologista. Eu sofro da vista desde jovem e uma vez que eu mexo com bicho, eu andando de cavalo, meu óculos caíam e quebraram”, completou.

Nesta edição, os exames de vista foram os mais procurados, a partir de demandas prévias da população e dada a falta de oftalmologistas para atender as comunidades ribeirinhas. Mais de 200 atendimentos oftalmológicos foram realizados ao longo da ação. Outrossim, uma parceria com uma ótica de Porto Velho resultou na doação de 300 óculos de intensidade.

“Eu consegui e vão trespassar os óculos que vou receber no dia 12 [de junho]”, comemorou Vânia.
 


Porto Velho - 31/05/2026 - A dona de casa Edna Miranda de Sousa e a neta Bianca Sousa de Castro foram atendidas por equipes da expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe
Porto Velho - 31/05/2026 - A dona de casa Edna Miranda de Sousa e a neta Bianca Sousa de Castro foram atendidas por equipes da expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe

A dona de moradia Edna Miranda de Sousa e a neta Bianca Sousa de Castro foram atendidas por equipes da expedição Paquete Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

Quem também buscou atendimento foi a dona de moradia Edna Miranda de Sousa, de 52 anos, que levou a neta Bianca Sousa de Castro, de 5 anos. Moradora da comunidade São Francisco, nas proximidades de Calama, ela contou que na comunidade onde vive não tem posto de saúde, unicamente uma escola de ensino fundamental.

“Eu queria saber se ela está com anemia ou alguma coisa, fazer um séquito médico. A Bianca também reclama de pequenas manchas no corpo e pequenas verrugas nas pálpebras”, relatou. “Dói o olho e sova, sova muito muito, muito muito”, resumiu a moçoila.

O atendimento prestado para Edna e Bianca mostra uma vez que foi o esquema programado para atender a população ribeirinha. O pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, disse que a operação foi montada para atender a demanda espontânea das comunidades.

Segundo Oliveira, quem chegava lá passava primeiramente por uma triagem para identificar o tipo de atendimento. Nessa lanço, já eram aferidos o peso, profundidade, índice de tamanho corporal (IMC), pressão arterial e outras necessidades do paciente. Na sequência, a pessoa era direcionada para o atendimento indicado.

“Dividimos o fluxo principal pensando nos atendimentos que estamos trazendo, tanto atendimento médico, enfermagem, oftalmológico, biomédico, nutrição, fonoaudiologia, fisioterapia, psicologia, ensino física e a dimensão jurídica também”, disse. “Mas, se hoje a prioridade dele [paciente] é a consulta médica, logo primeiro ele passa na consulta médica e depois é guiado para o oftalmo”, disse.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -O pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, conversa com o venezuelano Luiz Antônio Prado, durante  atendimento na expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe
Porto Velho - 31/05/2026 -O pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, conversa com o venezuelano Luiz Antônio Prado, durante  atendimento na expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe

O pró-reitor de Pós-Graduação, Pesquisa, Extensão e Internacionalização da Afya São Lucas, Wuelison Lelis de Oliveira, conversa com o venezuelano Luiz Antônio Prado, durante atendimento na expedição Paquete Ciência, Saúde e Cidadania –  Foto: Nubia Abe

Para prestar todo esse atendimento, a Afya disponibilizou uma série de equipamentos, a exemplo de cadeiras odontológicas, instrumentos para diagnosticar a saúde ocular e equipamentos para exames laboratoriais, com coleta de material e resultado de alguns exames saindo quase que imediatamente. Todo o equipamento transportado no navio da expedição.

Quem gostou foi o pequeno Azafi Pitangui, que recebeu atendimento odontológico, para retirada de cárie e limpeza dental. Morador de Calama, ele ficou empolgado com os atendimentos.

“Gostei do dentista, mas não chorei, não! Ele só colocou a massinha três vezes e depois não saiu, não”, relatou o pequeno, que disse ainda querer ser médico. “Porque é muito lítico ajudar as outras pessoas, é bom e faz muito.”

Intervalo é duelo

Para o estudante de odontologia Jonatas Ponce, a participação na expedição foi uma oportunidade de aprendizagem e de contato com uma verdade desafiadora. Auxiliando as crianças a fazerem escovação dental de maneira correta, Jonatas se disse espantado com o cenário de dificuldade de entrada a itens comuns, uma vez que escovas de dente, creme dental, medicações e chuva tratada e fluoretada.

“A logística é muito complicada. Para o atendimento, eu mesmo trouxe unicamente uma pequena mochila com roupa, o resto foi tudo material, instrumental, medicamento, porque a gente sabe que as pessoas às vezes não têm entrada a coisas consideradas básicas, uma vez que uma farmácia, onde você compra lá uma dipirona, ibuprofeno, etc. E cá é difícil, o entrada para eles é muito restrito, depende do meio fluvial.”

A intervalo é um grande duelo para o atendimento das comunidades ribeirinhas de Porto Velho e da Amazônia, de maneira universal. Com uma dimensão territorial de 34.090,952 quilômetros quadrados, Porto Velho é a maior capital em extensão territorial do país, sendo maior que os estados do Alagoas e Sergipe, e até maior que países inteiros, uma vez que a Bélgica.

Em risca reta, a intervalo entre a sede administrativa do município e Calama, a principal comunidade ribeirinha, supera os 200 km e cruza a floresta. A principal forma de deslocamento é a fluvial, com trajetos que podem levar de nove a 15 horas, dependendo do sentido – subindo ou descendo o Rio Madeira.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -
Porto Velho - 31/05/2026 -

Moradores de Calama, região de Porto Velho (RO), e regiões próximas são atendidos por equipes da expedição Paquete Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

Uma opção é cruzar a mote com o Amazonas se dirigindo Humaitá, em uma viagem que pode tapume de duas horas e meia. De lá, pegar uma embarcação para subir o Rio Madeira. A viagem leva tapume de uma hora e 20 minutos a bordo do tipo mais rápido de embarcação, espargido uma vez que voadeira.

No caminho, a embarcação passa por pequenas comunidades em que ribeirinhos vivem praticamente isolados e das quais meio de transporte para resolver todas as tarefas do dia a dia é o navio.

Grandes balsas também cruzam com os pequenos barcos. Elas levam caminhões com soja e outros produtos do agronegócio. Também transportam outros tipos de mercadoria. Durante o trajeto, também é verosímil observar dragas pertencentes ao mina ilícito, que passam impunemente.

Diante desse cenário, é fácil entender por que o deslocamento é um grande gargalo para essas populações. É o caso do venezuelano Luiz Antônio Prado, de 32 anos, que mora há nove anos em Glebas, uma comunidade próxima de Calama. À Dependência Brasil, ele relatou a rotina de dificuldades para a população ter entrada à saúde.

“[Para] quem que mora na orla do rio e tem uma emergência fica difícil. Tem que colocar na voadeira. E nem sempre tem um ‘motorista’”, disse. “Para eu trespassar daqui para a cidade é muito difícil.”
 


Porto Velho - 31/05/2026 -
Porto Velho - 31/05/2026 -

 O venezuelano Luiz Antônio Prado e a filha Gorete Maria Prado foram atendidos por equipes da expedição Paquete Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

Em muitas ocasiões, o fado da população é procurar o município amazonense de Humaitá, mais próximo da comunidade que o meio de Porto Velho. Sentindo uma espécie de taquicardia, Luiz Antônio se consultou para saber qual o seu problema.  

Ele estava escoltado da filha, Gorete Maria Prado, de 15 anos, que é diabética e que recebeu séquito para controlar a doença.

“Minha glicose estava supra de 600 e eu cheguei e já e me colocaram rapidinho no atendimento, começaram a me tratar”, contou a jovem, que prometeu seguir as orientações médicas para controlar o diabetes.

Além das consultas, avaliações e exames na proximidade da UPA, as equipes da expedição realizaram ainda atendimentos domiciliares para a população com dificuldade de locomoção, uma vez que no caso do ex-seringueiro Manoel Dourado da Silva, de 88 anos. O ribeirinho sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e tem dificuldade de movimentar o lado recta do corpo. Com os pés inchados e pressão subida, o idoso também tem problemas de audição e desenvolveu diabetes.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -
Porto Velho - 31/05/2026 -

O ex-seringueiro Manoel Dourado da Silva é atendido por equipes da expedição Ciência, Saúde e Cidadani – Foto: Nubia Abe

Atendido pela equipe de saúde da expedição, comandada pelo médico e professor da Afya São Lucas Gabriel Aurélio de Paiva, Manoel teve a pressão aferida e recebeu medicação para pressão e diabetes. As instruções foram passadas para a filha dele, Maria Aires, com quem ele mora.

“É muito bom quando as pessoas vêm, porque cá é difícil ter um séquito médico, porque ele não pode mais caminhar e daqui até lá [local do atendimento] é uma intervalo. As pessoas querem levar de moto, mas ele não consegue, porque  tem uma perna que não mexe recta”, disse Maria, que foi fazer uma consulta para controlar o diabetes.

O professor confirmou que os atendimentos mostraram que existe uma grande parcela da população que sofre com pressão subida e diabetes.

“O capital que a gente tem mais visto é a famosa diabetes, pressão subida também tem demais, é meio descompensado. Pode ser uma falta de notícia entre  médicos e pacientes, já que muitas das vezes eles têm a receita mas não tomam medicamento, muitas vezes por questão de tradição. Eles acham que unicamente tomar um chá vai resolver o problema e só tomam a medicação quando estão passando muito mal. Daí que a gente tem que permanecer reforçando a questão do zelo”, disse.
 


Porto Velho - 31/05/2026 -  Médico e professor da Afya São Lucas Gabriel Aurélio de Paiva comanda equipe de saúde da expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe
Porto Velho - 31/05/2026 -  Médico e professor da Afya São Lucas Gabriel Aurélio de Paiva comanda equipe de saúde da expedição Ciência, Saúde e Cidadania. Foto: Nubia Abe

O médico e professor Gabriel Aurélio de Paiva (de pé à esquerda) comanda a equipe de saúde da expedição Ciência, Saúde e Cidadania – Foto: Nubia Abe

O professor contou à Dependência Brasil que antes da expedição juntou um grupo de estudantes para pensar e planejar a atuação da equipe. Segundo ele, iniciativas uma vez que essa são uma grande oportunidade para os estudantes “saírem da bolha” e encontrarem o “mundo real”.

“Para os alunos é uma experiência, enfim, do mundo real. É um mundo real, porque lá no ambulatório eles ficam numa bolha muito grande. Eu orientei eles, disse que a gente faria um atendimento capital, fazer séquito junto com o ACS [agente comunitário de saúde]. E, toda vez que tem essa oportunidade, eu sempre trago eles, para eles verem que tem outra verdade além daquela que eles vivem todo dia”, afirmou.

*O repórter viajou a invitação da faculdade Afya

Fonte EBC

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