Feira do Livro: Rui Tavares questiona a culpa da esquerda – 31/05/2026 – Ilustrada
É um envolvente conflagrado em que as pessoas têm dificuldade de se entender e levantam armas em vez de argumentos. O tema de Rui Tavares, historiador e deputado português que falou neste domingo na Feira do Livro, em São Paulo, não serve em zero para descrever a mesa em si, uma conversa clara e sofisticada com o jornalista Marcos Augusto Gonçalves.
Na mesa da programação Folha na Rossio, o colunista do jornal conversou com o editor da Ilustríssima sobre o estado do debate político hoje, a lucidez sintético e a história das guerras culturais —vindas de um varão que, ao ouvir a sentença “povoado global”, pensa muito mais na sua povoado do que no orbe.
“Cresci numa povoado em que praticamente todos eram primos. E lá tinham as figuras do louco, do bêbado, da devota da povoado. E consigo hoje olhar para a redondel política e pensar, por exemplo, que aquela pessoa está fazendo o mesmo papel do louco da minha povoado.”
A fala reflete o espírito relaxado pelo qual Tavares se expressa. Para ele, político de esquerda que ocupa uma cadeira no Parlamento português, tão importante quanto escolher um bom “objeto de libido” para engajar eleitores é desviar de temas improdutivos.
O responsável de “Hipocritões e Oligarcas”, novo livro da Tinta-da-China Brasil, se lembra de uma polêmica em torno do “burkini” nas praias europeias, sentença que designava roupas de banho adaptadas à cultura islâmica.
Na deliberação sobre qual seria o posicionamento de seu partido, ele defendeu só deixar a polêmica passar; não era um tema premente, disseminado em todo lugar. “Não vale a pena entrar num debate dilacerante para o partido por justificação de um ‘burkini’ que ninguém viu.”
O português diz que uma lógica parecida pode servir para o posicionamento dos partidos de esquerda em relação à designação, pelos Estados Unidos, do PCC e do Comando Vermelho uma vez que organizações terroristas.
“Acadêmicos podem esgrimir, com razão, que a etiqueta de terrorismo não serve nesses casos. Mas se você é um cidadão aterrorizado pelo PCC ou pelo CV, você considera aquilo uma organização terrorista e ponto. O debate acadêmico pode escolher proteger não usar essa termo e morrer nessa trincheira, ou passar ao largo dessa questão taxonômica.”
Um exemplo de “objeto de libido político” que a esquerda usou de maneira positiva, por sua concretude e por dialogar facilmente com públicos diversos, é a graduação 6×1, aprovada pela Câmara dos Deputados nesta semana.
Outra memorial que Tavares trouxe na conversa foi a resguardo de Lula de que o cidadão pudesse “voltar a consumir sua picanha com a família” em seu governo, um pouco tornado quase um slogan involuntário. Novamente, é um caso de mensagem direta que atinge muitos públicos, remetendo a tempos de calma e à diversão sem culpa.
“O campo progressista está pleno de culpa, o que é um erro crasso”, afirmou ele. “Houve um tempo em que a esquerda era conhecida por expor: ‘Ah, você é de tal jeito? Tudo muito.’ Hoje, quem diz isso é a direita.”
Outro tema abordado durante a mesa foi a lucidez sintético, e Tavares se mostrou preocupado com a falta de diálogo internacional sério sobre isso. “Em todos os episódios anteriores de mudanças tecnológicas de grande dimensão, uma vez que as bombas nucleares, os Estados se sentavam em conjunto e redigiam tratados. Com a IA, não acontece zero. A esquerda parece que se demitiu de falar disso.”
Quem “ocupou esse vazio”, segundo ele, foi o papa Leão 14, que publicou sua primeira encíclica nesta semana justamente sobre esse tema. “Essa encíclica tem aspectos muito interessantes. É um grande préstimo alguém com a dimensão religiosa e transnacional que o papa tem expor que a humanidade precisa conversar sobre isso.”
Mais cedo, na franqueza do Palco da Rossio, o Clube do Livro da finada Rádio Eldorado se reuniu com a escritora Giovana Madalosso, colunista da Folha.
Essa foi a primeira vez que o clube aconteceu desde o término da rádio, uma vez que lembrou a apresentadora Roberta Martinelli, mediadora da mesa, que lembrou que a série de encontros seguirá uma vez que um podcast.
Ao falar de seu romance “Batida Só”, Madalosso explicou que tirou o conflito mediano da vida de sua filha. Assim uma vez que a personagem principal, a filha da escritora conviveu com uma doença de coração —para não morrer, precisava viver de maneira regulada, “quase incompleta”.
“Percebi que isso era uma metáfora para nosso tempo quando, em encontros com amigas, eu ouvi que elas não queriam mais se enamorar para não suportar”, contou a autora.
O encontro passeou também pelas outras obras de Madalosso. Mesmo publicando livros desde 2016, ela falou sobre a dificuldade de mulheres se nomearem uma vez que escritoras. Ela concordou com Martinelli que, por vezes, esse “auto-reconhecimento” só vem depois do reconhecimento extrínseco.





