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'Feito Pipa' tenta Oscar e questiona família tradicional 03/11/2026
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‘Feito Pipa’ tenta Oscar e questiona família tradicional – 03/11/2026 – Ilustrada

Lançada em 1983, “Time After Time”, da roqueira Cyndi Lauper, se tornaria uma das baladas românticas mais populares da história. Mas, no sertão cearense do filme “Feito Pipa”, a música é cantada de avó para neto. Os versos, sobre uma relação que resiste às interpéries do tempo, se tornam uma promessa melancólica de corroboração em tempos de um Brasil dividido por valores políticos e morais.

O longa de Allan Deberton foi o escolhido pela Liceu Brasileira de Cinema, em setembro, para simbolizar o Brasil no Oscar. Agora, a indicação à categoria de melhor filme internacional depende da Liceu de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, que divulgará a lista de pré-indicados à premiação em 16 de dezembro.

“Feito Pipa” venceu dois prêmios no Festival de Berlim, onde estreou em fevereiro, e levou o público brasiliano às lágrimas em sua primeira exibição no país, no Festival de Gramado, em agosto. O filme conta a história de Gugu, menino que joga futebol e também se maquia, dança e pinta as unhas.

Lázaro Ramos interpreta Batista, pai do garoto, que o repreende pelos gostos associados ao universo feminino. Depois da morte da mãe de Gugu, o varão se casou novamente e teve uma filha. Batista se orgulha de ser o provedor de sua segunda morada, mas se afasta desse rebento que não aceita.

Gugu vive um cotidiano feliz com a avó, Dilma, com quem mora. O hiato geracional desculpa estranhamentos que são driblados pelo carinho reciprocamente. Tudo vai muito, até que a idosa adoece e começa a perder a memória. Gugu passa a mentir para se manter próximo a ela.

O filme reflete a veras de muitos brasileiros criados por avós, uma tendência relacionada também ao desarrimo paterno. Pesquisas das empresas Data8 e Noz Lucidez deste ano apontam que os mais velhos estão assumindo mais cuidados e gastos com os netos.

Os atores que encarnam Gugu e Dilma, Yuri Gomes, de 12 anos, e Teca Pereira, de 74, foram tratados porquê estrelas em Gramado, apesar de não serem nomes populares no rodeio cinematográfico. Gugu é o primeiro papel do bailarino baiano, já classificado nos corredores do festival porquê um talento promissor.

Pereira é veterana dos palcos, mas ganhou projeção nos últimos anos porquê Jurema, na série “Segunda Chamada”, e Nice, mulher que cuidava do rebento com deficiência de Odete Roitman no remake da romance “Vale Tudo”. Ela diz que as oportunidades dadas a artistas negros aumentaram na última dezena. “Temos papéis relevantes, que não são subalternos porquê antes”, afirma.

Em “Feito Pipa”, a dinâmica familiar ecoa, de forma sutil, os debates acalorados que tomaram o último período eleitoral. Parlamentares conservadores atingiram a maioria das cadeiras no Congresso e no Senado com discursos em resguardo da família tradicional e de crenças cristãs, contra direitos LGBTQIA+ e de mulheres, pautas associadas à esquerda.

Conforme Dilma tenta restaurar suas memórias, ela dá pistas de um conflito territorial que assombra a pequena cidade de Quixadá. Deberton quis explorar porquê as relações afetivas são afetadas pelo entorno, em tempos de pouca empatia com o próximo.

“O pai quer se aproximar, mas tem dificuldade de sugar o rebento devido ao seu universo exterior. Queríamos trazer grandes discussões, mas sem sofrimento e tarar. Há filmes que já fazem isso”, diz o diretor. “Feito Pipa” dedica pouco tempo de tela ao sofrimento de Gugu frente à repudiação do pai, por exemplo.

Há mais cenas do menino convivendo com a avó e, em paralelo, com os amigos e a família do pai. A tensão cresce conforme Batista percebe no garoto a sensibilidade e rebeldia aprendidas com Dilma e a mãe morta, que ele não consegue compreender.

Apesar da boa recepção internacional até cá, “Feito Pipa” tem um trajectória mais difícil até o Oscar em verificação com seus antecessores, “Ainda Estou Cá” e “O Agente Secreto”. Os dois são produções de maior graduação, com mais verba para bancar a campanha que inclui viagens da equipe a Los Angeles e a organização de eventos para exibir o filme aos votantes da premiação.

“Feito Pipa”, ainda, toca em temas mais específicos e difíceis de serem abraçados pelo grande público, porquê a puerícia LGBTQIA+ no interno do Brasil. Tanto “Ainda Estou Cá” quanto “O Agente Secreto” tinham porquê tecido de fundo a repressão da ditadura.

Por término, Deberton não é um nome espargido porquê Walter Salles e Kleber Mendonça Rebento, cultuados fora do país porquê representantes do cinema brasiliano. Antes de “Feito Pipa”, Deberton dirigiu “O Melhor Colega”, um músico gay, e “Pacarrete”, em 2020, sobre uma bailarina ignorada pela população de Russas, cidade natal do diretor no Ceará.

“Por ter nascido no interno,sem aproximação a uma sala de cinema, fui uma dessas crianças de Sessão da Tarde, de locadora, de filmes comerciais”, diz Deberton. Quando começou a fazer cinema conheceu filmes mais artísticos.

O retrato frágil do interno do Brasil de “Pacarrete”, sem estereótipos de violência porquê jagunços, escassez ou brigas por terreno, atraiu Lázaro Ramos. No Festival de Gramado, o ator também apresentou um filme oposto a “Feito Pipa”, o thriller “Antártida”. O blockbuster da Orbe foigravado no maior estúdio de painéis digitais da América Latina.

“Estar nesses dois filmes significa tentar mostrar caminhos para onde o cinema brasiliano pode ir. Durante a maior segmento da minha curso, escolhi personagens para provar alguma coisa, que eu merecia espaço”, diz Ramos, hoje um dos rostos mais populares da TV Orbe.

“Viemos de um período de filmes por encomenda, pensados para o algoritmo ou streaming. Sem autoralidade e nossa brasilidade, que faz com que a gente se destaque”, diz o ator, que relaciona o bom momento do cinema pátrio com a produção de títulos autorais.

Longas independentes, porém, ainda têm o duelo de atrair público para as salas de cinema. Deberton está otimista. “As premiações para ‘O Último Azul’ e ‘O Agente Secreto’ criaram uma torcida, que antes era do futebol, para o cinema pátrio”, diz.

Folha

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