‘O Gênio do Crime’ vai ao cinema fugindo da infantilização – 12/05/2026 – Ilustrada
Sobre o vidro canelado de uma porta, o nome “Detetive Mr. Mistério” se anuncia em letras douradas, urgentes. Por trás dela, há uma sala porquê as de filmes policiais americanos dos anos 1940, com a mesma iluminação dramática, embora num contexto totalmente descolado do cinema noir.
O cenário levantado num galpão de Osasco, na região metropolitana de São Paulo, faz secção da novidade adaptação de “O Gênio do Transgressão”, uma das obras basilares da literatura infantojuvenil brasileira, escrita por João Carlos Oceânico em 1969, e que chega agora às salas de cinema.
A segundos da gravação, uma máquina de gelo sequioso passeia por aquele escritório, preenchendo-o de suspense. Marcos Veras surge no batente da porta, portando um chapéu fedora e sobretudo bege, em mais uma folia com o estereótipo do detetive que já estava presente nas páginas.
Veras interpreta o tal Mister Mistério, que na história investiga um caso de falsificação de figurinhas de um álbum de futebol, em paralelo à Turma do Gordo, grupo de crianças metidas a Sherlock Holmes que protagoniza esta e outras 12 aventuras da série literária de Oceânico.
“É um livro que entrou no imaginário coletivo e que continua presente nas escolas. Ao mesmo tempo, é libertador, porque não é um livro didático, é ousado, tem até um quê de politicamente incorreto”, diz o produtor Tiago Mello.
Diretor de “Arcanjo Renegado” e de alguns episódios do macabro “Risco Direta”, entre muitas outras séries e novelas voltadas ao público adulto, Lipe Binder foi escolhido para capitanear o projeto. Sua expertise em tramas que abordam violência parece fora de contexto em “O Gênio do Transgressão”, mas alinhada com a proposta da Boutique Filmes.
A teoria, por fim, é não infantilizar o testemunha —da mesma forma que o livro não o faz. Entre as principais referências para o filme estão projetos dirigidos ou produzidos por Steven Spielberg, principalmente aqueles da dezena de 1980, que permitiam uma produção infantojuvenil mais sombria e menos didática.
“Os Goonies”, com sua turma de estudantes em aventuras perigosas, mas nem por isso menos pueris, é citado a todo momento, muito porquê o mais recente “Super 8”, um suspense de ficção científica gula, mas tenso. Na esteira do sucesso da série “Wandinha”, da Netflix, os filmes da “Família Addams” também são mencionados.
Em vez de carregar nos tons de nostalgia, porém, produtor e diretor decidiram ambientar a história nos dias atuais, trazendo elementos porquê as redes sociais para a trama e driblando desafios porquê a informação facilitada pelo celular —a proibição de uso dos aparelhos nas escolas, no ano pretérito, ajudou a sustar o problema.
Também adaptaram o tom mais permissivo de antes para tempos mais sensíveis, em que bullying não é mera folia. “Queríamos um filme que conversasse de igual para igual, que tivesse um papo reto com as crianças, que é alguma coisa que está faltando no audiovisual”, diz Mello.
“Temos muito teor infantojuvenil, mas nem todos com essa pegada. Pensamos o tempo todo na filete etária dos 11, 12 anos, quando você não é mais gaiato e já fala porquê adulto. Buscamos uma versão não infantilizada dessa história, contrariando alguns filmes hoje em que até o elenco adulto atua de forma infantilizada”, completa Binder.
É em secção por essa linguagem, acreditam produtor e diretor, que as aventuras da Turma do Gordo seguiram relevantes nas páginas nas últimas seis décadas, sendo transmitidas de geração em geração num país com problemas crônicos de alfabetização. Eles esperam, aliás, que a adaptação cinematográfica sirva não porquê uma substituição à leitura, mas porquê um engodo.
Mas é simples que um quê docemente pueril foi preservado na adaptação de “O Gênio do Transgressão”. Nos bastidores, se manifesta na maneira porquê Veras responde às perguntas curiosas de seu colega de cena mirim, Francisco Galvão, ou na mesa de bolachas recheadas, doces e salgadinhos à disposição da criancice nas pausas entre um take e outro.
Em cena, aparece no humor ligeiro, em sequências porquê aquela em que Mister Mistério oferece uísque ao protagonista, Gordo. “Face, eu tenho 12 anos!”, diz o menino em seguida a oferta, pedindo, portanto, um copo com dois dedos de guaraná e bastante gelo.
No elenco adulto de “O Gênio do Transgressão” está ainda Ailton Perdão, porquê Seu Tomé, o possessor da mesa do bairro, lesado pela vaga de falsificações de figurinhas. Já a equipe criativa segue a diretriz de trabalhar com profissionais habituados a filmes e séries mais maduros, em peculiar de gênero.
Estão presentes, por exemplo, Pedro Sotero, diretor de retrato que trabalhou em “Bacurau”, e Thales Junqueira, diretor de arte de “O Agente Secreto”, ambos longas do pernambucano Kleber Mendonça Rebento, premiados no Festival de Cannes, sanguinolentos e com tom de thriller político. Ainda mais distante, eles trabalharam juntos no romance queer e hipersexual “Baby”, de Marcelo Caetano.
A expectativa é que o lançamento de “O Gênio do Transgressão” seja impulsionado pelo atual furor que o álbum de figurinhas da Despensa do Mundo da Fifa, atualmente nas bancas, tem gerado entre colecionadores —adultos e mirins.
“Me choca que os mais novos não estejam vendo teor brasílico. A gente precisa que eles vejam filmes e séries nacionais nesta tempo; senão, qual a chance de eles se tornarem adultos que consomem teor vernáculo?”, diz Mello. “Pensamos que é um filme importante neste sentido, de formação de um público leitor e de um público para o cinema.”





