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Festival de Brasília premia 'Se Eu Fosse Vivo... Vivia'
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Festival de Brasília revê lirismo político do cinema atual – 20/09/2026 – Ilustrada

O cinema brasílico vai muito, e vai conjugando politização, lirismo, luto e força estética. Uma boa exemplar dessa ótima tempo é o 59º Festival de Brasília do Cinema Brasílico, que chegou ao termo neste sábado (19) coroando “Se Eu Fosse Vivo… Vivia” porquê melhor filme.

Em sua principal mostra, a competitiva de longas, tanto o trabalho de André Novais Oliveira quanto o de Daniel Nolasco, “Pequenas Tragédias”, que mais acumulou troféus na noite, estão entre os melhores filmes realizados no Brasil no século 21.

O filme de Nolasco tem cenas de sexo homossexual ofensivas aos padrões morais da cidade onde foi filmado, a pequena Catalão, em Goiás. Mas é muito menos audacioso que “Vento Sedento”, uma coleção de cenas muito muito filmadas de sexo explícito que escandalizou conservadores da cidade que, entretanto, conferiram a transcrição pirata que circulou em suas redes.

“Pequenas Tragédias” tem tudo para repetir a incoerência: orgulho por ter um diretor comemorado na cidade, vergonha pela homossexualidade oportunidade que o filme promove com talento —o que, sabemos, amplifica seu poder de provocação.

O supimpa ator Guilherme Theo encarna o próprio Daniel Nolasco com desaforo e ironia. Num momento dos mais comentados no festival, ele interrompe o que parecia ser o início de uma cena de sexo explícito pois havia prometido ao distribuidor um filme mais contido.

Entretanto, membros eretos masculinos são vistos com certa liberalidade. Se não há cenas mais explícitas, o filme não deixa de ser extremamente provocador ao público mais conservador.

Dividido entre um prólogo, cinco capítulos, um entreato e um epílogo, o filme segue um trajecto que vai de um humor inteligente à melancolia da vida queer numa cidade do interno, de onde se foge se há o libido da liberdade de costumes.

Talvez “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, em verificação, seja um pouco menos inventivo e muito menos audacioso, embora seja também valioso. Fala de uma longa relação amorosa, tanto em seus primórdios, nos anos 1970, quando 50 anos depois, quando Gilberto e Jacira estão idosos e com problemas de saúde.

O elenco é notável. Não só Norberto Novais Oliveira, pai de André Novais, e Conceição Evaristo, que interpretam o parelha idoso, mas também suas versões jovens, Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo.

Os jovens brilham na breve sequência do dança: Gerson King Combo e Hyldon embalam o flerte, enquanto ela administra mentalmente um perdão que provavelmente virá no porvir próximo.

Os veteranos têm ótimas cenas de humor, principalmente quando um dedura o outro para os médicos. Quando Jacira passa mal e é atendida por funcionários de uma loja de móveis, as coisas começam a se encaminhar mais claramente para o fantástico. E aí o título do filme ecoa possante, ressignificando tudo o que vimos e o que veremos ainda.

Daniel Nolasco e André Novais Oliveira elevaram o nível do festival e do cinema brasílico, mas não foram os únicos a contribuírem com bons filmes. A programação foi muito plural e diversa.

O novo longa de Glenda Nicácio e Ary Rosa, “Todo o Sentimento”, fora o título que parece o de um telefilme genérico, se enfraquece pela sátira um tanto pobre do atual quadro político brasílico. É aquela história: se a verdade é mais grave que a sátira, chegando a ser tragicômica, a sátira perde boa secção da força.

O filme se fortalece sempre que fica no casarão colonial do Recôncavo Baiano, com seus dois atores em mais um momento de cintilação. Aldri Anunciação repete o seu personagem em “Ilhéu”, ainda o melhor filme da dupla, um diretor de cinema agora recluso a uma cadeira de rodas. Lucas Leto, o mais novo, também brilha porquê o fã que arruma um jeito de ser também cuidador do ídolo.

O mais inusitado é o jocoso “Privadas de Suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner. Eles se unem para mostrar a crise de meia idade de uma promotora de eventos, a ótima Martha Nowill, em meio a um ataque de privadas assassinas.

O longa vira um festival de vômitos e fezes de fazer inveja a diretores que se pretendem escatológicos. Há ainda uma pertinente rombo a questões atuais de gênero, além de uma sátira ao universo falsamente seduzido dos influencers.

O mais conservador é “Tudo é Tempo”, de Marcos Guttman, que entrevista o mesmo grupo de quatro eleitores de um escola eleitoral específico, de 2002 a 2022. A teoria em si não é ruim, e o filme deixa prever a complicação do sufragista brasílico, uma hora mais à esquerda, em seguida mais à direita.

“Sabes de Mim, Agora Esqueça”, de Denise Vieira, diretora de arte de alguns filmes de Adirley Queirós, é o representante brasiliense da seleção. Filme razoável, mas problemático em partes do desenvolvimento. O resultado final é positivo pois o filme abre e fecha com belas imagens, em traço próxima à de “A Margem”, de Ozualdo Candeias.

Por termo, “Ana en Passant”, de Fernanda Salso, usa diversas técnicas de animação para falar do luto, o tema mais frequente no festival. Melhor quando procura imagens que só uma animação pode proporcionar, do que nos momentos de rotoscopia, técnica que envolve animação em cima de movimentos de atores e atrizes reais. Nesses casos, melhor seria trabalhar com um elenco de vestuário.

Esta edição ainda trouxe, em sinais paralelas, ao menos dois grandes filmes: “Pitico – Hermes Ayres Azevedo (1881-1959): Historiador da Província”, mais recente longa do veterano Júlio Bressane, e “Os Vivos Caminham à Terreno”, indescritível longa pernambucano assinado pelo jovem Pedro Maia de Brito. Coincidentemente, são longas em preto e branco que exploram possibilidades aventurosas do cinema.

Folha

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