Festival de Joinville abre com Dom Quixote e 80 músicos – 21/07/2026 – Ilustrada
Quando as primeiras notas de Ludwig Minkus ecoaram no palco principal do Centreventos Cau Hansen, a plateia precisou escolher para onde olhar. No palco, 120 bailarinos davam início a “Don Quixote”. No fosso, logo avante deles, murado de 80 músicos da Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás executavam ao vivo a trilha do balé. O Festival de Dança de Joinville transformava, assim, sua noite de rombo, nesta segunda-feira (20), em um espetáculo de protagonismo dividido entre dança e música.
Em vez de esconder a orquestra sob o palco, uma vez que costuma intercorrer nos teatros, a produção deixou os músicos visíveis. Assim, bastava desviar o olhar por alguns segundos para escoltar o trabalho das cordas, dos sopros e da percussão, sob a regência de Eliseu Ferreira, antes de voltar aos bailarinos.
A cerimônia de rombo começou com delongado. Prevista para as 19h, só teve início às 19h37, com discursos do presidente do Instituto Festival de Dança de Joinville, Ely Diniz, da prefeita Rejane Gambin (Novo) e da vice-governadora de Santa Catarina, Marilisa Boehm (PL), proveniente da cidade.
A prefeita, que é jornalista, foi durante muito tempo a voz solene do festival, função agora desempenhada por uma lucidez sintético treinada para reproduzir seu timbre.
O balé começou às 20h05. Fundamentado em episódios do romance de Miguel de Cervantes, “Don Quixote” deixa em segundo projecto as aventuras do cavaleiro para concentrar sua narrativa no romance entre Kitri e Basílio. Ainda assim, é Dom Quixote quem conduz o início da ação. Ao lado de Sancho Pança, surge em sua choupana disposto a partir em procura de Dulcineia.
A rombo preserva um dos elementos mais tradicionais do balé clássico: a pantomima. Antes que a técnica assuma o protagonismo, são os gestos codificados —mostrar, jurar, negar, sonhar— que fazem a narrativa proceder. É um recurso herdado do século 19, quando Marius Petipa criou a coreografia original, e que continua funcionando uma vez que gavinha entre as grandes cenas dançadas.
Logo depois, porém, a protagonista passa a ser outra.
Quando Kitri entra em cena, interpretada por Bianca Teixeira, primeira bailarina do Semperoper Ballett, da Alemanha, ela é ovacionada. Os aplausos surgem antes mesmo das primeiras grandes variações. Ao longo do espetáculo, fica simples o motivo.
Teixeira constrói uma personagem sedutora, espirituosa e levemente ingênua, sempre em movimento, brincando com os homens que a cortejam sem perder o controle inteiro da técnica. Seus giros parecem não terminar, os saltos têm leveza e os equilíbrios são sustentados com aparente facilidade. Era impossível tirar os olhos dela.
Nem mesmo Davi Ramos, primeiro bailarino do The Australian Ballet, conseguia disputar essa atenção. Possuidor de uma técnica também refinada, por vezes parecia desistir momentaneamente a tradução para dar conta da dificuldade dos passos.
A coreografia de África Guzman acentua o caráter popular da obra, explorando castanholas imaginárias, saias rodopiando e movimentos de braços que aproximam o balé das danças ibéricas. O resultado é um espetáculo expansivo, vibrante e, por vezes, incendiário.
A plateia muitas vezes vibrou na mesma vontade. Diferentemente do silêncio quase litúrgico que costuma marcar apresentações de balé clássico, a redondel reagia o tempo todo. Houve aplausos durante variações, gritos de incentivo depois sequências particularmente difíceis e até palmas acompanhando a música. Em alguns momentos, celulares surgiam para registrar trechos da apresentação, um pouco incomum nos teatros, mas que fazia sentido em um espaço para murado de 4.000 pessoas. A reação do público em relação à Teixeira era de fãs diante da sua diva pop.
Ao lado dos bailarinos, a Orquestra Sinfônica Jovem de Goiás sustentou toda a noite em cocuruto nível. A partitura de Minkus exige precisão para escoltar mudanças constantes de curso e sincronizar saltos, piruetas e pantomimas. Sob a regência de Ferreira, a realização privilegiou o cintilação das cordas e a viveza dos metais, preservando o caráter festivo da música.
A escolha faz sentido também pela trajetória de quem estava em cena. A Cia. Jovem Basileu França tornou-se uma potência do festival nas últimas décadas, acumulando 92 colocações entre os três primeiros lugares da Mostra Competitiva, quatro títulos de melhor grupo —incluindo os conquistados consecutivamente entre 2023 e 2025— e formando bailarinos que hoje integram algumas das principais companhias do mundo.
A jornalista viajou a invitação do Instituto Festival de Dança de Joinville





