Festival de Veneza abre com Ink e defende cinema político – 02/09/2026 – Ilustrada
“A dramaticidade dos nossos tempos força os cineastas a fazerem filmes políticos.” Foi mal Alberto Barbera, diretor do 83º Festival de Veneza, inaugurado na manhã desta quarta-feira (2), justificou a poderoso presença de filmes politizados na programação deste ano. E também foi porquê deu a entender que a seleção foi feita antes por uma questão de oferta que propriamente por uma posição militante da curadoria.
É a postura de um evento que pretende não se implicar diretamente nas discussões atuais sobre a obrigação ou não de a arte ter um vista mais socialmente atuante –no último Festival de Berlim, o presidente do júri, Wim Wenders, foi “cancelado” ao tentar separar arte de política.
Sabendo que questionamentos semelhantes surgiriam em uma conversa com a prelo com o júri de seu festival, Barbera chegou a cancelar a coletiva deste ano, e embora tenha alegado conflito de agenda, na boca miúda se falava que ele queria poupar os jurados de qualquer embaraço. Mas o diretor voltou detrás, e na coletiva da manhã desta quarta, a presidente Maggie Gyllenhaal não fugiu do tema.
“Para mim o cinema é sobre empatia. Ele nos permite encontrá-la dentro de nós”, disse a atriz. “O cinema é, sim, fundamentalmente e inevitavelmente político, entre outras coisas.”
O longa escolhido para transfixar esta edição combina mais com a posição de Barbera, de botar o dedo na ferida, mas sem pressionar muito poderoso, que com a visão categórica de Gyllenhaal.
Exibido na disputa pelo Leão de Ouro, “Ink”, do britânico Danny Boyle, mostra o primórdio da trajetória do magnata da prelo australiano Rupert Murdoch, quando adquiriu o tabloide inglês The Sun, em 1969 –em suas mãos, o jornal se tornaria o mais lido do mundo.
A expectativa generalizada diante do filme era de que teria mais foco na figura de Murdoch, o empresário que em cinco décadas reuniria em sua possante frota midiática publicações porquê o The Wall Street Journal e o grupo Fox. E o longa de Boyle até o faz, mas de maneira indireta –o Murdoch vivido por Guy Pearce aparece, mas somente em momentos-chave da trama.
Adaptação da peça homônima de James Graham, que assina o roteiro, o filme não é o retrato dessa personalidade excêntrica e poderosa. Seu meio é a trajetória específica do The Sun desde que o australiano o adquiriu, no termo dos anos 1960, até a dezena de 1980, quando se tornaria desavergonhadamente um jornal sensacionalista e não vasqueiro mais interessado em vender do que em informar.
A real trajetória que seguimos é a de Larry Lamb, vivido sem muito luz por Jack O’Connell, o editor que de indumento formatou o The Sun e o fez se tornar um vitória de popularidade, com base em uma operação simples, ouvir o leitor. Ele fez um jornal conectado à visão de mundo e às paixões populares, nem que para isso fosse preciso, muitas vezes, sacrificar o fundamento do jornalismo, a notícia.
“Ink” significa tinta, em inglês, mas o som da vocábulo remete à {sigla} “inc.” —corporação—, e a escolha se revela um jogo vocabular bastante feliz para o título. Enfim, vemos um tempo em que o jornalismo era feito com mais artesanato, usando tinta —na mídia impressa—, mas que também, já ali, tratava-se de um negócio. E Boyle é muito sucedido em mostrar porquê essa atividade precisa se lastrar entre um ponto e outro.
O diretor, que há décadas parecia meio perdido na curso, reencontra em “Ink” o tom e o siso de ritmo de seus melhores filmes. Logo no primórdio, quando Lamb se lança a recrutar seu corpo jornalístico –pessoas talentosas porém frustradas profissionalmente–, a cena remete àquelas em que o trio de “Cova Rasa”, de 1994, entrevistam locatários para seu apartamento. E o filme tem nesse início certa vitalidade e uma vibração pop que faz lembrar “Trainspotting”, de 1996, seu longa mais cultuado.
“Ink” é valoroso ao observar o processo pelo qual um grupo de profissionais relativamente muito intencionados pode passar, entre o período de sonhos de gerar um pouco novo, talvez promissor, e o momento de venda totalidade da própria espírito, diante da procura por manter supino o número de leitores.
Em secção do tempo, vemos aquela equipe encontrando no fazer do jornal popular um repto intelectual, de encontrar maneiras de viabilizar que histórias esdrúxulas pudessem ir parar impressas no papel, mas escoando, camufladamente, qualquer teor mais sofisticado. Há, ali, uma espécie de inocência e uma crença genuína no jornalismo.
Porém, à medida em que o tabloide começa a fazer sucesso, a equipe perde a mão, e Lamb, em próprio, se torna obcecado por aumentar as vendas. Sem se dar conta, ultrapassa fronteiras éticas, e dali a estar editando o jornal que se celebrizaria por destruir reputações e contribuir para a idiotização dos leitores, foi somente um pulo.
E o mesmo aconteceu com Murdoch —trilhou com desenvoltura o caminho entre o pequeno empresário que queria só revitalizar um jornal decadente até se tornar o pantagruélico magnata de uma mídia especializada em propagar ideias reacionárias e gerar fake news. Mas durante grande secção do filme, ele somente se limita a exigir bons resultados nas bancas, sem maiores interferências editoriais. O Murdoch do filme é uma figura por demais imprecisa.
Só muito na reta final é que Boyle aponta a mira para ele –mais especificamente em um poderoso, porém tardio, trecho mostrando algumas manchetes do The Sun real, relacionando-as a fatos desanimadores do mundo atual.
O mesmo que, segundo Barbera, força os artistas a falarem de política em seus filmes, ainda que nem sempre da forma enfática e direta porquê muitos de nós esperaríamos.





