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Festival honra legado de Milton Nascimento em Três Pontas
Celebridades Cultura

Festival honra legado de Milton Nascimento em Três Pontas – 16/08/2026 – Ilustrada

Numa noite de sexta-feira, num banquinho em frente à terreiro mediano de Três Pontas, no sul de Minas Gerais, três jovens se unem para tocar violão. Pela manhã, uma fanfarra desfila pelas ruas e é seguida por moradores, que dançam. No pôr do sol, uma família leva instrumentos para o cemitério e faz uma tocata para uma centena de pessoas. Obras de Milton Promanação e Wagner Tiso unem todas as cenas.

A ocasião é o retorno do festival Música do Mundo, que interrompeu um hiato de dez anos, da última quinta-feira até nascente domingo, com uma edição majoritariamente gratuita em homenagem aos dois filhos mais ilustres da cidade de 55 milénio habitantes.

O evento foi criado em 2009 por Maria Dolores, que lançou há 20 anos a biografia “Travessia: A Vida de Milton Promanação”. A inspiração foi o show “Paraíso”, em 1977, quando o artista decidiu levar amigos uma vez que Chico Buarque, Clementina de Jesus, Gonzaguinha e Beto Guedes para tocar de perdão na cidade em que cresceu. Um monte de pessoas apareceu e o show entrou para a história uma vez que o “Woodstock mineiro”.

A versão atual tem muito mais estrutura do que aquela, que, em sua casualidade, conseguiu conquistar segmento do que de mais empolgante acontecia na Música Popular Brasileira. Não é essa a pretensão do Música do Mundo, mas olhar para o legado músico criado dessas figuras célebres numa cidade de interno.

Dos homenageados, só Wagner Tiso, de 80 anos, pôde estar presente —Bituca, que tem 83 anos, recebeu o diagnóstico de demência por corpos de Lewy no ano pretérito e quase não faz mais aparições públicas. No sábado, quando shows de nomes uma vez que Nando Reis, Chico Chico e Beto Guedes aconteceram no palco principal, no aeroporto da cidade, Tiso participou de uma homenagem ao camarada.

Ele subiu ao palco no término da apresentação do Ânima Minas, um tributo feito a Bituca por músicos trespontanos que trabalharam com ele ao longo da vida, e tocou “Maria, Maria” e “Coração de Estudante” no piano. Naquela tarde, em conversa com a reportagem, elegeu a última uma vez que sua parceria preferida com Milton.

“Foi uma espécie de hino das Diretas Já e fez segmento do movimento inteiro. Eu fiz essa música para a trilha do filme do Silvio Tendler, ‘Jango’, sobre o João Goulart, e ela se chamava ‘Tema de Jango’”, ele afirma. “Aí o Bituca foi ver a estreia do filme comigo e perguntou se podia botar uma letra nela. Eu falei ‘pô, Bituca, não precisa nem pedir’.”

A música lançada em 1983 também apareceu na noite anterior, durante a tocata dos Tisos no cemitério. O encontro aconteceu pela primeira vez há 50 anos, depois que Mário Tiso pediu que os familiares tocassem na frente de seu túmulo quando morresse. A celebração cresceu e virou uma tradição da família e da cidade, agora incorporada ao festival.

Foi um dos momentos mais bonitos do evento. Uma dezena de cantores e músicos de idades diferentes passou por clássicos de Milton, uma vez que “Encontros e Despedidas”, “Travessia” e “Morro Velho” enquanto crianças brincavam pelas lápides e adultos se espalhavam, sentados no pavimento, em cadeirinhas e nos próprios túmulos.

Quando chegou, Wagner Tiso foi introduzido uma vez que “um primo que está aprendendo a tocar piano” e logo levou algumas pessoas às lágrimas. A noite seguiu com um revezamento de microfone e faixas de gente uma vez que Gilberto Gil, Pixinguinha e Chico Buarque.

O som dos instrumentos e das vozes ecoando por um cemitério é um bom retrato da legado sonora da cidade, um lugar onde a música sai de todos os cantos —pelas frestas das janelas das casas, portas das igrejas, palquinhos dos bares e corredores das escolas, com grupos de fanfarras que também desfilaram no evento.

Na manhã de sexta, a Margem Marcial Mário Tiso fez um cortejo que saiu da terreiro principal e terminou ao som de “Raça”, de Milton, em frente à mansão em que o artista cresceu. As irmãs dele, Jaceline e Beth, e uma prima, Vilma, assistiam à apresentação da janela.

Foi muito nessa mansão, no caminho para a escola, que Wagner Tiso viu Milton pela primeira vez, ainda crianças. “Eu sempre achei muito interessante aquela figurinha sentada na escadaria com uma gaita entre os joelhos e um violão embaixo das pernas”, lembra o músico. “Ele ficava ali tocando e soprando a gaitinha. E eu pensava ‘poxa, é uma figura estranha’. Mas eu já via que dali saía som e formosura.”

Anos depois, a dupla passou a frequentar o Pizza Dog, que fez segmento do volta de bares do Música do Mundo. Chico Chico e outros músicos mantiveram a tradição do lugar e improvisaram no piano do irmão de Wagner Tiso, Gileno, que fica ali. Uma outra forma que o evento encontrou de recriar a atmosfera daqueles tempos.

“O Pizza Dog virou um ponto de músicos por conta do Bituca. Ele chegava na cidade, ia para lá e todo mundo ia detrás”, lembra Betina Duarte Sousa, amiga de Milton e segmento da produção do evento.

“Ele é um agregador. O dia a dia fazia a gente se dissipar, mas, quando ele dizia que vinha, era uma sarau. Além de trazer um tanto de gente de fora, todo mundo se juntava para fazer as programações. Era bom demais da conta.” Beth, mana de Milton, confirma. “As visitas dele viraram um feriado, ninguém queria ir para a escola nem transpor de perto. A gente só queria permanecer grudadas no Bituca.”

Era na rancho de Duarte Sousa que Milton fazia caminhadas quando voltava para a cidade. Da estrada de terreno é provável ver a serra que batizou Três Pontas e foi adaptada por Milton numa pintura que viraria a cobertura do álbum “Geraes”, que completa cinco décadas neste ano e também foi comemorado pelo festival.

Nas mãos do cantor, o cenário virou um esboço simples, com três montanhas pontudas sob o Sol e um trem avançando na ferrovia. São elementos da história da cidade em que o artista cresceu, mas também partes indissociáveis de sua arte —o repercussão das montanhas que usou para aprender a trovar, o trem que trazia os discos que o influenciariam, o horizonte de suas canções e, enfim, o sol na cabeça.

A repórter viajou a invitação do Festival Música do Mundo

Folha

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