Filme ‘A Divina Sarah Bernhardt’ ignora talento no teatro – 16/07/2026 – Ilustrada
Reza a mito que não houve maior atriz de teatro do que a francesa Sarah Bernhardt —a não ser, talvez, a italiana Eleonora Duse. É curioso que recentemente o cinema tenha se devotado a falar das duas: Pietro Marcello lançou “Duse” no ano pretérito, ainda inédito no Brasil, enquanto, em 2024, Guillaume Nicloux filmou “A Divina Sarah Bernhardt”, que agora chega aos cinemas do país.
É muito verdade que nenhum dos dois fornece uma dimensão substancialmente densa sobre a vida e obra de qualquer uma delas, mas ao menos “Duse” se arrisca a mostrar a italiana em plena ação no palco. Já o filme de Nicloux se centra, quase todo o tempo, na vida pessoal de Bernhardt —e falar da grande senhora francesa sem dar uma noção do que ela provavelmente fazia em cena para ser tão admirada é, de saída, um desperdício de oportunidade. Mas vai além: soa também uma vez que um gesto de instabilidade, se não propriamente de fraqueza.
Até há um trecho em que vemos Bernhardt no palco, ainda no prelúdios do filme. Mas Nicloux distorce a função da cena para fazer uma pândega desnecessária com o testemunha. Vemos a personagem no que parece ser seu leito de morte, falando sobre seus últimos instantes —até que a câmera se afasta, e a verdade é revelada: não é Sarah quem está morrendo, mas sua personagem na peça “A Mulher das Camélias”, um de seus grandes êxitos no teatro.
Mas a atuação é o tempo todo cinematográfica, feita para a câmera, com o intuito de tapear por alguns instantes o testemunha. E, quando vemos que, na verdade, Sarah está em pleno palco, o filme involuntariamente acaba sugerindo que seu modo de atuar era contido, cinematográfico –e qualquer pessoa que já viu trechos com a Bernhardt verdadeira em filmes sabe que suas performances, mesmo para o cinema, eram tudo menos “cinematográficas”.
Mas, ao menos para traçar um retrato de Sarah fora dos palcos, o filme é mais efetivo. Pelo que nos diz o longa, era uma mulher fascinante também longe da ribalta. Francamente bissexual, era hedonista, espirituosa e um pouco excêntrica. Tinha o hábito de dormir dentro de um caixão e colecionava animais exóticos.
No termo da vida, quando problemas sérios no joelho a obrigaram a mutilar uma das pernas, ainda mantinha o humor: “Um circo me ofereceu uma riqueza para exibir ao grande público a minha perna. Eu só não entendi qual das duas eles querem mostrar”.
É sobretudo graças a esse paisagem vivo, mordaz e autoirônico da protagonista que torna “A Divina Sarah Bernhardt” um filme em universal deleitável, por vezes envolvente, embora idas e vindas temporais o tornem um mica difuso. E a obra deve tudo a Sandrine Kiberlain, que tem uma performance expansiva, enxurrada de pujança e de perdão. É principalmente divertida quando dá pequenas gargalhadas para pontuar falas mordazes da personagem.
A Bernhardt de Kiberlain é uma geração bastante distinta de outras duas versões de filmes anteriores que também falavam sobre a diva teatral. Em “A Incrível Sarah”, de 1976, a, em universal, magnífica Glenda Jackson deu um belo passo em falso na curso, mostrando-se incapaz de tornar sua personagem minimamente crível. Era uma atriz moderna, “anos 1970” demais, além de um mica britânica para dar vida à grande senhora francesa das artes cênicas da viradela do século 19 para o 20.
Muito melhor se saiu Béatrice Agenin, no óptimo “Amélia”, de 2000, fantasia cômica de Ana Carolina sobre o período em que a Sarah passou uma temporada no Brasil. Sua Bernhardt era mais grandiloquente, chegada a faniquitos e com um tino de tragédia pronunciado.
A de Kiberlain é mais solar —também afeita a maneirismos, mas não demonstra tanta autopiedade nem a mesma propensão à solenidade. Talvez a de Agenin se aproxime muito mais de uma vez que Sarah Bernhardt devia ser na intimidade, mas a de Kiberlain é um trabalho de formação inaudito.
Infelizmente, o filme perde tempo demais com a devoção amorosa de Sarah pelo ator Lucien Guitry, O ator Laurent Lafitte parece desconectado do personagem, que resulta fatigante: ficamos sem entender o que Sarah viu nele, entre tantos outros homens notáveis da idade.
E várias dessas personalidades aparecem em cena —de Alphonse Mucha a Émile Zola, passando por Sigmund Freud, mas a maior segmento surge mais uma vez que alusões “wikipédicas” do que de traje uma vez que figuras relevantes para a vida da atriz. Ao que parece, foi mesmo Guitry o único a ter alguma influência sobre ela.
O filme cumpre muito a tarefa de dar uma noção sobre quem foi a divina Bernhardt, mas isso parece insuficiente. Por mais que Kiberlain nos mostre ao menos uma faceta engraçada —e até afetuosa— sobre ela, o traje é que Sarah Bernhardt continua sendo uma figura mítica ainda sem ter sido devidamente desvendada. Permanece a ser, supra de tudo, uma mito.





