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Filme com Conceição Evaristo lota na estreia em Brasília
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Filme com Conceição Evaristo lota na estreia em Brasília – 18/09/2026 – Ilustrada

Tapume de 50 pessoas ainda formavam uma fileira do lado de fora do Cine Brasília quando a sessão de “Se Eu Fosse Vivo… Vivia”, de André Novais Oliveira, já havia começado na noite de quinta-feira (17). Com os ingressos esgotados e os 619 lugares da sala ocupados, elas esperavam para saber se haveria desistências depois da exibição do curta que antecedia o longa.

No término, ninguém ficou de fora. Secção do público entrou e se sentou no pavimento para escoltar a estreia brasileira do quarto longa do cineasta mineiro, o filme mais concorrido desta edição do Festival de Brasília.

O interesse repetiu o que já havia realizado em fevereiro, quando o filme teve sua estreia mundial na mostra Quadro do Festival de Berlim, onde também teve sessões cheias.

Há pelo menos dois chamarizes evidentes. Um é Novais, diretor de “Temporada”, “Ela Volta na Quinta” e “O Dia que Te Conheci” e um dos principais nomes de uma geração do cinema mineiro. O outro é a escritora Conceição Evaristo, de 79 anos, que faz no longa sua estreia uma vez que atriz.

“Se Eu Fosse Vivo… Vivia” acompanha Gilberto e Jacira, um parelha de Resenha, na região metropolitana de Belo Horizonte, ao longo de cinco décadas. Na juventude, eles são interpretados por Jean Paulo Campos e Tainá Evaristo —sobrinha da escritora. Já idosos, ganham os rostos de Norberto Novais Oliveira, pai do diretor e presença recorrente em seus filmes, e Conceição.

A aparente simplicidade da premissa, no entanto, engana. O filme começa próximo do registro cotidiano e familiar pelo qual Novais ficou publicado, mas aos poucos se desloca para o realismo fantástico e chega à ficção científica.

Quando Jacira adoece e é hospitalizada, Gilberto passa a viver acontecimentos que não consegue compreender. Tempo e espaço deixam de funcionar de maneira convencional, enquanto o filme transforma a experiência do luto em um tanto progressivamente estranho.

Essa passagem do cotidiano para a fabulação não surgiu agora no cinema de Novais. O diretor aponta uma vez que precedente o curta “Quintal”, exibido no próprio Festival de Brasília em 2015. Feito logo depois de “Ela Volta na Quinta”, o filme lhe permitiu evadir de uma classificação que começava a escoltar seu trabalho, a de um cinema híbrido, entre ficção e documentário.

“Eu sempre considerei as coisas que eu faço dentro da Filmes de Plástico uma vez que ficção. Mesmo com um pezinho ali no documentário, eu sempre decupei, sempre pensei o filme uma vez que uma ficção”, diz.

Novais conta que já se interessava pela literatura fantástica, em próprio pelos contos do mineiro Murilo Rubião. “Fazer ‘Quintal’ foi um manifesto conforto”, afirma. Ele se recorda de uma reparo do crítico Juliano Gomes, segundo a qual, naquele momento, parecia possuir para muitos a teoria de que o cinema preto não tinha “recta de fabular”.

“‘Quintal’ brinca muito com isso, de ter a coisa naturalista, do realismo, e de repente vir um tanto fantástico, que justificação uma certa estranheza. Às vezes justificação até um manifesto humor.”

O impulso decisivo para levar essa experiência a um longa veio da morte de sua mãe, Maria José Novais Oliveira, a Dona Zezé, em 2018. Ela também atuava nos filmes do rebento. Dona Zezé, aliás, interpretava a tia de Juliana, personagem de Grace Passô, em “Temporada”.

Grande vencedor do Festival de Brasília de 2018, levou cinco Candangos, entre eles os de melhor filme e atriz. Antes, ela e o marido já haviam protagonizado “Ela Volta na Quinta”, de 2014, uma vez que um parelha que enfrenta uma crise depois de décadas de matrimónio.

“Comecei a pensar nesse filme a partir do sofrimento que vivi com o luto da minha mãe. O luto secção da morte, que é uma das coisas mais naturais do mundo, da vida, mas, vivendo o luto, senti um tanto que margem o realismo fantástico, o irreal.”

A ficção científica veio depois. Novais diz que ela não estava nos primeiros tratamentos do roteiro e que o prólogo também foi dilatado durante o processo. A estrutura acabou servindo para aproximar o primórdio e o término do filme.

“Hoje eu acho principal para o filme. Secção dessa coisa do realismo fantástico, da ficção científica, vem dessa tentativa de grudar uma coisa do primórdio com o final.”

A teoria de invitar Conceição Evaristo apareceu numa reunião da produtora Filmes de Plástico. “Quando surgiu o nome, eu falei ‘nossa, é isso. Com certeza é’.” A dificuldade inicial foi conciliar a agenda da escritora.

Quando finalmente recebeu o invitação, Conceição respondeu que aceitaria porque gostava de desafios. Era sua primeira experiência num set de cinema. Para Novais, o primeiro duelo foi outro —perder o pavor da própria atriz.

Num almoço, ainda zeloso na aproximação, perguntou se ela tomava cachaça, porque o restaurante servia uma que lhe parecia mormente boa. “Ela falou ‘ô menino, vê se eu tenho faceta de quem toma cachaça’. Aí eu chamei o garçom e falei ‘traz duas portanto’.”

No set, diz o diretor, Conceição Evaristo demonstrava curiosidade sobre o funcionamento da câmera e sobre as diferentes etapas da filmagem. As conversas acabaram chegando ao processo de escrita. Em determinado momento, ela pediu a Novais que lhe ensinasse a fazer roteiros.

“Eu falei ‘caramba!’. Ela tinha uma curiosidade muito grande. Eu não duvido que um dia ela venha a redigir um roteiro.”

Conceição também discutia o texto e fazia sugestões. A preparação de elenco, comandada por Kelly Pfeiffer, aproximou a escritora de Norberto Novais. O diretor guarda no celular um vídeo de um dos exercícios em que os dois dançam samba.

A combinação entre os dois atores idosos é um dos centros do filme. Ela também reforça uma propriedade antiga do cinema de Novais —colocar diante da câmera familiares, amigos e atores profissionais sem estabelecer entre eles uma fronteira perceptível.

Desta vez, porém, esse cotidiano publicado funciona exclusivamente uma vez que ponto de partida. O diretor que filmou durante anos conversas, casas, empregos, ônibus e relações familiares em Resenha usa o mesmo envolvente para conduzir seus personagens a um território que já não obedece inteiramente às regras do mundo real.

Para Novais, a mudança não representa um desleixo do cinema que fazia antes. É uma ampliação de um tanto que já estava lá. “Foi um caminho oriundo”, diz.

O repórter viajou a invitação do Festival de Brasília do Cinema Brasílio

Folha

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