Algumas camadas se impõem entre “Michael”, cinebiografia de Michael Jackson, o maior planeta pop do século 20, e o testemunha. Para vê-la uma vez que ela é, ou seja, uma vez que um filme, é necessário ter em mente suas implicações e complicações.
Em primeiro lugar, a polêmica em torno da preterição de toda e qualquer menção aos casos de pedofilia envolvendo a estrela. Foram rios de verba despejados para que esse pretérito não viesse à tona, o que é compreensível, embora não desejável de um ponto de vista pedagógico.
Em segundo lugar, a despeito dos milhões de discos vendidos, a música e a dança do planeta são de primeiríssima ordem, com passos que marcaram história e sucessos até hoje cantados —”Beat It”, “Billy Jean”, “Thriller”, “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”, entre muitos outros.
Em terceiro lugar, é um filme chapa-branca. E neste caso não teria uma vez que ser dissemelhante. Toda a família está envolvida. Até o sobrinho de Michael, Jaafar Jackson, no papel principal, contribui para a sensação de filme em família.
O diretor é o competente Antoine Fuqua, mas precisaria trabalhar nas entrelinhas se quisesse contrabandear alguma teoria subversiva. Não foi o que fez.
Convenhamos, é um fenômeno. Um artista com voz, malemolência e carisma raros. Michael Jackson só nasce um. E é uma vez que um cometa —tão próprio que parece não ter uma vez que porfiar muito. Meio século é muito para alguém tão fora de série, no melhor dos sentidos.
Com tantas coisas boas para expressar, evidente que teriam coisas ruins também. Algumas delas estão sugeridas, na incapacidade de crescer, na infantilidade que chega a irritar, na falta de jogo de cintura para mourejar com o pai conforme conquistou renome e riqueza.
Talvez o elemento mais interessante nesse sentido seja a presença do segurança Bill Bray, vivido por Keilyn Durrel Jones. É ele que acompanha Michael o dia inteiro, testemunha seu sofrimento, suas angústias, as coisas não externadas.
Em muitos aspectos, “Michael” se limita a ser uma enunciação de paixão dos irmãos ao grande rei do pop, o ser humano incrível que se preocupa com crianças doentes e nutriz os animais.
E tem a música, que o fez e o formou. A maior secção de tudo. A música é a responsável por Michael Jackson ter chegado no Olimpo. E é nesse quesito que o filme tem seus maiores problemas, ainda que no término se sustente porque, justamente, a música é muito boa. E uma vez que é uma produção familiar, ouvimos sempre as gravações originais, o que é uma maravilha.
Vamos, porém, aos problemas. Num filme desse tamanho, não faz muito sentido se preocupar tanto com a verdade dos fatos. Mas custa informar que “Off the Wall”, de 1979, não é o primeiro disco solo de Michael Jackson, uma vez que fica sugerido, mas o quinto?
E quando ele informa que já está trabalhando no álbum e que pediu umas músicas para Rod Temperton, o grande compositor inglês, custa tocar o segundo maior hit do disco, “Rock With You”, tão acachapante quanto o primeiro, “Don’t Stop ‘Til You Get Enough”?
Obviamente não são faltas graves, mas revelam um claro descaso com a história da discografia, geral a tantas outras biografias musicais, para não expressar a todas. Não se trata de pedir didatismo, mas um pouco mais de cuidados com a história dos lançamentos.
Nesse sentido, o disco solo anterior do planeta, “Forever, Michael”, de 1975, tem uma das canções mais lindas de todo o repertório da família, “One Day in Your Life”, também ausente do filme.
A curso solo de Michael Jackson cresceu em paralelo com o aumento do sucesso dos Jackson 5, rebatizado mais adiante uma vez que The Jacksons. Por mais que seus discos solo recebessem mais atenção da gravadora, seu pai tirânico cuidava mais dos trabalhos dos cinco irmãos, que eram muito bons, de vestuário.
O filme pula todo esse caminho paralelo e preguiçosamente dá a entender que “Off the Wall” surgiu do zero, uma vez que um resistência do planeta, quando na verdade ele já estava há quatro anos sem lançar zero sozinho.
O destaque vai para a estação do disco “Thriller”, de 1982. Vemos o zelo com as coreografias, as filmagens dos videoclipes de “Beat It”, “Thriller”, a pressão de Michael Jackson e da CBS para que sejam veiculados pela MTV, que lamentavelmente ainda era segregacionista no início dos anos 1980, a explosão do disco nas paradas.
O filme não vai muito além do sucesso. Não entra nos anos mais problemáticos, em que as constantes operações plásticas o deixam mais recluso, quando começam as acusações de pedofilia esmiuçadas em reportagens e documentários.
Assumir que é um recorte da construção do fenômeno foi um acerto nesse sentido. Para dar conta de tudo mais, seria necessário muito mais que um longa.
“Michael” nos mostra por que um garoto preto de Gary, Indiana, se tornou o maior planeta do século 20. E ainda se dá ao luxo de escamotear algumas grandes canções no caminho.
