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Filme sobre desigualdade social em mundo pós apocalíptico 23/07/2026
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Filme sobre desigualdade social em mundo pós-apocalíptico – 23/07/2026 – Ilustrada

Meses depois sua primeira exibição pública no Brasil, estreia em nosso rotação mercantil o mais recente longa de Davi Pretto, “Horizonte Horizonte”, grande vencedor do Festival de Brasília do ano pretérito. A estreia mundial foi há pouco mais de um ano, no prestigiado festival de Karlovy Vary, na República Tcheca.

O filme descreve um mundo distópico em que os mais ricos moram em bairros-fortalezas de uma cidade dividida e os mais pobres, que representam a grande maioria, vivem de subempregos, ou sem ocupação qualquer, e usam rastreadores. O apocalipse da humanidade, de uma sociedade, da vida urbana, do capitalismo.

Nesse contexto, vaga porquê um zumbi um varão denominado de K., por desculpa de uma estranha cicatriz em seu ombro. Ele tem amnésia e não lembra quem é ou de onde veio, mas sonha recorrentemente com um mundo dissemelhante daquele que vê, de prédios altos com belas vistas e grandes piscinas.

Rodado em Porto Prazenteiro, “antes e depois da enchente histórica de maio de 2024”, porquê informa um letreiro no primórdio, o filme faz da capital gaúcha um cenário de ficção científica em que um horizonte provável realmente acontece, graças ao aquecimento global e ao desarrimo das políticas sociais que visam diminuir as desigualdades.

K. remete a Kafka e ao personagem Josef K., de “O Processo”. Mas o filme, porquê muitos outros do cinema contemporâneo, carrega várias referências, de “O Varão Sem Pretérito”, de Aki Kaurismaki, a filmes pós-apocalípticos porquê “No Mundo de 2020”, de Richard Fleischer.

Nesse tipo de distopia, porém, ninguém supera George Romero, que, em “Terreno dos Mortos”, de 2005, quarto longa de sua série sobre mortos-vivos, faz um horror político de rara força, e de algumas sintonias com a obra de Pretto: pessoas fadadas a se movimentarem porquê zumbis, ricos protegidos da maioria da sociedade, frágil relação entre a parcela majoritária e a minoritária, prédio cimalha encurralado por chuva.

É discutível a teoria de que tudo é político. A resposta mais usada a tal certeza é: se tudo é político, zero o é de indumento. Ou se pensa em uma adaptação conciliadora e se fala em níveis de politização, do mais raso ao mais afrontador. Porquê medir uma obra de arte nesses termos?

Convém logo separar as coisas e expressar que “Horizonte Horizonte” é também um filme político, de reação às políticas de descaso que vemos, não só em Porto Prazenteiro, porquê em diversas outras capitais brasileiras, incluindo as maiores, São Paulo e Rio de Janeiro. Parece um Romero light, uma obra que não ultrapassou a estratégia dos meios-tons.

Romero não é tão explícito a ponto de colocar uma fala porquê “esta vida de merda que a gente leva cá é o que sustenta eles lá do outro lado”, e talvez por isso seu filme tenha mais força. O recado, ou, se preferirem, a mensagem, é a mesma: exploradores e explorados num horizonte em que não há mais nuances entre os primeiros e os segundos.

Se a mensagem é evidente no filme brasílico, o mergulho nos gêneros nunca chega a ser definitivo, seja na ficção científica pós-apocalíptica, seja no horror psicológico, que fica ainda mais na sugestão. O filme representa a era do “pós-tudo”, do pós-gêneros, do hibridismo porquê razão de ser.

Essa limitação conceitual é a mesma de boa segmento dos filmes brasileiros recentes, embora não seja exclusividade do nosso cinema. E ocorre também em filmes bem-sucedidos artisticamente. Parece que há um receio de se assumir porquê segmento de um gênero, de que a associação desse ao filme uma modo mais mercantil.

Talvez por isso muito se comentou entre cinéfilos, nos festivais por onde o filme passou, sobre o uso da perceptibilidade sintético, que neste momento ainda é notícia, mas que provavelmente será a primeira coisa esquecida com o percurso dos anos. Porque imagens semelhantes estão em filmes passados que não usaram IA. Os meios de se chegar a tais imagens, nesse caso, não importam tanto.

“Horizonte Horizonte”, nesse sentido e apesar das limitações apontadas, deveria ser mais lembrado por algumas imagens prosaicas, de encontros humanos, de resistência pela apreço. Essa é sua maior força, ainda que as cenas de ficção científica fortaleçam as prosaicas pelos contrapontos oferecidos.

Folha

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